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Jogo de compadres na política do Brasil

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O tamanho do Estado é um convite à corrupção (iStock)

Duas seleções entram em campo numa fase crucial da Copa do Mundo. Um empate satisfaz ambas. E os 90 minutos parecem uma encenação muito mal ajambrada de disputa. O esporte é ferido de morte, a paixão é desrespeitada e um jogo de compadres mancha duas camisas históricas.

Não é necessário citar nomes. Mas a descrição acima não foi rara na história do maior esporte do mundo. O problema é transportarmos esse mau exemplo ao mundo da economia e da política. A prática do chamego dos políticos aos empresários amigos torna-se mais do que um agrado ao compadre. Torna-se um sistema econômico anacrônico: o capitalismo de Estado.

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Uma boa definição sobre o tema foi dada pelo economista Paulo Rabelo de Castro: “O Estado interfere para selecionar quem deve sonhar mais alto”. De volta ao exemplo do esporte, é como se o Estado fosse o doping do empresário e esse doping, além de não ser ilegal, é exclusivo de um competidor apenas.

Não basta afastar os maus elementos, prendê-los ou deixá-los em algum tipo de quarentena. A forma como o país é concebido, em suas excessivas regras, justamente para proteger os amigos do rei, acaba produzindo a podridão

Das companhias das Índias, na Holanda, aos Estados fascista e nazista, esse tipo de economia amarrada e vitaminada por fomento estatal não é propriamente uma novidade. O mais recente ícone desse modelo é a Venezuela de Hugo Chávez e Nicolás Maduro. Como bem lembrou o sociólogo Demétrio Magnoli, esse tipo de capitalismo é muito elogiado por alguns empresários – poucos e escolhidos a dedo. “Eles têm bilhões de motivos para isso.”

No Brasil, assistimos à ascensão e queda da política dos campeões nacionais. O dinheiro público foi uma verdadeira gasolina aditivada para a operadora Oi, o grupo Odebrecht e o castelo de areia de Eike Batista, que foi varrido pelas marolas da dura realidade. Isso sem falar das demais empreiteiras, com seus esquemas revelados pela Operação Lava Jato.

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É uma questão sistêmica. Não basta afastar os maus elementos, prendê-los ou deixá-los em algum tipo de quarentena. A forma como o país é concebido, em suas excessivas regras, justamente para proteger os amigos do rei, acaba produzindo a podridão. É a velha história do presunto exposto e cheio de moscas. Se o Brasil pós-Lava Jato não tirar o presunto da sala, ficaremos eternamente espantando moscas. E essa operação histórica para o Brasil será mais longeva que a série Sexta-feira 13. Teremos tantas ressurreições quanto Jason teve no cinema.

Prender bandidos – políticos ou empresários – não resolve o problema por si só. O tamanho do Estado é um convite à corrupção. Quanto menor ele for, quanto menor sua “ajuda” nas disputas, mais competitivo é o mercado. Mais pessoas participam da riqueza do país. Porque produzir riqueza leva ao desenvolvimento pleno de toda a nação, e não de um pequeno clube de amigos. Não adiantar ficar dizendo jocosamente que “todos são iguais, mas alguns são mais iguais que os outros”.

Nesse ponto é preciso diferenciar o empresário de conluio do empreendedor de mercado. O primeiro é uma deformação. É preciso, no Brasil, termos empresários de outra estirpe, com padrão moral e altivez.

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Retomo outra frase de Rabelo de Castro: “Precisamos empreender o inconformismo”. A saída da passividade deve contaminar todos os setores da sociedade. Com poucas e justas regras, a economia de mercado é a melhor forma de estabelecer justiça social, com verdadeira prosperidade para os trabalhadores, empresas e profissionais liberais.

Eu sei, o mercado é muito mais importante para nossas vidas que um jogo de futebol, mesmo que a partida seja disputada numa Copa do Mundo. No capitalismo, o campeonato pode ser muito mais justo e benéfico se as regras e as vantagens forem as mesmas para todos. Assim, com méritos, teremos muito mais vencedores.

*Flávio Rocha é presidente da Riachuelo

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