Quem vai chegar primeiro: a sociedade ou Elon Musk?

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Elon Musk tem investido bilhões de dólares para realizar aquilo que pode ser o grande marco tecnológico do século: ir a Marte e colonizar o planeta

Neste exato momento, o empreendedor sul-africano Elon Musk tem investido bilhões de dólares para realizar aquilo que pode ser o grande marco tecnológico do século: ir a Marte e colonizar o planeta. Poucas pessoas se deram conta, mas aqui tem um embate histórico entre a humanidade e Musk. Sua impressionante ambição de disruptar, desafiar a lógica, não deveria ser maior do que a empatia, o engajamento e a força de transformação da sociedade e de seus líderes.

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Apesar de admirar Musk profundamente, é completamente contraditório chegarmos a Marte antes de resolvermos nossos problemas sociais mais agudos, sobretudo os relacionados a favelas, fome, analfabetismo. Todos os dias, milhões de crianças acordam em lares sem alimentação, em favelas sem escola, creche, saneamento básico e o mínimo necessário para viver.

Visitei, recentemente, famílias da favela Vergel do Lago, em Alagoas, que vivem em barracos, sem água potável, e tiram seu sustento da pesca do sururu, com renda de aproximadamente 250 reais mensais, em muitos casos com 10, 12 pessoas dentro de casa. Vi crianças comendo comida estragada e vitimadas por doenças genéricas.

E se replicássemos a ambição de Musk, o desdobramento de metas da Ambev, a agilidade das startups, a disciplina em gestão e a garra e o apetite pelo investimento de risco para as questões sociais, para equacionar problemas reais?

Se Musk pode ir a Marte, naturalmente, reunimos toda a capacidade, recursos e informações para oferecer respostas e atitudes à altura dos nossos problemas. A corrida do bilionário contra o tempo e o sucesso que ele tem obtido são um indicador de que o homem pode desafiar as leis naturais, domar os ventos, a física e a química e construir alternativas, onde antes só existia dúvidas e impossibilidade.

Reconhecer a nossa verdade como sociedade dói. Dói muito. Mas tem uma conversa debaixo do tapete que precisa vir à superfície. Este assunto traz à tona uma verdade sobre todos nós: cobramos dos outros, criticamos demasiadamente, mas podemos fazer mais, muito mais. Todos nós. Nossa capacidade, como líderes, extrapola o óbvio. É só redirecionar o foco.

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Sou empreendedor social, lidero o Gerando Falcões, ONG que criei na periferia. Nasci na favela, visitei meu pai em presídio, preso por envolvimento com o crime. Mas, quando saí da visita na favela Vergel do Lago, senti vergonha. Muita vergonha de mim mesmo.

Senti vergonha de não ter me mobilizado mais, trabalhado mais, captado mais, me desenvolvido mais, influenciado mais, sonhado ainda mais para mudar o quadro daquelas milhares de famílias que vivem como uma raça sub-humana, ao lado de prédios e arranhas céus da grande metrópole de Maceió. Aquela favela é um recorte de outas milhares, no Rio de Janeiro, em São Paulo, em Belo Horizonte, ali na esquina, em vários lugares.

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Precisamos resolver nossos problemas sociais mais agudos, sobretudo os relacionados a favelas, fome, analfabetismo

Naturalmente, ainda tenho mais futuro do que passado, mas o tempo voa.

Recentemente, reuni um quarteto mágico: os empresários Jorge Paulo Lemann (3G), Flávio Augusto da Silva (Wise Up), Daniel Castanho (Ânima) e Carlos Wizard (Mundo Verde, Aloha) para investir na expansão do Gerando Falcões nas favelas e me ajudar a mexer com o ponteiro social dos territórios de pobreza.

Pedi a eles três coisas: dinheiro, tempo e inteligência. As três ferramentas andam juntas. Uma complementa e fortalece a outra. Tive o “ok”. Agora, estamos abrindo 10 novas unidades do Gerando Falcões em favelas e pulando de 1200 famílias atendidas, de forma recorrente, para 18 mil. Com auditoria da KPMG, apoio em governança da Accenture e utilizando mecanismos de gestão de empresas de ponta como Ambev, definimos metas ousadas e um propósito incendiador para trabalhar nos próximos 30 a 40 anos para enviar a atual favela para o museu e erguer comunidades que entreguem dignidade e renda.

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Tenho o desafio de engajar mais gente. Mas esse engajamento passa por todos, afinal, o Brasil é de todos nós. E todos nós temos mais por fazer. Lembre-se: se você não está na favela Vergel do Lago, sobrevivendo com R$ 250 por mês, você já está melhor e pode mais.

Estudando a história de Musk, fica clara a principal característica desse grande líder: ele não tem teto. Quem quer ir para Marte não tem teto, ou seja, não tem algo que o limite. Nós precisamos tirar o teto para o impacto social e realinhar nossa ambição com os desafios atuais. Sem teto podemos ir muito mais longe como sociedade.

Precisamos ter a mesma ousadia aplicada aos negócios, para o universo social. A sociedade empresarial tem coragem de tomar riscos de milhões, bilhões. Acho isso incrível. Mas pensamos 10 vezes antes de se expor ao risco social. O retorno do investimento social é o legado.

Precisamos convocar os melhores cérebros do país para entrar no jogo. Passou da hora de toda a sociedade colocar a chuteira e o “vaikidá” no coração. Nós temos um adversário à nossa frente. O adversário não é a pobreza, mas a aceitação, a falta de foco na coisa certa, a procrastinação e a ausência de empatia coletiva. A miséria é consequência de um padrão coletivo de comportamento, que está por anos gerando uma categoria de resultados tímidos.

Isso é cultura de ataque, e não de defesa. O Musk é incrível, mas não pode chegar primeiro que nós, se trabalharmos juntos e com ousadia. Dinheiro, tempo e inteligência: todos nós temos uma dessas três coisas. Ou, talvez, as três juntas. Admiro o Musk, mas vamos chegar primeiro. Como falamos na favela: “Tamojunto”.

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