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Ilha paradisíaca de Marlon Brando vira resort de luxo

“Você precisa sentir este lugar. Precisa ver: abra os olhos”, diz Tumi Brando, enquanto deslizamos sobre o azul desconcertante da laguna de Tetiaroa, atol particular do avô dela, Marlon Brando, na Polinésia Francesa. Tumi cresceu aqui, pescando com sua avó Tarita e tomando banhos de lama em Oroatera, um das 12 motus (ou ilhotas) que constituem o atol. Hoje em dia, a jovem de 26 anos vem exibindo a propriedade para hóspedes do The Brando (thebrando.com), exuberante ecorresort que o ator ganhador do Oscar idealizou muitos anos atrás e que foi finalmente inaugurado em 1º de julho, no décimo aniversário de sua morte.

Foi em 1960, quando filmava O Grande Motim, que Brando viu pela primeira vez Tetiaroa, situada 50 quilômetros ao norte da ilha principal do Taiti. Era, e ainda é, um lugar atemporal — com sua água de intenso azul-turquesa, praias intocadas, vegetação luxuriante e vida abundante, tanto em terra como debaixo d’água. Brando se enamorou pelo atol. Mas ele não foi a primeira pessoa a apreciá-lo: durante séculos, Tetiaroa foi um refúgio da realeza taitiana. Brando, um homem complicado que levava uma vida complicada em seu país, apaixonou-se pela vida insular – sem mencionar seu par romântico no filme, a jovem taitiana de 19 anos Tarita Teriipaia, com quem ele viria a se casar.

“Marlon achava que todo mundo em Hollywood usava uma máscara”, diz Richard Bailey, presidente e CEO da empresa hoteleira Pacific Beachcomber, que construiu e opera o The Brando. “Mas os taitianos não usam máscara. Não há hipocrisia. Ele adorava isso. Achava que os taitianos tinham algo a ensinar ao mundo sobre como levar uma vida feliz e equilibrada.” Seis anos após o primeiro contato, Brando conseguiu comprar o atol inteiro em um longo processo que envolveu um pedido direto ao presidente da França e uma negociação perigosa com uma mulher quase cega que morava em um dos motus e recebia todos os intrusos com tiros de fuzil.

Uma vez proprietário, o ator passava um ou dois meses em Tetiaroa entre filmagens. Os visitantes o encontravam em traje típico taitiano, descalço e penteado com um rabo de cavalo, exibindo uma conduta muito diferente da de suas várias personagens cinematográficas. “Ele estava sempre brincando e fazendo piada”, Tumi recorda. “No jantar, ele fazia coisas do tipo gritar: ‘Olha, um lagarto!’ E quando você virava, ele tinha jogado espinhas de peixe no seu prato ou roubado sua comida.”

Com o passar do tempo, Brando desenvolveu um ardente interesse pela preservação da natureza. Bailey recorda que ele começou a expressar ideias relativas à sustentabilidade antes de a palavra entrar em uso corrente e que lia vorazmente sobre a ecologia dos atóis. Devido à localização remota, ele também se tornou radioamador, habilidade que continuava a utilizar quando voltava à sua casa em Mulholland Drive, Los Angeles, nunca se identificando como um dos maiores astros do cinema mundial.

“Gente do mundo todo conversava com ele sem saber com quem estava falando”, diz Bailey. Ele também abriu na ilha um modesto alojamento ecológico, o Tetiaroa Village, para que outras pessoas pudessem provar de seu paraíso particular. Entre elas, amigos famosos, como Quincy Jones e Robert De Niro. No entanto, as comodidades eram poucas – a falta de ar-condicionado nessa parte escaldante do mundo era digna de nota – e os serviços básicos não eram confiáveis. “Tenho certeza de que se você perguntar ao Quincy Jones o que ele relembra de suas visitas, ele vai recordar que a ilha é linda”, explica Bailey. “Mas também que os mosquitos o deixavam louco e que ele não conseguia dar a descarga no banheiro porque o gerador estava desligado.”

Em 1999, com vistas a fazer benfeitorias, Brando contatou Bailey, um hoteleiro experiente, e lhe pediu que fosse examinar o alojamento. Bailey chegou com alguns membros de sua equipe e ficou horrorizado com o que encontrou. Escreveu um longo memorando para Brando, explicando que não poderia ajudar no alojamento de Tetiaroa porque trabalhava no ramo para oferecer experiências turísticas de alta qualidade, e não para garantir o suprimento de água e eletricidade. “Ele ficou muito nervoso”, Bailey recorda. “Não estava acostumado a ouvir alguém dizer que as coisas não iriam dar certo.” Contudo, seis meses depois, entrou em contato de novo e perguntou o que seria necessário para pôr as coisas em ordem. “Eu disse que tinha algumas ideias”, conta Bailey. E foram elas que eles puseram em prática nos quatro anos seguintes.

