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Empresa usa velejada para promover educação corporativa em Porto Alegre

 

“Quando se navega sem destino, nenhum vento é favorável.” O provérbio náutico, atribuído ao escritor romano Sêneca, é muito usado no mundo corporativo do século 21, assim como “Mar calmo nunca fez bom marinheiro”. Velejar exige habilidades técnicas, conhecimento teórico e um pouco de talento, ousadia e coragem, entre outros fatores. Soa familiar? É exatamente o que as empresas procuram hoje em dia.

Essa reflexão levou dois jovens de Porto Alegre, de 23 anos, a criarem uma empresa que usa a vela como meio de aprendizagem corporativa. Cássio Lutz e Roberto Machado, estudantes de administração da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), nunca se adaptaram ao modelo tradicional e unilateral de ensino. “Muitas empresas do setor de RH estão fazendo a mesma coisa há 20 anos: com o modelo de sala de aula e falando ‘liderança é assim e vocês têm de ser assado’. Nós fomos atrás do oposto disso”, conta Machado.

Desses questionamentos, entre o final de 2012 e o começo de 2013, surgiu a PrimeSail, uma empresa que promove educação corporativa por meio de velejadas. Funciona assim: companhias entram em contato com eles para reforçar ou descobrir algum fator interno e, em reuniões prévias, fica estabelecido qual será o foco do encontro. O processo, de cerca de cinco horas, é dividido em três partes: abertura, em que eles explicam o que irá acontecer; experiência, a velejada; e processamento, o trabalho de reflexão.

“O primeiro passo é deixar bem claro para os participantes que não é um passeio, mas uma experiência para trabalhar determinado aspecto”, explica Machado. “Nós precisamos engajar o grupo e fazer com que ele acredite no que estamos proporcionando”, completa Lutz.

“Todos os trabalhos são personalizados. A analogia de velejar é somada à cultura da empresa, por isso, não podemos ter um serviço encaixotado”, argumenta o empresário. Machado exemplifica: “O trabalho tem de representar o ambiente que a companhia vive, se ela tem metas fortes e pragmáticas, uma velejada livre é menos eficiente”.

Os sócios argumentam que o seu modelo se sobressai ao tradicional, pois traz novos componentes para a discussão corporativa. Para o processo, os participantes recebem apenas um manual com dez dicas básicas sobre vela, o resto é com eles. “Quando se nivela o conhecimento técnico, já que ninguém sabe navegar, o comportamento das pessoas fica mais nítido. Assim, elas podem refletir sobre fatores que poderiam demorar meses ou anos para serem notados no ambiente corporativo”, afirma Machado.

A parte final, de discussão após a navegação, é tão importante quanto as anteriores. Segundo Lutz, a dupla promove debates para que os funcionários e gerentes reflitam sobre o que viveram e como podem aplicar isso ao seu dia a dia corporativo. Eles procuram não interferir. “O que acontece na dinâmica é importante para quem está vivenciando, nós estamos lá para facilitar o processo.”

A empresa funciona por meio de parcerias. Os sócios, dois únicos funcionários da PrimeSail, não têm barco nem pretendem comprar um em breve. A infraestrutura, como internet, espaço e até restaurante, é oferecida pelo Veleiros, clube náutico do qual os dois são sócios, e as velas vêm de 12 donos diferentes.

Segundo eles, o custo fixo mensal é irrisório. Pouco menos de R$ 500. “É isso que viabiliza a nossa operação”, explica Machado. Mas os valores não param por aí. Dado o sistema de parcerias, o gasto, no final das contas, é variável, pois os serviços são prestados sob demanda. O aluguel de um barco custa, em média, R$ 500 por turno. Além disso, há a contratação de um velejador profissional por vela, responsável pela segurança dos tripulantes, entre outras despesas.

Mesmo novo, o negócio está crescendo. Se comparado ao último semestre de 2013, a PrimeSail teve um crescimento de 12 vezes no faturamento durante os primeiros seis meses deste ano. Segundo os sócios, a margem de lucro é, em média, de 65%.

Até então, a dupla trabalha apenas em Porto Alegre e tem como principal objetivo se consolidar na capital gaúcha, campo que, segundo eles, ainda tem muito a crescer. Expansão para outras cidades, como Rio de Janeiro? Assunto para o ano que vem.

Com ideia (e frases) que se complementam, os sócios pretendem manter o modelo minimalista em que possam participar de tudo. “É o que gostamos de fazer”, afirma Lutz. Como o destino está traçado, os ventos se mostram cada vez mais favoráveis.

 

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