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Seu maior aliado ou seu pior inimigo

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David Feffer é presidente do Grupo Suzano (Divulgação)

Em mais de 30 anos de experiência profissional, conheci muitas iniciativas. Startups promissoras com líderes geniais; empresas com negócios completamente disruptivos; outras que souberam aproveitar um nicho de mercado não percebido até então e aprenderam rapidamente a surfar neste “oceano azul”. Vi também companhias que surgiram com propostas que me pareciam tão básicas que me fizeram pensar “como não pensei nisso antes?”; grandes empresas centenárias que souberam ler com exatidão o cenário em que estavam inseridas e se reinventaram para seguir despontando em seus ou em novos mercados; bem como aquelas que foram diluídas em negócios menores ou, simplesmente, deixaram de existir, como se isto fosse simples.

Muitos já se perguntaram: qual o segredo do sucesso dessas companhias? E qual o motivo do fracasso de tantas outras?

Tanta diversidade me fez refletir sobre algo que, acredito, muitos já se perguntaram: qual o segredo do sucesso dessas companhias? E qual o motivo do fracasso de tantas outras? Compartilho aqui a resposta que encontrei, nem certa, nem errada, apenas umas das minhas respostas: o segredo está no equilíbrio entre o “coração” e a “razão”, ou melhor, entre o sonho e emoção que nos move e a razão e resiliência necessária para realizá-los.

É certo que uma empresa sem alma, sem amor pelo o que faz, sem um propósito maior com a vida de seus clientes, colaboradores e stakeholders, em geral, tem seus dias contados. Só pelo resultado financeiro terá dificuldade em atrair e engajar aqueles de quem precisa e, assim, perseverar. Em algum momento, terá de se ajustar. Por outro lado, o oposto também é verdadeiro, se ela só tiver emoção, coração, propósito, mas não conseguir buscar sua sustentabilidade econômica e financeira, não conseguirá seguir adiante. O grande desafio é a busca do equilíbrio, o “caminho do meio”, o “Tao”, como diriam os chineses, ou o “tal do equilíbrio”, como diriam os mineiros.

Felizmente, as empresas, desde startups às centenárias, têm migrado frequentemente para o modelo que o Capitalismo Consciente definiu com maestria, inspirando e alterando o mundo empresarial e suas relações com o meio. As empresas estão cada vez mais conscientes de que elas têm sim um objetivo que vai muito além do “gerar lucro” e alimentar um círculo virtuoso de riqueza, emprego e renda. O mundo empresarial tem descoberto rapidamente que ele não existe de forma separada, mas sim completamente integrado e interdependente, e que um modelo de negócio sustentável engloba cada vez mais os seguintes pilares na construção de estruturas sólidas e lucrativas: propósito maior; cultura consciente; liderança ou gestão consciente; e integração dos stakeholders na condução dos negócios. Afinal, como trazido pela pesquisa global de confiança – Edelman Trust Barometer 2016 -, em um mundo em que 90% das pessoas acreditam que “uma empresa pode tomar atitudes que aumentam os lucros e, ao mesmo tempo, contribuem para melhorar as condições econômicas e sociais na comunidade onde atua”, compartilhar valor tornou-se premissa para atuação das empresas.

É importante lembrar que o coração de uma empresa pode movê-la para o “bem” ou para o “mal”, pode ser seu maior aliado ou seu pior inimigo, a depender do quanto souber equilibrar com o racional e tornar efetivo seu propósito. De fato, o amor pelo que se faz nos move. Mas, em todas as áreas e processos – operação, estratégia, inovação, societária, relações familiares – e, em especial, nos momentos críticos, é necessário dar o devido tempo para que as emoções decantem e sejam racionalizadas. A razão precisa de espaço para buscar o melhor caminho, trazer o retorno adequado sobre o capital empregado e desenvolver o negócio. Assim, se me perguntarem o que as empresas bem-sucedidas têm em comum, respondo que elas, ao terem encontrado seu ponto de equilíbrio com a razão, souberam fazer do coração, além de seu maior aliado, seu melhor amigo.

*David Feffer é presidente do Grupo Suzano, uma das mais tradicionais organizações empresariais privadas do Brasil, que abrange, além da expressiva participação na indústria de papel e celulose, atividades nos setores de corretagem de seguros e resseguros, gerenciamento de riscos, desenvolvimento imobiliário, softwares, produtos e serviços para os meios digitais. No comando do Grupo Suzano desde 2003, David prima por uma gestão marcada pelo alto grau de profissionalização das empresas, implantação dos mais exigentes padrões de governança corporativa e de compliance e foco na inovação e na sustentabilidade.

O executivo atua também como membro do Conselho Consultivo Internacional da LafargeHolcim e do Conselho Consultivo da Indústria Brasileira da Árvores (IBÁ), além de participar de várias instituições sociais e culturais, dentre as quais destacam-se: Presidente do Conselho Curador da Fundação Filantrópica ARYMAX; Presidente do Conselho Diretor da Escola Alef; e Vice-Presidente do Conselho Diretor do Instituto Ecofuturo.

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