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Conheça a mulher que projetou seu próprio pâncreas

(Reprodução/Forbes)

Dana Lewis (Reprodução/Forbes)

Dana Lewis mandou uma mensagem para seu próprio pâncreas na última quinta-feira. Obviamente, não foi um típico “como vai você?” ou “você está livre hoje à noite?”. Em vez disso, era um comando para dar uma pequena elevada no nível de glicose do seu sangue – ela precisava se preparar para encarar um discurso importante.

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Como você deve ter adivinhado, o pâncreas de Dana é atípico. Na verdade, é um modelo DIY (do it yourself, ou faça você mesmo em português) que a profissional em comunicação da saúde construiu em 2013 e vem sendo aprimorado desde então. Ele é equipado com um hardware que ajuda a bomba de insulina e o dispositivo de monitoramento de glicose trabalha ao mesmo tempo. Este sistema se comunica também com o telefone celular de Dana. Mas a real inovação é que este “pâncreas” pode, na maioria das vezes, controlar a insulina sem a intervenção da dona – o que significa que ela não precisa lidar continuamente com doses da substância ou checar os níveis. Dana pode simplesmente viver sua vida.

Mais de um milhão de norte-americanos vivem com diabetes atualmente

“Você pode construir um algoritmo para prevenir, no futuro, como o açúcar do sangue estará”, contou ela à plateia da conferência da Collective Intelligence, sediada pelo Instituto Politécnico da Universidade de Nova York. O objetivo do encontro era ouvir, de um conjunto diverso de inovadores, como a tecnologia pode impulsionar o bem-estar das pessoas. Dana começou um movimento para melhorar a gestão da glicose, conectando o bombeamento da insulina a dispositivos de computadores que, constantemente, gravam e prevêem os níveis de glicose no sangue.

Mais de um milhão de norte-americanos vivem com diabetes atualmente, de acordo com o JDRF, uma organização para o financiamento de pesquisas sobre o tipo 1. As pessoas com a doença precisam constantemente consumir ou bombear insulina e monitorar seu níveis de glicose no sangue. Dana, diagnosticada aos 14 anos, acredita que reduziu centenas de decisões que pacientes de diabetes tipo 1 precisam tomar para apenas 6.

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Seu hardware utiliza os dados da bomba de insulina (que tem um tubo que injeta o hormônio no sangue) e o monitor contínuo de glicose, que calcula os níveis da substância no sangue, para também calcular e designar novas taxas basais (a quantidade de insulina que está ajustada para ser bombeada no fluxo sanguíneo a cada hora), que podem, se necessário, substituir a taxa basal padrão do paciente por um determinado tempo para promover ajustes.

“A cada 5 minutos, o sistema analisa os dados do bombeamento e do contínuo monitoramento de glicose, o hardware processa estes dados e, por meio do algoritmo, com base na tendência do açúcar no sangue do paciente, estabelece uma nova informação, que diz o que está acontecendo com a insulina, informa as configurações pessoais, a sensibilidade à insulina, qual o seu próximo objetivo, entre outras coisas”, contou Dana a FORBES. Ela disse que o hardware, na sequência, recomenda uma nova taxa basal com base nos dados.

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Por meio da reunião e da automatização destas informações relacionadas ao controle da doença, Dana acredita que ela criou o “piloto automático para diabetes”.

Em 2013, Dana começou a ajustar o alarme ao seu sistema de monitoramento de glicose, que não era alto o suficiente para acordá-la quando era necessário. Ela tentou várias alternativas, como deixar o dispositivo dentro de um pote de moedas para torná-lo mais alto, mas nada funcionou. Decidiu, então, pedir aos fabricantes que fizessem o alarme com possibilidade de aumentar o volume, mas eles não estavam interessados. Determinada a resolver o problema, ela foi ao Twitter, onde encontrou um usuário que havia aprendido a transferir os dados do seu dispositivo para um iPhone ou computador, permitindo, assim, ajustar o volume e o tipo de alarme. Dana usou essa mesma tecnologia para criar um algoritmo preditivo para avisar, com antecedência, sobre tarefas o que ela poderia fazer para melhorar o equilíbrio do nível de açúcar no sangue. Por fim, ela “fechou o ciclo”, criando um pâncreas artificial que ajustava sozinho as taxas de insulina.

Satisfeita com seu próprio trabalho, Dana começou, em 2015, o projeto #OpenAPS, que permite que outras pessoas usem a tecnologia que ela desenvolveu. Além disso, criou o #WeAreNotWaitingMovement, que incentiva usuários e pacientes a enfrentarem seus desafios sem ficar esperando por tecnologias para inovar.

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Questionada se ela já considerou tentar lucrar com o projeto, Dana respondeu que continuar com o software livre permitiu que seu dispositivo estivesse de dois a três anos à frente dos produtos comerciais.

Aqueles que consideraram utilizar a tecnologia de Dana presenciaram reações negativas de alguns profissionais da saúde, que se recusaram a tratá-los caso estiverem usando o “pâncreas”. Ela diz que seu próprio médico teve uma atitude vaga quanto ao dispositivo, mas explica que caso o seu sistema falhasse, o alarme padrão que muitos pacientes de diabetes tipo 1 usam ainda funcionaria, como um back up.

Dana explica que ainda é preciso calibrar seu dispositivo de monitoramento de glicose algumas vezes ao longo do dia. Outros médicos, resistentes ao movimento do pâncreas DYI, se recusaram a prescrever receitas para várias partes do dispositivo. “Apesar de não ser uma cura, deixa a vida mais fácil do que antes”, diz ela.

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