Entre as maiores prioridades de Brando estavam a sustentabilidade e a energia renovável. “Ele não queria nada de energia fóssil na ilha”, diz Bailey, “mas queria condicionamento de ar e disse que poderíamos tirar isso do oceano. Eu achei que era uma das ideias malucas dele”. Era, porém, uma ideia viável, como Bailey descobriu quando foi ao Havaí para se encontrar com o dr. John Craven, que havia sido cientista-chefe do Departamento de Projetos Especiais da Marinha dos Estados Unidos. Craven tinha desenvolvido um sistema para gerar eletricidade por meio de um tubo levado até as profundezas geladas do oceano, abaixo de 900 metros. Uma versão aperfeiçoada da técnica foi usada pela primeira vez no hotel da Pacific Beachcomber em Bora Bora, o InterContinental Bora Bora Resort & Thalasso Spa, e está em operação hoje no The Brando, onde fornece metade da energia consumida no resort. (Um conjunto de painéis solares à margem da pista de decolagem e aterrissagem fornece mais um quarto, enquanto uma usina térmica movida a óleo de coco taitiano – um biocombustível – fecha a conta.)

Em grande parte, o projeto ficou a cargo de Bailey, com exceção da proibição de bangalôs sobre a água, item básico em outros resorts da Polinésia. “Ele achava que isso era invadir a natureza”, explica Bailey. “Ele queria que a chegada pelo mar mostrasse sua ilha o mais próximo possível de como ela era no estado primitivo, então nós levamos tudo de volta para dentro da mata.” Hoje, os chalés do The Brando (as casas de um dormitório têm diária a partir de US$ 4 mil, com tudo incluído) estão, de fato, bem camuflados entre a folhagem. As construções em si, porém, têm uma sutil elegância, particularmente os interiores. Com design de Pierre-Jean Picart, um francês que vive no Taiti, eles unem o estilo polinésio a floreios caprichosos.

O edifício onde fica o ótimo restaurante Les Mutinés, por exemplo, tem arcos curvados como o casco de um navio, enquanto linhas de gravetos sobrepostos enfeitam o exterior de algumas construções, franjas de madeira guarnecem varandas, e os edifícios do spa são revestidos de um material que lembra um ninho de pássaros. No todo, é uma estética que Bailey acredita que Brando apreciaria. Essa consideração – o que Brando teria desejado? – ocorreu a Bailey ao longo dos cinco anos de obras. “Eu o sentia olhando por sobre meu ombro o tempo todo”, diz Bailey. “E o ouvia discutindo como sempre fazíamos… Eu pensava: ‘Tudo bem se eu fizer isso?’ E ouvia: ‘Não, você não pode fazer isso!’”

Todavia é difícil imaginar Brando descontente com o resort que leva seu nome. As casas são elegantes, mas discretas, construídas, na maior parte, com madeiras leves em combinações de tons neutros de cinza. Elas são completas, dispondo de salas multimídia com TV via satélite, piscina de imersão e acesso direto à praia. O chefe de cozinha parisiense Guy Martin, do Le Grand Vefour – que conta com duas estrelas do Guia Michelin –, é o consultor dos dois restaurantes. Pratos como o mahi mahi com cogumelo branco, especiarias e emulsão de gengibre e manjericão no Les Mutinés, um pouco mais formal, e o atum grelhado com molho de óleo de coco virgem no Beachcomber Café, mais informal, seriam notáveis em qualquer estabelecimento. No café da manhã, Antoine Soots, subchefe de Martin em Paris e chefe executivo em Tetiaroa, prepara croissants autênticos, excepcionalmente folhados, que não se encharcam com a umidade presente e ficam ainda melhores com o voluptuoso mel produzido por colmeias da própria ilha.

Os hóspedes podem passar o dia no spa Varua, fazendo tratamentos como “a experiência Varua Mana”, uma fricção com óleo de tamanu taitiano, seguida de uma massagem polinésia com óleo de coco. Saindo da terra firme, eles podem fazer snorkeling na laguna ou participar de excursões. Também podem visitar a estação ecológica da organização sem fins lucrativos da própria ilha, a Tetiaroa Society, onde cientistas de universidades visitantes realizam pesquisas – outro objetivo importante de Brando. Ali trabalha o filho de Marlon, Teihotu Brando, que parece saber algo sobre cada folha e cada peixe da ilha.

O patriarca da família sem dúvida apreciaria o envolvimento dos descendentes no novo empreendimento, especialmente no aspecto da pesquisa científica. (Bagnis conta que ele dizia aos filhos: “Esta é a sua ilha, o seu futuro”.) Mas o que ele acharia do fato de a nova butique Hinerava vender colares de pérolas negras taitianas por US$ 100 mil cada? Ou das 15 residências particulares incluídas nos planos futuros?

Alguns familiares acreditam ter recebido uma resposta em uma cerimônia em memória de Brando, realizada durante um pôr do sol na praia, no começo de agosto, por um sumo sacerdote taitiano. A caminho de Tetiaroa no avião particular do The Brando, o sacerdote viu dois arco-íris e, em seguida, duas baleias – tudo sinal de bom augúrio, segundo ele. Depois, no decorrer da cerimônia, pássaros começaram a esvoaçar desenfreadamente, o sol ficou laranja ao longo da linha do recife, e um forte magnetismo espiritual baixou sobre o grupo.

“Todo mundo sentiu”, diz Tumi. “Minha irmãzinha não conseguia parar de chorar.” Talvez tenha sido, como suspeita Bailey, Marlon Brando tentando dar uma última sugestão para o resort. Ou talvez o poderoso chefão da ilha estivesse finalmente dando sua bênção à ilha que tanto amou.

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