Como fugir da alta do dólar em viagens para o exterior

Retomada econômica faz brasileiros gastarem US$ 6 bilhões a mais em viagens internacionais.

Quem está de viagem marcada para fora do país e precisa comprar dólares deve ter se assustado com a alta da semana passada. A moeda norte-americana chegou a R$ 3,73 e R$ 4,16 nas modalidades comercial e turismo, respectivamente, na última quinta-feira (18). Este patamar foi atingido, pela última vez, em 16 março de 2016, quando Lula foi anunciado como ministro da Casa Civil, em meio à crise que levou ao impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff.

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Apesar da saída de brasileiros para o exterior ter diminuído em 1 milhão de 2015 para 2016, de 2017 para este ano, com a retomada econômica, os números aumentaram progressivamente.

Segundo Maurice Padovani, sócio e diretor da agência de viagens Primetour, especializada em turismo internacional, a procura por destinos fora do país é crescente, e os mais cobiçados pelo público de alto padrão são os europeus. “Ir à Europa continua como preferência, mas é tendência a busca por lugares inusitados, diferentes e remotos, como Ruanda, Zanzibar, Omã, Butão, Myanmar, Islândia, Sri Lanka e Antártica”, explica.

A título de comparação, em 2016, segundo dados do relatório divulgado pelo Ministério do Turismo, os Estados Unidos seguiram por 9 anos consecutivos como principal opção de ida ao exterior para turistas saídos do Brasil.

Outro ponto que contribui para a valorização do dólar é o maior valor gasto pelos brasileiros em viagens aos EUA. O ministro do Turismo, Vinicius Lummertz, diz ter havido uma recuperação no ano passado. “Devido à retomada econômica, saímos de US$ 13 bilhões gastos lá fora para US$ 19 bilhões. São US$ 6 bilhões a mais, de imediato”, conta.

Além disso, existe um padrão comportamental nacional voltado para o consumo de bens. “São gastos, em média, US$ 1.700 no exterior. Já o estrangeiro em visita ao Brasil deixa aqui por volta de US$ 850. Este diferencial se deve às compras. Isso mostra tanto que viajamos para comprar quanto que existe uma deformação em nossa economia. Não se vê um norte-americano ou um holandês em um dia de compras no Brasil”, diz o ministro. Atualmente, o país ocupa a 23ª posição no ranking mundial de capital despendido no turismo global.

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Ainda sobre a diferença de gastos entre brasileiros e estrangeiros, Lummertz frisa a posição do dólar frente ao real: “Supervalorização cambial é outro fator que faz turistas de fora deixarem menos dinheiro em território nacional”. Com US$ 19 bilhões desembolsados por brasileiros em viagens internacionais e US$ 5,8 bilhões gastos por estrangeiros no país, em 2017, a balança comercial do turismo fechou em déficit de US$ 13,2 bilhões.

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Presidente do Banco Central anula baixa esperada durante reunião do Copom.

Diante do aumento da procura por destinos internacionais, ficar atento às taxas de câmbio e entender os fatores políticos e econômicos que elevam o valor da principal moeda do mercado são lições de casa para fazer o dinheiro render mais.

Segundo o professor Marcelo Curado, doutor em política econômica pela Unicamp e chefe do Departamento de Economia da Universidade Federal do Paraná (UFPR), um dos fatores que contribuem para o aumento do dólar é o incremento dos tributos norte-americanos. “O aumento da taxa de juros nos EUA atrai capital para o país e tende a valorizar sua moeda.”

Outro ponto levantado por Curado para a valorização são as decisões anunciadas pelo presidente norte-americano, Donald Trump, que interferem diretamente no quadro global. “Algumas ações do governo Trump têm jogado uma série de instabilidades no cenário internacional. Uma das últimas e mais importantes foi a saída dos Estados Unidos do acordo nuclear com o Irã. Isso mexe com expectativas sobre o preço do petróleo, por conta da importância da commodity para a economia.”

A guerra comercial entre Estados Unidos e China, interrompida no último domingo (20) com a suspensão da medida norte-americana de impor tarifas sobre importações de produtos chineses, também havia contribuído para a instabilidade da taxa cambial, principalmente, quanto às moedas emergentes, pela supervalorização das commodities.

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Outro fator que gera maior volatilidade da moeda são as eleições presidenciais no Brasil. “Em breve, a questão política pode ter muito mais força em relação ao câmbio. Principalmente, se houver a forte presença de candidatos com propostas contrárias às reformas estruturais esperadas pelo mercado. Diante deste cenário, a tendência é haver uma desvalorização do real”, diz Curado.

Para Pedro Henrique Rabelo, CEO da WM Manhattan, empresa que atua no mercado de renda variável e capacita investidores para operar na Bolsa de Valores, outros pontos também devem ser agregados ao movimento de alta do dólar. “Aconteceu um fator interno nesta última semana. Ilan Goldfanj, presidente do Banco Central do Brasil, havia comunicado ao mercado que seguiria com o corte de juros porque a inflação não tem pressionado o quadro interno. Porém, na última reunião do Copom, o discurso não foi mantido, e a baixa esperada foi anulada. Isso fez com que o mercado reajustasse todas as suas posições, tanto nas tarifas, quanto em relação ao dólar. Essa surpresa que o Banco Central trouxe para nós colocou, de certa forma, em xeque o discurso do presidente.”

Dez anos após a injeção de dinheiro do pacote de resgate do governo norte-americano para a recuperação econômica, a expectativa é de pressão por parte dos EUA, com a retirada de estímulos. O aumento dos juros dos papéis de uma década, acima dos 3% ao ano, causou reajuste de títulos do Tesouro a nível global. “A cada 1% que os Estados Unidos sobe de juros, a gente calcula que ele deva enxugar de US$ 4 trilhões a US$ 6 trilhões do mercado global”, diz Rabelo.

No entanto, apesar do alvoroço instaurado pelo aumento do dólar, é esperada uma baixa no valor da moeda norte-americana. “Acredito que o dólar comercial recue para o patamar de R$ 3,50, que é o confortável quando se fala de juro real próximo a 3%. Esse movimento que a gente teve foi de reprecificação”, explica Rabelo.

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Pesquisar em diferentes dias e plataformas é um dos pontos mais importantes na hora do câmbio.

Aos brasileiros que planejam viajar para o exterior, o pior movimento a se fazer é comprar dólar em momentos de estresse cambial por apreensão de que os preços aumentem ainda mais. A corrida pressiona o dólar turismo e aumenta o spread da troca. Para Curado, “o ideal é comprar paulatinamente, em movimentos de baixa, e esperar passar um pouco toda essa movimentação”. Na última quinta-feira (18), o spread cambial chegou a R$ 0,40, quando em transações normais fica entre R$ 0,14 e R$ 0,20.

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Segundo Rabelo, além de manter a calma e não comprar toda quantia necessária para a viagem ao exterior de uma vez, outras dicas podem ajudar a otimizar o momento do câmbio. “Para garantir a segurança na troca do dinheiro, é essencial optar por empresas e locais credenciados pelo Banco Central e evitar o câmbio ilegal, já que não há garantia se a nota é verdadeira.”

Quanto à segurança do momento e de como fazer o câmbio, Rabelo completa: “ A pesquisa é uma das partes mais importantes na hora da compra, independentemente da moeda. Pesquise em diversas plataformas e em vários dias para saber qual o valor mais baixo. O dólar pode variar em até R$ 0,20 de uma empresa de câmbio para outra. Também nunca deixe para trocar a moeda na hora da viagem e no aeroporto, as taxas são muito mais altas e nem sempre aceitam o real.”

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