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Chris Blackwell, o homem que descobriu Bob Marley e viu James Bond nascer

Cintia Esteves

Letícia Moreira

Letícia Moreira

O empresário Richard Branson é capaz de fazer um voo de Necker Island, sua ilha no Caribe, para a cidadezinha de Oracabessa, na vizinha Jamaica, apenas para tomar um café da manhã com o velho amigo Chris Blackwell. Foi o que aconteceu, por exemplo, no início de março deste ano. A amizade entre os dois começou nos anos 1970, quando se conheceram em uma festa e Blackwell decidiu ajudar Branson a começar a Virgin Records. Como se sabe, a gravadora do empresário inglês tornou-se um fenômeno. Já Blackwell, com sua Island Record, virou uma das maiores lendas da indústria fonográfica por ter popularizado o reggae no mundo. Foi o produtor quem descobriu Bob Marley e lançou tantos outros artistas — entre eles, a banda irlandesa U2.

“Tem um aeroporto a menos de dez minutos do hotel”, diz Black­well tentando justificar a extravagância do amigo. O hotel a que ele se refere é o seu luxuoso Goldeneye, antiga propriedade de Ian Fleming e local onde o inglês escreveu as 14 aventuras de James Bond. Então, só para recapitular: Blackwell é amigo chegado de Branson, revelou o cantor de reggae mais famoso do mundo e possui o resort onde nasceram as histórias do 007? Sim, e ainda tem mais.

Na verdade, Goldeneye primeiro pertenceu à mãe de Blackwell, Blanche Lindo, cuja família era proprietária de plantações de cana-de-açúcar e de banana em St. Mary. Fleming resolveu construir uma casa na Jamaica no final dos 1940. Ele era casado, mas tornou-se amante de Blanche e comprou uma parte da fazenda dela, a qual apelidou de Goldeneye. “Ele costumava fechar todas as janelas quando estava escrevendo. Ainda temos na casa que pertenceu a ele a mesa de madeira onde as histórias de James Bond foram escritas”, diz Blackwell. Aliás, a personagem Pussy Galore, de 007 contra Goldfinger, foi inspirada em Blanche. “Até hoje minha mãe se incomoda com as notícias que lê a respeito. Mas digo que ela não deveria ficar chateada, afinal toda mulher adoraria viver até os 100 anos e ela tem 102”, diz.

No início da década de 1960, durante as filmagens de 007 contra o Satânico Dr. No, em Oracabessa, Fleming arrumou trabalho para o jovem Blackwell como assistente de locação. O “enteado” do escritor influenciou Monty Norman, responsável pela trilha sonora, apresentando-o para músicos jamaicanos como Byron Lee, que conseguiu emplacar composições no primeiro filme da franquia. Gostou da experiência, mas seguiu com sua Island Record, que, mais tarde, além de cuidar da carreira de Bob Marley, impulsionaria cantores como Cat Stevens e PJ Harvey.

Em 1975, após a morte de Caspar, único filho de Fleming, Blackwell voltou a ser proprietário de Goldeneye e a transformou em parte integrante de seu projeto de resort inaugurado em 2010. A propriedade de 520 mil metros quadrados possui 19 acomodações, sendo algumas villas de frente para a praia, outras viradas para uma lagoa privativa, além da The Fleming Villa, com sua construção original de três quartos, duas casas de hóspedes independentes, piscina e praia particulares. Quem se acomoda na antiga casa de Fleming também tem direito a uma equipe exclusiva de funcionários com mordomo, cozinheira e arrumadeira. E como era de se esperar de um empresário tão ligado à música, todas as acomodações do resort possuem um Squeezebox, sistema de som da Logitech capaz de transmitir estações de rádio do mundo inteiro.

O paraíso de Blackwell já recebeu famosos como Beyoncé, Naomi Campbell, Kate Moss e Jude Law. “Sabe o Sting?”, pergunta como se estivesse falando de alguém não muito conhecido. “Ele compôs ‘Every Breath You Take’ em Goldeneye”, diz. Blackwell é assim: relata momentos interessantes da música mundial, nos quais teve alguma ligação, com total naturalidade. Como quando viajou ao Brasil com Bob Marley para a inauguração de uma filial da gravadora Ariola Records.

O ano era 1980 e o jamaicano foi impedido de entrar no país por conta dos temas de suas composições. Blackwell voltou com o cantor para Trinidad e Tobago, de onde tinham partido, e após gastarem um dia e meio resolvendo questões relacionadas ao visto, finalmente voaram para o Rio de Janeiro. Foi nessa ocasião que Marley protagonizou a pelada mais famosa da Cidade Maravilhosa. “Bob amava futebol tanto quanto música e jogou com Chico Buarque. No voo de volta, ele compôs ‘Could You Be Loved’”, lembra.

Blackwell deixou a carreira na música nos anos 1990. Hoje dedica a maior parte do tempo a sua Island Outposts, empresa proprietária de mais outros três hotéis na Jamaica, mas não conseguiu abandonar totalmente o reggae. “Eu estou trabalhando com um cantor novo chamado Chronixx, um jamaicano de 22 anos. Ele tem um pouco do velho espírito do reggae, mas faz um som muito contemporâneo.” Aos 77 anos, Blackwell parece estar determinado a continuar criando novas (e boas) histórias. Agora dá para entender por que Branson está disposto a fazer um bate-volta até a Jamaica só para tomar um cafezinho com ele, não é mesmo?

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