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Eu sou nordestino

Nasci em Recife e vim para São Paulo muito pequeno. Não tenho nenhum sotaque nordestino e ninguém arrisca dizer que sou pernambucano. Como toda pessoa acostumada com a rapidez e a eficiência da cidade grande, me irrito com a lentidão com a qual as coisas são feitas no Nordeste. Me incomoda também a precariedade de alguns serviços da Bahia para cima. E não concordo com muitas das ideias de meus conterrâneos.

Por parecer ser um paulistano da gema, me acostumei a ouvir tiradas preconceituosas contra nordestinos ao longo da minha vida. Quando era pequeno, me sentia um tanto acuado e tinha dificuldade de rebater alguns dos comentários maldosos que ouvia. Conforme fui envelhecendo, porém, comecei a contestar esse tipo de provocação. Confesso que sinto até hoje certo prazer quando digo que sou pernambucano a quem acabou de soltar uma pérola anti nordestina.

O preconceito de hoje é velado. Ganha muita força no anonimato digital e nos grupos que se unem em torno de uma ideia – o tal ajuntamento de consensos que forma as redes sociais. Mas coloque um preconceituoso à frente do objeto de seu preconceito e voilá: ele se sentirá envergonhado. No mundo politicamente correto, parece que só é bacana destilar o preconceito contra os outros às escondidas.

Nas últimas eleições, o PT foi bem votado na região Nordeste. Foi o suficiente para uma avalanche de críticas. Até o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso entrou de cabeça na questão, dizendo que só os desinformados votariam no PT. Aos poucos, vários posts destilando um ódio sem tamanho começaram a circular, achincalhando os nordestinos. Um pouco antes, diga-se, já tinha surgido uma onda preconceituosa contra o sotaque da Miss Brasil, que veio do Ceará.

O preconceito, muitas vezes, reduz a inteligência das pessoas. É o que se vê nessa polêmica. Se votar em Dilma Rousseff é um pecado, ele é compartilhado também pelos mineiros e gaúchos. Sem contar os 25 % dos paulistas que votaram no PT. Cheguei a ler posts que diziam que essa votação em São Paulo era devida aos descendentes de nordestinos que viviam no estado.

Quando se soma os votos de Dilma no Norte e no Nordeste, chegamos à marca de 20,3 milhões de votos. Já a soma dos votos do PT nas regiões Sul, Sudeste e Centro Oeste é de 21,8 milhões.

Ou seja, Dilma teve mais votos nos estados não nordestinos. Do ponto de vista estatístico, é impossível que existam tantos descendentes de nordestinos da Bahia para baixo.

Curiosamente, quando entrevistei o saudoso Eduardo Campos para FORBES Brasil, perguntei a ele se havia sofrido algum preconceito por ser nordestino. Sua resposta foi:

“Por ter posições políticas, já. Mas por ser nordestino? (pausa) Sei que há pessoas com esse tipo de preconceito – talvez hoje menos do que já houve. Mas, pessoalmente, nunca sofri”.

Campos acreditava que o preconceito contra os nordestinos estivesse menor, hoje, do que no passado. Pelo jeito, estava enganado.

No caso desta lufada preconceituosa, tudo leva a crer que este fenômeno seja um produto derivado da disputa política entre o PT e o PSDB. O Fla-Flu político que se transformou a corrida eleitoral fortalece o ódio recíproco entre tucanos e petistas. Não que todos os envolvidos nessa disputa sejam preconceituosos ou tenham ódio do adversário. Mas uma parcela significativa desta turba é exatamente assim.

Como no futebol, o ódio transforma as pessoas. Um amigo, uma vez, me disse que tinha ódio do Corinthians e dos corintianos. Quando eu disse que torcia pelo alvinegro do Parque São Jorge, ouvi a seguinte resposta: “Mas você não conta, porque nem parece corintiano”. Já escutei a mesma coisa quando revelo minha naturalidade. Parece ser um salvo conduto para uma condição indesejada, o que não é exatamente um alívio para quem ouve.

A vida é melhor sem ódio, seja no futebol, na religião ou na política. Mas é da natureza humana encontrar um culpado pelas situações. E malhar os supostos culpados sem piedade. Isso, porém, não leva a nada. Hoje, tudo aponta para a vitória de Aécio Neves. Mas Dilma ainda pode ganhar. Se ocorrer a vitória do PT, o que vamos ouvir? Que o povo não sabe votar? Esse era o bordão dos que apoiaram os 21 anos de ditadura militar, que torturaram e mataram centenas de pessoas em função da luta contra os comunistas (que nem existem mais, tirando uma meia dúzia de afiliados ao PCO).

É preciso respeitar a opinião dos outros, maioria ou minoria. Se deixarmos o discurso do ódio ganhar as ruas, haverá outras vítimas além dos nordestinos. E, eventualmente, uma dessas vítimas pode ser qualquer um – inclusive você.

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