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O perigo do “já ganhou”

O agora ex-senador Pedro Simon é um caso clássico de político que cantou a vitória antes da hora. Em 1982, uma revista semanal publicou uma capa com ele, Franco Montoro e Marcos Freire. Os três eram campeões de voto pelo Senado em seus estados – Rio Grande do Sul, São Paulo e Pernambuco – e tinham tudo para levar a eleição para governador. O título da capa? “Os governadores do PMDB”. Dos três, só Montoro foi vitorioso. Freire foi vítima de uma campanha difamatória e perdeu. Mas Simon tinha tudo para ganhar. Foi desmobilizando a militância na véspera do pleito e, surpreso com os números do adversário, reconheceu a derrota rápido demais. Depois de algum tempo, ficou provado que houve fraude em algumas urnas gaúchas. Se ele tivesse se mantido alerta até o fim, o resultado seria outro? Talvez.

Outra derrota notória foi a de Fernando Henrique Cardoso para a prefeitura em 1983. Senador desde 1982, quando assumira a suplência de Montoro, FHC era o candidato ideal do então PMDB. Liderou todas as pesquisas até uma semana antes da eleição. Tinha tanta confiança na vitória que posou para uma revista sentado na cadeira de prefeito, até então ocupada por seu colega de partido, Mário Covas (até 1983, por conta de uma lei da ditadura militar, os governadores tinham a prerrogativa de escolher os prefeitos de sua capital, sem que eleições diretas fossem chamadas).

No meio da sessão de fotos, outros fotógrafos, os de jornais, conseguiram entrar na sala. Resultado: no dia seguinte, todos os diários publicaram a um instantâneo de Fernando Henrique sentado na cadeira de prefeito. Urnas abertas, contudo, Jânio Quadros havia sido eleito. Ao tomar posse, o novo prefeito usou um inseticida aerossol para desinfetar a cadeira. “Porque nádegas indevidas utilizaram-na”, disse Jânio.

A corrida para a prefeitura de São Paulo, por sinal, é para candidatos sem problemas cardíacos. Além dessa derrota de FHC, mais dois pleitos foram decididos nas últimas horas – a vitória de Erundina, em 1988, e a de Fernando Haddad, em 2012, quando a candidatura de Celso Russomano, até dez dias antes favorito absoluto, murchou tanto que nem foi ao Segundo Turno.

Entre as eleições presidenciais, Ciro Gomes, em 2002 disparou nas pesquisas e tinha tudo para se tornar a chamada terceira via, num processo que desde 1994 é polarizado entre PSDB e PT. Lá pelas tantas, ao ser perguntado pela milésima vez qual era o papel da atriz Patrícia Pillar em sua campanha, ele disparou: “Ela dorme comigo”. Foi o início do fim. Ciro começou a minguar e acabou vencedor apenas na votação de seu estado, o Ceará.

Recentemente, a desidratação pela qual Marina Silva passou também representa uma eleição ganha que foi jogada pela janela.

É por isso que, nestas próximas duas semanas, tudo pode acontecer. Favoritos, como Aécio Neves, não podem dormir no ponto. E Dilma Rousseff igualmente não pode perder a esperança – como Aécio não perdeu quando estava estancado em terceiro lugar, enquanto Marina e Dilma brigavam pela liderança.

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