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Leia trecho da biografia não-autorizada de Marcelo Odebrecht

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“O Príncipe” cobre período entre a prisão do presidente e herdeiro da empreiteira até a divulgação da lista de políticos receptores de propina (iStock)

Desde 2014, o noticiário econômico e político é dominado pelas investigações da Operação Lava Jato, que apura corrupção na Petrobras e financiamento de campanha eleitoral por meio do caixa dois. A Odebrecht, juntamente com outras empresas de construção civil, foi o epicentro das irregularidades na estatal, o que culminou com a prisão do seu presidente e herdeiro Marcelo Odebrecht, cuja biografia não-autorizada acaba de chegar às livrarias por R$ 49,90.

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Escrito pelos jornalistas Marcelo Cabral e Regiane Oliveira, “O Príncipe” – cujo lançamento oficial é no dia 6 de julho, na Livraria Saraiva do Shopping Pátio Paulista – está sendo publicado pela editora Astral Cultural e cobre desde a prisão de Marcelo até a divulgação, pelo ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Edson Fachin, da lista dos políticos receptores da propina paga pela empresa. Além disso, relata a personalidade de Marcelo, a relação conflituosa com o pai Emílio, e a admiração pelo avô Norberto, fundador da empresa.

A Tecnologia Empresarial Odebrecht (TEO) condensa ensinamentos econômicos, religiosos e morais de diversos pensadores

“O título remete a como o Marcelo era chamado, referindo-se ao fato de ele ser o herdeiro da empresa, além de ser uma associação com o Príncipe descrito por [Nicolau] Maquiavel”, explica Cabral, ao falar que o então presidente da empreiteira desenvolveu uma das duas características que o pensador italiano recomendava para um governante. Marcelo detinha a “fortuna” – não necessariamente atrelado à riqueza” -, pois as circunstâncias o favoreceram para que se tornasse líder da empresa familiar. Porém lhe faltou a “virtude”, já que deixou a presidência da empresa em uma situação pior do que quando a assumiu, devido às ilegalidades cometidas.

FORBES teve acesso ao livro e divulga, com exclusividade, trecho que apresenta o código de conduta dos funcionários da empresa, batizado de TEO (Tecnologia Empresarial Odebrecht). Desenvolvida por Norberto e compilada em um livro de três volumes nos anos 1970, a TEO condensa ensinamentos econômicos, religiosos e morais de diversos pensadores (Sêneca, Martinho Lutero, Charles Darwin, Jean-Jacques Rousseau etc.) e era destinada a todos os funcionários, incluindo os diretores.

“O objetivo era construir um modelo de educação, pois Norberto queria uma empresa que também fosse educadora, que mudasse a vida dos funcionários”, explica Regiane. A jornalista diz que, antes das denúncias de corrupção, a Odebrecht tinha uma imagem ética que justificava o seu sucesso, a ponto de ser considerada um exemplo em países africanos onde realizava obras. “As empresas chinesas levavam seus funcionários nos países onde se instalavam, enquanto a Odebrecht recrutava trabalhadores locais e os capacitava”, afirma.

Em linhas gerais, a TEO exigia disciplina, dedicação e honestidade dos funcionários, com a ideia de que eles deveriam servir e não ser servidos e de estender os ensinamentos para as relações familiares. “Norberto achava, ainda, que a Odebrecht deveria servir ao Brasil”, explica Regiane. A imagem pública de discrição e disciplina de Marcelo, inclusive, advinha deste mesmo código de conduta e foi usado como justificativa para que ele negasse o seu envolvimento logo após a prisão.

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“Os funcionários do baixo escalão ficaram inconformados quando as irregularidades vieram à tona”, afirma Cabral, falando sobre a reação dos colaboradores quando souberam da existência do “Departamento de Propina” e seu modus operandis a partir de uma ética diferente da TEO, mais se aproximando dos “fins justificam os meios” preconizado por Maquiavel. A seguir, o trecho do livro que aborda a TEO:

“(…) Tecnologia Empresarial Odebrecht, ou simplesmente TEO para os iniciados. Formalmente, trata-se apenas de um guia da corporação para a conduta dos funcionários. Na prática, é muito mais. Para uma parte dos funcionários, a TEO funciona quase como uma teologia, uma religião que rege a visão de mundo dos convertidos para muito além do escritório.
(…)

Muitos colaboradores da Odebrecht levam a TEO ao pé da letra. Alguns aplicam as regras da empresa para monitorar o desempenho dos filhos na escola ou o controle de gastos do cônjuge. Um funcionário da companhia contou, por exemplo, que atrelava a mesada do filho ao desempenho do garoto na escola, de acordo com um plano de metas. Se o objetivo era uma nota seis, por exemplo, ele só ganharia a mesada se atingisse esse patamar; se ficasse entre seis e oito, teria acréscimo de 25%; no caso de oito a dez, o adicional chegaria a 50%. Alguns pais usam os ensinamentos como forma de persuadir os filhos a ajudarem a arrumar a casa e fazerem as lições da escola antes de brincarem. Outro funcionário passou a usar a TEO como livro de regras no condomínio onde trabalhava como síndico. E há até os que a utilizam para balizar os termos financeiros de seu casamento, para controlar gastos pessoais do casal. Um integrante da companhia, por exemplo, avisou a esposa: se ela gastar menos de R$ 2 mil no cartão de crédito, eles poderão jantar fora, no máximo, duas vezes por mês. Se os gastos forem menores do que R$ 1,5 mil, o número de jantares sobre para três. Gastos menores que R$ 1 mil podem render outras compensações, como um presente ou uma viagem no final de semana.”

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