A saga do vinho

iStock
Indícios sugerem que as primeiras vinhas das quais se tem notícia surgiram na Geórgia (iStock)

Na Itália dos Barolos ou na região francesa de Champagne? Será que foi em terrenos consagrados no mundo moderno como esses que o vinho teria surgido? Parece que não. Indícios sugerem que as primeiras vinhas das quais se tem notícia surgiram na Idade da Pedra (7000 a.C.-5000 a.C.) na Geórgia – especialmente na região do Cáucaso, face da Europa Oriental que faz fronteira com Rússia, Turquia e Armênia. Desta última vem o primeiro registro da bebida (4000 a.C.).

LEIA MAIS: Conheça as misteriosas confrarias do vinho do Brasil

Existem várias outras teorias – algumas pouco científicas, é verdade – para o surgimento do vinho. Há a versão cristã, que toma por base o trecho do Antigo Testamento que diz: “E começou Noé a cultivar a terra e plantou uma vinha” (Gênesis: capítulo 9, versículo 20). Os gregos o consideravam uma dádiva dos deuses. Já historiadores mais recentes imaginam que a bebida teria surgido por acaso, a partir de uvas amassadas que acabaram fermentando. Isso teria acontecido antes do surgimento da escrita, daí a dificuldade de precisar sua origem. Já o cultivo de videiras só começou quando nossos antepassados nômades passaram a ser mais sedentários e dedicados à agricultura.

A trajetória das crenças e teorias acerca do vinho se confunde com a evolução da humanidade

Seja como for, a trajetória das crenças e teorias acerca do vinho se confunde com a evolução da humanidade. Só para citar alguns pontos-chave dessa história: a invenção da ânfora data de 1500 a.C.; as obras de Homero, o poeta grego mais famoso da Antiguidade, já citava a bebida em 750 a.C.; em 404 a.C. nasceu a primeira obra teatral ligada ao vinho – “As Bacantes”, escrita pelo grego Eurípides; em 60 d.C., ele aparece no Império Romano com Júlio César, que ditou a criação dos romanées, demarcação que deixou famosa a região do Romanée Conti, na França; em 169 d.C., Galeno (médico de Marco Aurélio) foi o autor de uma compilação que pode ser encarada como a primeira publicação dedicada ao vinho do mundo; a invenção dos barris veio pouco depois, em 200 d.C.

Dando um salto nessa cronologia, em 1112 monges cistercienses dedicaram-se aos vinhedos da Borgonha e revolucionaram a região, sendo os primeiros a plantar a uva chardonnay e a criar o conceito de grand cru. Em 1220, foi realizada a primeira batalha mundial de vinhos, encomendada pelo rei francês Filipe Augusto – o vinho vencedor foi o da região de Commandaria, no Chipre. Segundo o “Guinness World Records”, o livro dos recordes, o Commandaria já existia desde 2000 a.C. e é o vinho mais antigo ainda em produção.

No Brasil

iStock
Brás Cubas torna-se conhecido como o primeiro viticultor no Brasil (iStock)

Com a saga dos conquistadores, em meados do século 16, vieram as primeiras expressões do vinho fora da Europa, especialmente no México e no Peru. No Brasil, o fidalgo português Brás Cubas torna-se conhecido como o primeiro viticultor, primeiro cultivando terras na região de Santos e depois no alto da Serra do Mar.

Com a Revolução Industrial, surgem as primeiras garrafas nos moldes similares aos de hoje, fruto de um projeto do inglês Henry d’Andeli, em 1630. Já em 1785, a rainha dona Maria I (A Louca) decretou a proibição do vinho em solo brasileiro – ordem que só seria derrubada por dom João VI em 1808, com a chegada da família real.

Pelas mãos de um italiano, Manuel Peterlongo, nasceu o primeiro espumante brasileiro. Com a crise econômica mundial de 1929, chegaram os modelos de cooperativa, sistema que fez surgir empresas que são referência até hoje, como Aurora e Garilbaldi. A partir da década de 1950, marcas internacionais como Chandon e Martini começam a se instalar no mercado brasileiro, o que impulsionou e sofisticou o mercado nacional. A década de 1980 representa o início da produção no Nordeste e a criação da Associação Brasileira de Sommeliers (ABS).

VEJA TAMBÉM: Como um australiano está mudando o mercado de vinhos

Na década seguinte, chegaram aqui as produções de vinhos finos e a ExpoVinis, maior feira do setor na América Latina. Nos anos 2000, o Brasil entra no cenário de exportação mundial, e a profissão de sommelier é regulamentada. Por fim, em 2012, a prova de que o Brasil já faz parte da fascinante história do vinho: o Vale dos Vinhedos, no Rio Grande do Sul, foi a primeira região do país a receber a cobiçada certificação de Denominação de Origem. Tim-tim!

*Carla Bolla é restauratrice do La Tambouille, em São Paulo

Copyright Forbes Brasil. Todos os direitos reservados. É proibida a reprodução, total ou parcial, do conteúdo desta página em qualquer meio de comunicação, impresso ou digital, sem prévia autorização, por escrito, da Forbes Brasil (copyright@forbes.com.br).