Superstições à la carte

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Na França, pães nunca ficam expostos de cabeça para baixo (Getty Images)

Odiadas por cientistas e filósofos, as superstições desafiam o racional. “Evitar superstições é outra superstição”, disse Francis Bacon, filósofo inglês do século 17, considerado o fundador da ciência moderna. E quando as crendices servem de antepasto para nosso destino, o cardápio é extenso. São muitas as superstições relacionando a comida à sorte e à prosperidade – sinal de que a importância do alimento vai além de mero combustível para a vida. A história foi passando de geração a geração aquilo que o alimento tinha e tem de magia.

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Se voltarmos para a Grécia dos primeiros Jogos Olímpicos, as coroas de folhas de louro – símbolo do poderoso deus Apolo – sagravam os vencedores. Superaromático, bom em sopas e para deixar o feijão mais forte, ele ainda traz o sabor simbólico da vitória – segundo a lenda, deve-se tomar seu chá antes de uma competição. Para o treino, os deuses garantem vitalidade àquele que degustar algo com alecrim.

Os árabes mantêm a máxima de que não se deve chorar sobre o café derramado, pois isso anuncia que a boa sorte chegou. Outro líquido que, se derramado, promete alegria é o vinho. No caso da farinha, é prenúncio de fartura.

Para quem leva o misticismo com fervor, a pimenta é muito mais um amuleto do que alimento. Por mais forte que seja o sabor, pimenta na boca afasta todo o mal desde as entranhas.

São muitas as superstições relacionando a comida à sorte e à prosperidade – sinal de que a importância do alimento vai além de mero combustível para a vida

Outros ingredientes guardam seus feitiços nas sobras, caso da casca da cebola e do ovo cozido. Da cebola, as cascas devem ir para o fogo enquanto se formula um desejo. Quanto ao ovo, a crença popular afirma que, mais que quebrar, deve-se estilhaçar sua casca para afastar a má sorte. Sementes de romã são onipresentes na virada de ano. Os modos de usá-las também viram uma celebração. Um dos mais lembrados é segurar três sementes entre os dentes, à meia-noite, e depois embrulhá-las em papel branco e guardá-las na carteira para ter um “feliz ano novo”. E se comer lentilha na ceia, aí os 365 dias têm garantia de positividade.

Por outro lado, para os mexicanos, se uma de suas irresistíveis tortilhas cair no chão, alguém muito chato vai chegar e derrubar seu humor. Comer em pé é sinônimo de má sorte. Se derramar o sal, pior ainda. O mesmo vale se passarmos o saleiro diretamente para a mão de alguém – deve-se pegar o saleiro e colocá-lo na mesa, à frente de quem o pediu.

Mas nada mais saboroso entre as superstições quando elas envolvem o amor. Pode ser escondido, mas muitas americanas preservam o hábito de guardar o andar de cima do bolo do casamento no congelador. Com um ano da união, elas o comem com seus maridos, para que a relação seja longa e feliz. Para incrementar o romantismo, dividir as metades de uma maçã sem quebrar sementes é sinal de que um desejo romântico será atendido. Meninas não servem sal, não cortam galinha nem passam o paliteiro. Se durante a refeição uma faca cai, dizem que um belo rapaz fará uma visita. Um garfo no chão é sinal de que uma mulher está vindo. Também não se deve cruzar os talheres, especialmente facas. Cruzadas, elas indicam o início de uma DR (a temível discussão da relação), que tem tudo para acabar numa briga das grandes. E esta vale para eles e para elas: tomar o que restou do copo de alguém denuncia os segredos mais íntimos daquela pessoa. Uma brincadeira mística na mesa entre os apaixonados é segurar nas pontas e quebrar juntos um ossinho do peito do frango, aquele em forma de Y, chamado fúrcula. Quem ficar com o pedaço mais comprido terá seu desejo realizado.

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As crendices que nascem na cozinha também têm seu lado sinistro. Na Idade Média, os padeiros deixavam alguns pãezinhos reservados para os executores da Inquisição de cabeça para baixo. Isso mostrava aos clientes que aqueles estavam já vendidos. Até hoje, na França, pães nunca ficam expostos nessa posição de mau agouro. Na Turquia, mascar chiclete após o anoitecer é como mastigar a carne de alguém morto. Não se pragueja para acender o fogo, pois é como se você chamasse o diabo para dar uma força.

Sinistras, alvissareiras ou românticas, as crendices da mesa servem para dar ainda mais tempero e sabor às nossas vidas.

*Carla Bolla é restauratrice do La Tambouille, em São Paulo

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