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O lugarzinho dos empresários

  • Italiana, casada com o iraniano Kamyar Abrarpour e morando no Brasil desde 1990, Francesca Alzati vive rodando o mundo. Junto com marido, ela comanda a loja By Kamy, em São Paulo, que vende e produz tapetes dos mais distintos materiais e técnicas feitos em diversos países, sempre por artesãos locais em tecelagens exclusivas da marca. Francesca é a responsável por cerca de 80% do design dos produtos da marca, mas não pensa em seu trabalho como uma produção individual, e sim colaborativa. “Eu crio os desenhos, mas os tapetes jamais saem exatamente como imaginei porque tem também a interpretação do próprio artesão, o que é maravilhoso”, diz ela, que se define mais como uma “diretora de orquestra” do que designer e não gosta de ser tratada como proprietária, mas sim como diretora de identidade e de produto da By Kamy. Como seus tapetes são feitos no Nepal, na China, na Índia e outras partes do globo, Francesca, que adora cozinhar, vive trazendo de suas viagens especialidades gastronômicas que acabam aterrissando na copa, seu lugar preferido em casa. É ali que prepara perfumados espressos e faz as refeições no dia a dia, com o marido e os dois filhos adolescentes. “Tanto o italiano quanto o iraniano resolvem tudo à mesa, então aqui é um lugar de aconchego, de abraço, de beijo, de brigas, de discussões. Tudo acontece na copa, é o canto íntimo da minha família”, diz. Não é de admirar que esteja lá também o que ela chama de “cantinho das lembranças”. “Geralmente volto de viagem com a mala cheia de coisas coloridas e perfumadas”, generaliza, indicando uma variedade de chás – um gosto que aprendeu com o marido iraniano – e temperos. Mas, dentre todos os detalhes que formam sua copa, seus objetos favoritos são o vidro do vinagre que ela mesma produz com restos de vinhos tomados em casa (italianos, claro), da mesma forma como sua família fazia quando ela era criança – e um painel chinês usado em uma exposição de arte têxtil produzida pela By Kamy em São Paulo. “É uma lembrança de um trabalho grande que fizemos e que nos rendeu muitos frutos.” É na mistura de aromas de sua copa que Francesca, arquiteta por formação, melhor exprime o que entende por um ambiente pessoal e reconfortante: “Para mim, a decoração não é apenas visual, é também sensorial”.

  • Uruguaio de nascença, mas vivendo no Brasil desde seus 11 anos, Daniel Mendez mora com a mulher e os três filhos em Vinhedo, no interior paulista. Lá ele está próximo de Campinas, onde fica a sede da Sapore, a empresa que fundou em 1992 e é uma das líderes do mercado de restaurantes corporativos do país. Em contraste com as grandes áreas verdes e o estilo rústico da casa de Vinhedo e de sua fazenda em Amparo, também no estado de São Paulo, seu apartamento na capital não poderia ser mais declaradamente urbano. É moderno, minimalista, recheado de belos quadros e ostenta a mais paulistana das características: uma vista para a Marginal Pinheiros e a profusão de prédios que formam o poderoso skyline da cidade. “Eu gosto e preciso de São Paulo. A pujança, o movimento, a energia, o conhecimento e as possibilidades dessa cidade são incomparáveis”, diz o empresário. Ele conta que a família decidiu manter um apartamento na capital para usufruir das opções de entretenimento que só uma grande metrópole pode proporcionar, além de desfrutar da companhia dos amigos locais. “Quando a gente vem para cá, é porque estamos com sede de cidade!”, diz ele. É na varanda, o lugar preferido de Mendez no apartamento, que a cidade é mais palpável. “Aqui é bem alto e a vista dá uma sensação de amplitude que adoro”, entusiasma-se o empresário. Bem integrada ao apartamento, o ambiente ali segue o estilo minimalista do resto da decoração, que contou com toques do decorador e paisagista Edson Cardoso de Oliveira, mais conhecido como Guga. “Ficar na varanda é inevitável, chegamos aqui e somos atraídos por ela; é na varanda que gosto de ler, responder e-mails ou simplesmente ficar pensando enquanto observo a paisagem impressionante da cidade”, diz Mendez. Não é apenas para seu equilíbrio pessoal que conciliar polos opostos, no caso cidade e campo, funciona tão bem. Em seu trabalho o empresário também precisa integrar universos contrastantes dos domínios da culinária, já que a Sapore tem clientes nos mais variados segmentos. “Há empresas nas quais a alimentação é mais simples, outras em que oferecemos refeições realmente sofisticadas, com menus assinados por chefs reconhecidos. Temos até clientes que oferecem refeições 100% orgânicas”, ele conta.

