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Janguiê Diniz: um bilionário muito aplicado

O golfista norte-americano Tiger Woods, eleito o melhor do mundo no ano de 2013, disse certa vez que passou a ter sorte depois que começou a treinar dez horas por dia. A frase bem que poderia ter sido dita pelo empresário paraibano Janguiê Diniz, o rei da educação do Norte e Nordeste e estreante na lista dos bilionários da Forbes com uma fortuna de R$ 2,93 bilhões. De origem humilde, ele começou a trabalhar ainda menino como engraxate. Hoje, aos 50 anos, é controlador, com 70% das ações, do Grupo Ser Educacional, gigante da educação com 30 unidades em operação em 21 cidades do Norte e Nordeste, 113 mil alunos e 300 cursos de graduação, pós-graduação e técnicos, de direito à medicina. Comandante da Uninassau, da Faculdade Maurício de Nassau e da Faculdade Joaquim Nabuco, Diniz adquiriu recentemente a Faculdade Santa Emília (Fase), de Olinda, por quase R$ 10 milhões.

Mas como ele chegou lá? No dicionário de Diniz, sorte significa persistência e obstinação para acordar pontualmente às 6h e trabalhar 15 horas por dia. “Não tenho a intenção de parar de trabalhar. Ao contrário. A intenção é aumentar a carga de trabalho. Quando traço uma meta, trabalho para atingi-la, custe o que custar. O trabalho engrandece a alma e o coração. Não concebo uma vida sem trabalhar e acho que não me acostumaria a viver sem trabalho”, afirma.

Nascido em Santana dos Garrotes, município do interior da Paraíba com 7 mil habitantes, Diniz se mudou com a família ainda pequeno para Naviraí, no Mato Grosso, e depois para Pimenta Bueno, em Rondônia. Apesar de todas as dificuldades, lembra que nunca faltou comida na mesa de casa. Seus pais também sempre exigiram que todos os filhos estudassem. Depois das aulas, ainda pequeno, construiu uma caixinha para trabalhar como engraxate. Também vendia mexericas. Ao finalizar o ensino básico, aos 14 anos, Diniz mudou-se para o Recife, já que em Pimenta Bueno não havia ensino médio. Mesmo jovem, o garoto impôs a si mesmo algumas metas: estudar seis horas por dia, de segunda a segunda. “O dia em que não podia estudar, caso ficasse doente, pagava as horas no dia seguinte. Fui um garoto que não participou de baladas. Aprendi que para atingir as minhas metas era preciso fazer mais do que o necessário”, comenta.

Quando se mudou para a capital pernambucana, foi morar com um tio, com quem trabalhou como digitador e que o fez descobrir o direito. “Nessa época, trabalhava e estudava para o vestibular, pois não teria condições de fazer uma faculdade particular. No primeiro vestibular, fui aprovado na Faculdade de Direito do Recife, da UFPE [Universidade Federal do Pernambuco] e enquanto fazia o curso, montei uma empresa de cobranças”, recorda.

O Direito o fez querer entrar na magistratura e estudar para vários concursos públicos, além de fazer pós-graduação, mestrado e doutorado. “Acredito que a educação é a única forma concreta de mobilidade social, então, por ser um ramo com o qual eu me identificava e que percebia o quanto estava defasado, decidi investir.” Enquanto estudava para ingressar na magistratura, Diniz percebeu que havia poucos cursinhos especializados. Foi então que ele decidiu ensinar outros interessados a se preparar para a prova.

“Quando fui aprovado no concurso para juiz do Trabalho, comecei com um cursinho em uma sala, onde eu mesmo ensinava. O número de alunos foi crescendo e precisei trazer alguns outros professores para me ajudar. Assim surgiu o Bureau Jurídico. Daí para frente, tudo foi uma consequência.” Durante anos, Diniz foi professor na Universidade Federal de Pernambuco e procurador no Ministério Público do Trabalho. “Infelizmente e também felizmente, devido ao grande crescimento do Grupo Ser Educacional e a vontade cada vez maior de estar à frente do negócio que construí com tanto empenho, eu não poderia conciliar as funções. Quando decidimos entrar em processo de abertura de capital (no final de 2013), optei por deixar o Ministério do Trabalho e seguir apenas como empresário”, conta.

Conselhos para se chegar lá? Estudar. Ser pobre, lembra, não é desculpa. Diniz sugere o Prouni – Programa Universidade para Todos, no qual o Ministério da Educação concede bolsas de estudo integrais e parciais. Esse discurso vem ao encontro de uma percepção de economistas e estudiosos que batizaram a geração atual de “nem-nem”, aqueles que não estudam nem trabalham. Segundo o IBGE, 9,6 milhões de jovens integram o grupo.

Se Diniz fosse assim, dificilmente chegaria aonde chegou. “Tudo que conquistei na minha vida foi oriundo dos estudos. Desde pequeno eu entendi que o estudo era a única forma de mudar minha vida. Eu não poderia pagar uma faculdade particular, então precisei me dedicar e traçar metas para entrar em uma faculdade pública.
O que eu almejava quando criei o Bureau Jurídico, embrião da Faculdade Maurício de Nassau, era ajudar outros alunos e profissionais do direito a passar nos concursos da magistratura. Depois, com a criação da faculdade, eu almejava dar mais oportunidades aos jovens de cursar o ensino superior.”

Mercado é o que não falta. O empresário observa que o percentual da população com idade universitária no Brasil (de 18 a 24) ainda é muito baixo. “Apenas cerca de 14%. O pior índice da América Latina. Perdendo para países como Bolívia e Paraguai. A maioria dos estudantes do ensino superior está nas faculdades particulares. Cerca de 75%. Ainda há bastante espaço para crescimento do setor, já que a demanda pelas graduações e pós-graduações continua crescendo”, explica.

Foi estudando que Diniz conseguiu cursar direito e letras, fazer pós-graduação, mestrado e doutorado. “Este é meu principal conselho: estudar sempre e cada vez mais. Além disso, é preciso determinação, persistência e um pouco de sorte. Se falarmos de empreendedorismo por si só, diria que ao investir é preciso conhecer bem a área que se quer atuar, ou estar cercado de pessoas que detenham esse conhecimento. Isso garante que o negócio não vá dar errado logo no primeiro momento”, ensina.

Hoje, o Grupo Ser Educacional continua com o projeto de consolidação de sua presença pelo Norte e Nordeste, o que deve acontecer via crescimento orgânico e também aquisições. “Estamos sempre avaliando instituições e cidades com o perfil que buscamos para expandir”, conta. O plano de Diniz é claro: estar entre os maiores e melhores grupos de educação do país. E isso significa colocar o negócio em rota de crescimento por, pelo menos, dez anos. O crescimento pífio do Brasil não preocupa.

O setor de educação em geral, avalia o empresário, não tem sido afetado pelo desempenho econômico do Brasil. “É um setor que está crescendo há alguns anos e ainda não sofreu saturação para entrar em um período de recessão. Ainda há espaço no mercado e há demanda de público que ainda não foi atingida.”

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