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Jérôme Valcke e o alívio depois da Copa

No dia 1º de março de 2012, dois anos e três meses antes do início da recém-realizada Copa do Mundo, os brasileiros foram atingidos por um simbólico pé nos fundilhos, que doeu mais em uns que em outros. O autor do pontapé retórico foi o secretário-geral da Fifa, Jérôme Valcke, para mostrar o tamanho de sua apreensão em relação ao atraso no cronograma das obras previstas para o maior evento esportivo do planeta.

É possível imaginar que se a agressão tivesse sido plena e real, a dor teria sido maior. Jérôme é um homenzarrão de 1,95 metro de altura, está em boa forma física e é melhor nem pensar o que poderia ter sucedido às nádegas da presidente Dilma Rousseff e de seu ministro dos Esportes, Aldo Rebelo.

À época, o caso foi rumoroso, as vítimas do pontapé sentiram-se, com razão, ofendidas e a relação entre a Fifa e o Brasil quase chegou a um final infeliz. Só depois de um pedido formal de desculpas, Valcke voltou a ser aceito como interlocutor válido pelo governo brasileiro e o relacionamento, mais tarde qualificado como “um inferno” pelo próprio Valcke, voltou a ocorrer.

A questão não respondida é clara: teria tido aquele chute nos glúteos alguma responsabilidade pelo sucesso do evento? Ou se a coisa ficasse apenas por conta da diplomacia, os estádios jamais teriam sido concluídos? Cada um que tire sua conclusão, porque o secretário-geral da Fifa, em entrevista exclusiva para a FORBES Brasil, nem cogita mais tocar no assunto. De modo polido e político, como se espera de um cavalheiro que, na prática, comanda a principal entidade do futebol (Joseph Blatter é o presidente, claro, mas seu cargo é mais honorífico do que executivo), seu discurso, agora é outro:

“Todos os eventos que realizamos têm suas dificuldades que fazem parte do processo. Assim foi, por exemplo, na Copa da África do Sul também. Mas quando o torneio termina com enorme sucesso e resultados espetaculares – como foi o caso da Copa do Brasil –, todo o resto é imediatamente esquecido. O importante é que deu certo para todos. Para os times, para os torcedores, para os telespectadores, para os brasileiros e para os patrocinadores.”

Sentado em seu escritório nos altos de Zurique, com vista para o lago de mesmo nome, Jérôme Valcke fala com a voz desanuviada, como se estivesse realmente aliviado depois do que também chegou a chamar de “Copa das Copas”.

Essa estratégia do bate e assopra costuma surtir efeito em situações de pressão. Mas o próprio secretário-geral da Fifa faz um ligeiro mea-culpa quando perguntado sobre o que aprendeu com a organização da Copa do Mundo do Brasil: “A gente sempre aprende com todas as experiências – começa ele, evasivo –, mas eu reconheço que tive problemas de entendimento com autoridades e com parte da mídia no Brasil. Pessoalmente eu creio que, daqui para a frente, devo ser mais suave (“smooth”) em algumas situações.”

Inquirido sobre a diferença de relacionamento que ele sentiu entre o governo Lula e o governo Dilma, Valcke novamente apelou para a mais diplomática das respostas: “Eles são diferentes em alguns sentidos, mas ambos são corresponsáveis pelo sucesso do campeonato. Eu apenas acho que Lula, por ser mais apaixonado pelo futebol, envolveu-se com mais fervor, como fazem os torcedores em geral”.

Lula, conta Valcke, queria tanto mostrar o futebol a todos os brasileiros que pediu que a Copa fosse realizada em até 14 sedes. Houve uma negociação e, como se sabe, os jogos acabaram sendo disputados em 12 cidades, quando o ideal e o necessário, segundo Valcke, seriam apenas oito. “Mas, você sabe, o Brasil é muito grande…”, desconversou. Valcke é francês, o primeiro que ocupa este cargo. Nascido em Paris, é torcedor do Paris Saint-Germain e admirador do futebol de David Luiz.

Valcke é taxativo (e diz-se taxativo) ao afirmar que, em momento algum, a Fifa cogitou esquecer o Brasil e escolher outra sede para o Mundial. Nem mesmo nos momentos críticos da Copa das Confederações, que coincidiram com as maiores manifestações de rua no país das últimas décadas. E diz ainda que a Fifa está pronta para realizar os torneios de futebol (masculino e feminino) da Olimpíada do Rio imediatamente. “Se fosse amanhã, já teríamos tudo pronto”, garantiu, informando que ainda vai passar informações sobre o que aprendeu no Brasil para o Comitê Olímpico Internacional, cuja sede fica em Lausanne, também na Suíça.

Sobre o fato de que as últimas três Copas foram vencidas por seleções europeias, questiono se esse desequilíbrio em favor dos países mais ricos, com campeonatos mais organizados e a capacidade de comprar jovens talentos ainda no berçário das nações menos favorecidas, Jérôme tem uma resposta que, de alguma forma, soou como um tapa de luva de pelica: “Eu não concordo com você. Nossa tarefa é disseminar o futebol pelo mundo e a Copa do Brasil é uma prova de que países com menos recursos ou menos tradição podem jogar muito bem. Veja os casos da Costa Rica, da Argélia, da Colômbia e até dos Estados Unidos, que fizeram um excelente campeonato”.

Nas entrelinhas, ficou fácil ver o teipe completo dos 7 a 1 que amarguraram os brasileiros. A estranha Copa do Catar também esteve em pauta, mas apenas sob o aspecto climático. Valcke concorda que seria impossível realizar uma competição em pleno verão no Golfo Pérsico e diz que ela vai acontecer no inverno. Há duas opções em discussão: novembro e dezembro de 2017 ou janeiro e fevereiro de 2018. Fatores como interesses dos patrocinadores, férias e outras conveniências práticas serão discutidos pelo board da Fifa. A definição sai em setembro.

Até lá, como sempre, monsieur Valcke continuará a viajar e a aproveitar o prazer de ser recebido como um estadista aonde quer que vá. A Fifa tem um poder proporcional ao esporte que representa. Um levantamento recente mostrou que a Copa do Mundo do Brasil teve audiência maior do que a soma dos Jogos Olímpicos de Verão, dos Jogos Olímpicos de Inverno e do Superbowl, a grande final da NFL nos Estados Unidos. E é claro que quem quer que esteja no comando dos 204 países filiados à Fifa (contra 191 registrados na ONU) terá todos os motivos para saciar a mais narcisística das vaidades.

Jérôme Valcke define-se como um homem de hábitos simples. Casado pela segunda vez, agora com Ornella Stocchi, a quem conheceu na Copa da África, ele tem dois filhos de cada relacionamento. O mais velho tem 29 anos de idade e, Valentina, a caçula, tinha dez semanas apenas quando esta entrevista foi realizada, no final de julho.

Seus prazeres, quando não está trabalhando, são “ficar em casa com minha família, se possível de shorts e camiseta ou esquiar no inverno”. Aos 54 anos, não confirma ser candidato à sucessão de Blatter nas eleições de 2015. Aparecem, aliás, como favoritos, seu xará Jérôme Champagne – também ex-braço direito de Valcke – e seu compatriota, o presidente da Uefa (Federação Europeia de Futebol), Michel Platini.

A imprensa, porém, não cansa de especular que Valcke corre por fora e basta uma palavra de apoio de Blatter para mudar o jogo sucessório. 

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