  • Perfeccionista e dona de reconhecido bom gosto, Cecilia Dale viu seu caminho no mundo da decoração seguir de forma natural: começou montando arranjos de flores, passou a vendê-los em lojas especializadas e, em 1984, abriu a primeira loja de móveis e decoração que leva seu nome em São Paulo. Hoje são 12 espalhadas pela cidade e em Curitiba, Campinas e Rio de Janeiro, e devem ser inauguradas mais duas até o fim deste ano. Em seu apartamento, como seria de imaginar, o capricho impera, mas exageros não fazem parte de seu estilo. “Não sou uma pessoa de muitos detalhes, para mim não há necessidade”, surpreende essa criadora particularmente destacada no exuberante campo das decorações natalinas. Ao montar sua casa, ela não contou com ajuda de decoradores profissionais – praticamente todos os móveis e objetos são de suas lojas. “Não compro peças para mim, compro para a loja e já sei o que vem para minha casa. Como me envolvo muito, tudo é de acordo com o meu gosto”, explica. Cecilia quase sempre morou em casa e é muito ligada à natureza e aos animais. Foi por isso que a varanda se tornou um fator decisivo quando ela e o marido decidiram se mudar para um apartamento, há cerca de quatro anos. Ao contrário do empresário Daniel Mendez (veja na página ao lado), que ama descortinar da sua a grandiosidade urbana de São Paulo, Cecilia encontrou o que desejava exatamente na vista para o verde do Parque Villa-Lobos. É nessa varanda voltada para um dos pulmões da metrópole que ela toma sol de manhã e gosta de se instalar na companhia de suas cachorrinhas, para fazer palavras cruzadas e responder e-mails. Quando suas filhas e netos a visitam, o ponto de encontro é sempre a varanda. “Gostamos muito de sentar aqui com um violão e passar horas cantando, todos se divertem”, conta. Seu verdadeiro xodó são as jabuticabeiras que emolduram a varanda e dão frutos como nunca deram em seu sítio, próximo à cidade. “Cuidamos muito bem delas, damos água todos os dias, tiramos as folhinhas secas e até os beija-flores vêm aqui atraídos por elas”, diz Cecilia, orgulhosa de seu bucólico quintal pendurado sobre a selva urbana.

  • A rotina de executivo consome muitas horas diárias de Alexandre Brett, que geralmente sai cedinho de casa e volta tarde da noite. Com tanto tempo dedicado à direção de marcas da holding de grifes de moda Inbrands, quando chega ao seu apartamento no bairro de Perdizes, em São Paulo, ele quer mesmo descansar a cabeça. “A sala de home theater é onde costumo ficar sozinho, para relaxar e assistir aos programas de esporte de que gosto”, conta. Seus dois filhos, um de 7 e outro de 4 anos, sabem que aquele é o lugar sagrado do pai. “As crianças têm uma sala de televisão e videogame para elas, então aqui ninguém interrompe o meu futebol”, diz ele. Em sua tela particular os esportes eventualmente dão espaço aos filmes que vê com a esposa, a única com quem costuma dividir seu refúgio.
    A decoração de todo o apartamento foi feita pelo escritório In House Designers, com projeto da designer Betina Barcellos. Alexandre admite que teve pouca participação na escolha dos móveis e objetos, mas acredita que o apartamento ficou a sua cara. “Gosto muito dos tons sóbrios que predominam, acho que as cores escuras combinam mais com o ambiente urbano de São Paulo”, considera esse conhecedor de questões de estilo. Desde muito cedo envolvido com o universo da moda masculina – já que seu pai e tio estiveram à frente da Vila Romana por muitos anos –, Alexandre fundou marcas como VR e Mandi, que hoje pertecem à Inbrands, controladora também de outras como Bobstore, Tommy Hilfiger, Ellus e Richards. Com isso, sua carreira mudou de direção. “Continuei no ramo da moda, mas passei de empreendedor a executivo”, diz ele, que considera seus momentos em frente à televisão indispensáveis para realmente relaxar. “Principalmente durante a Copa do Mundo passei muitas horas nesta sala, meus filhos até brincaram que eu hibernei lá dentro”, conta ele. Só não sabemos se seu home theater atravessou o Mundial ileso – ele concedeu esta entrevista antes da trágica goleada do Brasil no jogo contra a Alemanha.

