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Chapéu panamá volta à moda com tudo

Ary Diesendruck

Ary Diesendruck

Eis que surge um efeito positivo do fenômeno do aquecimento global. Os chapéus, outrora parte integrante de qualquer figurino elegante, ameaçam reagir. Depois de quase abandonados por um século, como se, de repente, não houvesse mais sóis abrasadores ou chuvas volumosas; pior até: como se o número de cabeças merecedoras de proteção tivesse se reduzido a uma ínfima quantidade, os especialistas em moda acompanham o renascer do acessório para amenizar o calor e as tormentas dos novos tempos.

E é o chapéu-panamá que está na linha de frente desse movimento de reação de seus pares. Utilizado e glamourizado por astros de cinema e ídolos da música (veja quadro), ele tem feito a cabeça de um número cada vez maior de usuários, sobretudo na porção mais tropical do planeta. Que é, aliás, de onde vem: do meio do mundo e de um país que leva o nome da linha imaginária que o divide: o Equador.

Mas não é Panamá? O nome é, mas o produto não é.

Reza a lenda que no ano de 1904, o então presidente dos Estados Unidos Theodore Roosevelt foi visitar a obra de escavação do quimérico canal que juntou o Pacífico ao Atlântico. Encharcado de suor, o líder americano viu que os trabalhadores usavam, para proteger-se, uma espécie de chapéu de palha branco de trama muito fechada. Ele decidiu provar um deles e, imediatamente, aprovou seu efeito visual e térmico. Os jornalistas que o fotografavam anunciaram que o presidente vestiu um chapéu do Panamá — e o nome entrou para a história.

Se algum deles tivesse ido mais a fundo, teria sido informado que se tratava de um grupo de trabalhadores equatorianos, que os ditos sombreros haviam sido produzidos na região de Cuenca, em seu próprio país e que, quando os espanhóis chegaram à região, em 1534, já encontraram nativos usando primitivos chapéus “panamá “ de um modelo chamados “asas de vampiro”.

Mas o merchandising de Theodore Roosevelt foi devastador. Pouco tempo depois de ter enaltecido o produto, o Equador começou a ser consultado por diversos países e suas pequenas indústrias multiplicaram-se para atender à demanda mundial. Em Paris, o jovem Santos Dumont, dado a arriscadas experiências voadoras e sempre muito elegante, só era visto sob a sombra de seu panamá. Aos poucos, surgiram novos modelos, todos eles feitos do mesmo material, e a competição entre os consumidores acirrou-se. Cabeças de mestres da música como Tom Jobim ou de mestres da guerra, como Winston Churchill, receberam a sombra dos panamás, todos eles feitos a partir da fibra de uma palmeira cientificamente chamada de Cardulovica palmata. Na região onde nascem — a província de Azuay —, quase sempre perto dos 3 mil metros de atitude, a fibra é chamada de palha toquilla ou jipipapa. O mesmo acontece no resto do Equador.

A cidade de Montecristi, com seus parcos 14 mil habitantes e na vizinha província de Manabí, porém, é considerada a produtora dos chapéus-panamá de melhor textura e trama mais apertada. São os “ultrafinos”, que podem custar até US$ 3 mil por unidade. Não que os demais, chamados “finos” , sejam considerados produtos de segunda categoria. Eles apenas não têm a mesma brancura e a maciez dos modelos produzidos em Montecristi.

“ Um chapéu-panamá de verdade não deixa passar uma gota de chuva e passa pelo buraco de um anel”, diz um cartaz em uma loja de Cuenca. A frase refere-se à trama fechada da palha toquilla e ao fato de que os panamás, em geral, podem ser enrolados até formarem um volume tão pequeno que poderia ser perpassado por um anel. Tudo isso sem prejuízo à fôrma. Aliás, a maior parte dos modelos é vendida “enrolada” em caixinhas retangulares e muito pequenas.

Visitar o Equador sem ter contato com os chapéus-panamá é ato tão herético quanto esquecer de incluir no roteiro as Ilhas Galápagos, também pertencentes ao país. Há centenas de lojas com o famoso sombrero em seus diferentes formatos e cores. O nome refere-se mais à fibra do que a fôrma. Por isso é perfeitamente possível adquirir um chapéu do tipo Borsalino feito de palha toquilla. Nesse caso trata-se de um panamá fedora, por exemplo.

Muitas lojas em Quito têm uma espécie de exibição do processo de fabricação do produto, onde o turista pode ver mulheres em trajes de camponês (as cholas), trançando as fibras. É mais autêntico e mais interessante, contudo, ver de perto (em Cuenca ou Montecristi) como os finos são construídos, desde a extração da planta até o destino final — que pode ser a cabeça de Brad Pitt ou Angelina Jolie.
Nesses locais, é possível verificar a mão de obra intensiva utilizada por essa indústria, importante item da pequena economia equatoriana.
Depois de retirada das palmeiras — que chegam a ter 3 metros de altura — , e posta para secar, a fibra é trançada pelas mãos ágeis das cholas, dando-lhe um princípio de formato. Os protochapéus resultantes do processo são imersos em grandes tanques (que comportam até
360 unidades, cada), com produtos ditos “biodegradáveis”, onde permanecem por 12 dias a temperatura de 60º centígrados, sempre mexidos por um especialista que põe os de baixo para cima e vice-versa.

É nessa fase que a fibra ganha a textura e a alvura desejadas. Os chapéus, que agora têm o formato de sinos, voltam a tomar o seu banho de sol em um segundo processo de secagem. Chega, então, a fase definitiva: a prensagem. Cada fino é destinado ao molde metálico que definirá seu futuro. Máquinas modernas, que substituem as rústicas prensas do passado, dão, então, o formato definitivo ao produto, além de definir seu tamanho. No acabamento, rápido, a aplicação das fitas que caracterizam os panamás mundo afora.

Há um único concorrente para o fino em todo o mundo: trata-se de um chapéu produzido em Taiwan, inspirado e copiado de seu antecessor equatoriano. Seu nome é tamsui e é feito com uma planta local chamada Pandanus odoratissimus. Os tamsui conquistaram boa parte do mercado asiático. Mas não oferecem qualquer perigo ao glamour de um verdadeiro fino, que, afinal, tem o respaldo das melhores cabeças.

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