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“Para as empresas francesas, o Brasil não é qualquer mercado. É parte de sua estratégia global de desenvolvimento”

No final do ano passado, a Câmara de Comércio e Indústria da região de Paris Île-de-France (CCIP IDF) deu início às suas atividades no Brasil. Com sede em São Paulo (SP), o objetivo da filial local da instituição é ajudar empresas francesas a encontrarem parceiros brasileiros, assim como apoiar empresários locais que queiram empreender em Île-de-France. A entidade existe há 200 anos em Paris Île-de-France, a qual é uma das 26 regiões administrativas (chamadas de Departamentos, e que equivalem aos Estados no Brasil) da França. Com mais de 11,6 milhões de habitantes, 844 mil empresas e renda per capita de 42 mil euros, a região é responsável por 31% do PIB francês – o que corresponde a 4% do PIB europeu – e abriga cidades importantes como Paris e Versalhes.
Abaixo, segue uma pequena entrevista que fiz recentemente com Benjamin Quicq, representante da associação no Brasil. Quicq é um francês que vive há anos no País. Ruivo, bem-humorado, ele trabalha pela aproximação econômica entre as duas nações. Abaixo, nossa conversa:
Qual a natureza do trabalho da Câmara de Comércio e Indústria da região Paris Île-de-France (CCIP IDF) no que tange às relações econômicas entre França e Brasil?
Benjamin Quicq – A função da CCIP IDF no Brasil é reforçar o apoio local às empresas da região de Paris Île-de-France. A CCIP é a primeira câmara de comércio e indústria da Europa. Representamos 843.000 comerciantes, indústrias e prestadores de serviços – um tecido econômico que corresponde a 31% do PIB francês, ou 550 bilhões de euros, e 4% do PIB europeu. As missões da CCIP IDF são representar tais companhias, apoiar seus projetos e acompanhar o desenvolvimento das pequenas e médias empresas, formar as futuras gerações, desenvolver o ensino profissional e promover a região-capital.Nossos conselheiros acompanham os empresários em cada etapa do projeto: criação, recuperação ou retomada de empresa. Transmitem informações qualificadas: jurídicas, fiscais, referentes a banco de dados econômicos e formalidades. E ajudam na melhoria da performance: inovação, qualidade, RH, ambiente, implantação, comercial, internacional.Temos um dispositivo de formação acadêmica composto por 24 universidades particulares, representadas por 31.700 alunos, sendo 16.700 em aprendizagem e 500 em formações especializadas.Ainda apoiamos as relações comerciais entre França e Brasil, detectando oportunidades de negócios no Brasil e trazendo nossas empresas para se implantar ou achar parceiros comerciais por aqui. Também amparamos nossas universidades para que construam parcerias educacionais com as principais faculdades brasileiras.Queremos ainda ajudar as empresas brasileiras a se estabelecer em nosso país. Temos um projeto, chamado Grande Paris, que vai facilitar a vida das empresas da região Île-de-France.
Qual o porte, em números, das relações econômicas entre França e Brasil?
Quicq – Para as empresas francesas, o Brasil não é qualquer mercado. É parte de sua estratégia global de desenvolvimento. As relações econômicas entre França e Brasil mais do que duplicaram em relação a 2003, atingindo cerca de 8,2 bilhões de euros em 2013. Mais de 600 empresas francesas estão presentes (todos listadas no índice CAC40, as 40 maiores, excluindo a construção) e representam cerca de 500.000 empregos no Brasil. A França é um dos países que investem mais no Brasil (5º lugar, 3,2 bilhões de euros de fluxo em 2010, mais do que na China e na Rússia acumuladas). São investimentos para conquistar mercado (de serviços, como a Accor, ou varejo, como o Casino). O Brasil é o maior mercado da França na América Latina, sendo responsável por dois terços das nossas exportações para a região, à frente do México (19%), Argentina (11%), Colômbia e Chile (8% cada). A posição do Brasil em nosso comércio exterior está mantida (menos de 1% dos nossos fluxos comerciais totais). A França tradicionalmente compra do Brasil produtos agroalimentares (incluindo soja) e óleo e, cada vez mais, bens industriais. Ela exporta para cá principalmente bens de capital e produtos industriais (aeroespaciais, equipamentos para produtos farmacêuticos e automotivos, em particular).
As empresas da região de Île-de-France, que você representa, costumam investir no Brasil?
Quicq – Sim, as nossas empresas costumam investir no Brasil. São companhias de TIC (Tecnologia de Informação e Comunicação), aeroespacial, equipamentos automotivos e produtos farmacêuticos. Temos empresas de todos os portes investindo aqui.
Em sua visão, como será o ano de 2015 para a economia francesa? E para a economia brasileira, como será o ano de 2015?
Quicq – O Ano 2015, em geral, não será melhor do que 2014 para os dois países, mas a França é uma nação inovadora, com recursos humanos altamente qualificados. O Brasil tem uma economia forte, apesar da desaceleração que sofre, e deve fomentar seu programa de inovação. Há muitos investimentos previstos e outros por vir. Os dois países são complementares. Nossas empresas de TIC, de transportes e farmacêuticas vão continuar a se implantar e investir. Em um período de crise, a pior coisa é segurar os investimentos. São anos de desperdício para se recuperar. Se o Brasil facilitar o processo de abertura das empresas, acredito que poderemos ter bem mais investimentos do que o previsto. Importante ressaltar que o câmbio terá um impacto forte nas nossas relações comerciais esse ano.
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