  • Para começo de conversa, o empresário Mario Anseloni vive e não vive em São Paulo. Isso porque seu endereço, numa rua fechada do Alto da Boa Vista, é tão verde e tranquilo que parece mais uma chácara, e não uma área urbana. A arquitetura modernista da casa, projetada por um suíço nos anos 1960, enfatiza a integração com o exterior abrindo toda a parte social para o fundo do terreno, bem grande e com árvores muito antigas. A reforma feita por Anseloni e sua mulher, Andrea, ao adquirem o imóvel, há oito anos, ampliou ainda mais as portas envidraçadas que ligam todas as salas a esse jardim, dominado por dois gigantescos pés de pau-ferro. O casal criou também uma estreita marquise de vidro sobre finos pilotis que acompanha toda a fachada, alargando-se na cobertura de um terraço em frente à área propriamente de lazer. Um confortável bar com sofá, poltronas, balcão, banquetas e churrasqueira se abre para esse espaço, tudo em frente à piscina. É no terraço que ficam duas grandes mesas quadradas feitas de aço e vidro, que têm sua frieza atenuada por detalhes de trançado de fibra vegetal nos cantos e espaçosas cadeiras de cumaru – a mesma madeira de todas as portas e janelas da casa. E aqui chegamos ao cantinho de Anseloni. Faça chuva ou faça sol, sempre que está em casa ele se instala numa dessas mesas com toda sua parafernália: laptop, xícara de café, bloco de papel para escrever e desenhar (tem por hobby colecionar lápis e desenhar móveis de muito bom gosto, alguns espalhados pela casa) e o que mais o momento pedir.
    É ali também que Anseloni e Andrea costumam reunir os amigos, às vezes juntando as duas mesas que, dessa forma, ficam com 3,20 metros de comprimento e 1,60 (a largura de cada quadrado) nas cabeceiras. “Só se chover canivete vamos lá para dentro”, diz ela, artista plástica que anda há uns anos longe das tintas, mas cujo ótimo trabalho abstracionista pode ser visto numa das paredes do living, não longe de uma bela tela de José Bechara colocada na sala de jantar. A mesa desta, por sinal, quase nunca é usada além de suportar doces nas festas de aniversário dos dois filhos do casal, uma menina de 10 anos e um menino de 6. Anseloni conta que deve sua mania, e por extensão de sua família, de ficar no terraço a um hábito que não recomenda: o de trabalhar tarde da noite. Ele o adquiriu em seus anos como presidente de duas empresas, primeiro a HP Brasil, a partir de 2003, e depois, por três anos e meio, a Itautec. “Eu tive uma carreira executiva muito acelerada, aos 38 anos já me tornei presidente, e o acúmulo de responsabilidades me habituou a usar a noite e a madrugada para planejar, refletir”, conta. Em 2013, resolveu empreender e abriu a própria empresa de consultoria em gestão, a IN.business, cujo diferencial é acionar um corpo de experientes ex-presidentes e altos executivos, vários ainda ativos em conselhos, para se debruçar sobre os projetos dos clientes. Anseloni continua a trabalhar muito no terraço e pelo menos oito horas por dia em seu escritório no Brooklin. Mas hoje, sempre que as condições permitem e ele quer, pode trocar a jornada fora de casa pelo dia inteiro de trabalho no seu cantinho, ao som dos passarinhos.

Italiana, casada com o iraniano Kamyar Abrarpour e morando no Brasil desde 1990, Francesca Alzati vive rodando o mundo. Junto com marido, ela comanda a loja By Kamy, em São Paulo, que vende e produz tapetes dos mais distintos materiais e técnicas feitos em diversos países, sempre por artesãos locais em tecelagens exclusivas da marca. Francesca é a responsável por cerca de 80% do design dos produtos da marca, mas não pensa em seu trabalho como uma produção individual, e sim colaborativa. “Eu crio os desenhos, mas os tapetes jamais saem exatamente como imaginei porque tem também a interpretação do próprio artesão, o que é maravilhoso”, diz ela, que se define mais como uma “diretora de orquestra” do que designer e não gosta de ser tratada como proprietária, mas sim como diretora de identidade e de produto da By Kamy. Como seus tapetes são feitos no Nepal, na China, na Índia e outras partes do globo, Francesca, que adora cozinhar, vive trazendo de suas viagens especialidades gastronômicas que acabam aterrissando na copa, seu lugar preferido em casa. É ali que prepara perfumados espressos e faz as refeições no dia a dia, com o marido e os dois filhos adolescentes. “Tanto o italiano quanto o iraniano resolvem tudo à mesa, então aqui é um lugar de aconchego, de abraço, de beijo, de brigas, de discussões. Tudo acontece na copa, é o canto íntimo da minha família”, diz. Não é de admirar que esteja lá também o que ela chama de “cantinho das lembranças”. “Geralmente volto de viagem com a mala cheia de coisas coloridas e perfumadas”, generaliza, indicando uma variedade de chás – um gosto que aprendeu com o marido iraniano – e temperos. Mas, dentre todos os detalhes que formam sua copa, seus objetos favoritos são o vidro do vinagre que ela mesma produz com restos de vinhos tomados em casa (italianos, claro), da mesma forma como sua família fazia quando ela era criança – e um painel chinês usado em uma exposição de arte têxtil produzida pela By Kamy em São Paulo. “É uma lembrança de um trabalho grande que fizemos e que nos rendeu muitos frutos.” É na mistura de aromas de sua copa que Francesca, arquiteta por formação, melhor exprime o que entende por um ambiente pessoal e reconfortante: “Para mim, a decoração não é apenas visual, é também sensorial”.

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