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“Eu acredito no Brasil”, afirma o empresário Ivo Rosset

Muita gente costuma dizer em tom de brincadeira – mas com um fundo de crítica– que a única saída para o Brasil é o aeroporto de Cumbica, em Guarulhos (SP). Quando esse comentário é feito diante do empresário Ivo Rosset, 72 anos, filho do fundador do Grupo Rosset e comandante da maior referência do setor têxtil brasileiro, todos os presentes na sala caem no riso. Menos ele. A expressão do empresário, cuja companhia iniciou o governo Dilma Rousseff com um faturamento de cerca de R$ 450 milhões e deve encerrar 2014 com vendas em torno de R$ 700 milhões, é de seriedade. Alguém comenta que não saberia para onde ir, uma vez que a crise assola vários países da Europa. Rosset interfere: “A questão não é ir embora, mas por que sair do Brasil. Se eu não morasse aqui, escolheria o Brasil para viver”.

Na opinião de Rosset, o futuro do Brasil
não é tão sombrio quanto preveem alguns economistas. “Acredito e sempre acreditei no Brasil. Já passei por algumas crises e me recordo até hoje de quando atingimos 80% de inflação em um mês. Vou usar uma frase do Abilio Diniz que diz: vá ao espelho e olhe o que você tem que fazer e não o que o governo tem que fazer por você. Você tem que cuidar do seu negócio”, opina.

E ele parece estar cuidando. Rosset preferiu trocar o temor por investimentos. “Em 2012 e 2013, aportamos R$ 50 milhões na nossa área industrial e na estamparia Salete, hoje uma das mais modernas do mundo, com tecnologia que pode ser comparada à italiana. Neste ano, estamos investindo mais R$ 10 milhões, isso sem contar a aquisição recente da Triumph (negócio que faturou R$ 70 milhões em 2013)”, afirma o empresário, que, embora trabalhe ao lado dos irmãos Isaac e Aron, dos filhos Benny e Gustavo e de alguns sobrinhos, sempre é um dos últimos a encerrar o expediente e deixar a sede da empresa no Bom Retiro, em São Paulo.

Seu olhar mira para o médio e longo prazo e
a recessão não o assusta. Tanto que o empresário admite que as aquisições não devem parar. “Há mais um ou dois negócios que estamos analisando”, revela Rosset, sem entrar em detalhes. Uma marca do mercado? Pode ser, responde. Os negócios não podem parar. Com a incorporação da Triumph aos negócios, o faturamento do Grupo Rosset deve fechar 2015 em R$ 800 milhões. A meta é atingir
R$ 1 bilhão em receita em dois ou três anos.

Para chegar lá, o Grupo Rosset, que detém 65% do mercado de tecidos elásticos (lycra) do Brasil, além de unidades só de rendas, acabamentos, tinturaria e estamparia, conta com
11 fáricas e marcas de lingerie, moda praia e fitness como Valisere, Valfrance, Triumph, Sloggi, Cia. Marítima e Água Doce. A companhia também confecciona para grandes magazines, como a C&A. Outras marcas famosas do varejo, como Track & Field e Scarf Me pertencem à família, mas não fazem parte do Grupo Rosset.

Mas e o momento atual de recessão, preocupa? Rosset explica que não é a primeira vez que o país passa por um período de retração. Ele acredita que a Copa do Mundo trouxe um ano de dez meses ao Brasil, dada a paralisação do varejo (e, consequentemente, de muitas indústrias) nos meses de junho e julho. A Rosset, fundada por seu pai em 1939, cresceu uma média de 6% a 10% por ano nos últimos 12 anos. Até agosto, no entanto, os números de 2014 demonstraram estabilidade em relação ao ano anterior. Ou seja: sem crescimento nem declínio. Mas dá para crescer 6% em 2014? O empresário diz que não sabe, mas garante que em 2015 dará. “Essa parada em junho e julho afetou bastante a economia, mas não vejo razão para pessimismo. O momento é de cautela e cada um tem que tomar suas precauções. Não vejo o futuro com risco. Eu continuo acreditando no Brasil.”

O mês de agosto, observa, sinalizou uma retomada. “O segundo semestre deve apresentar  bons resultados”, acredita. Rosset sabe que o crescimento do país deveria ser superior ao atual. “O PIB é praticamente negativo e isso afeta o ânimo do empresário na hora de investir. Mas é justamente nesse momento que a gente tem que acreditar na continuidade do país. Nós temos um mercado interno bastante expressivo e que vai continuar consumindo”, explica. 

Como porta-voz da indústria têxtil, afirma que o varejo poderia se abastecer mais na indústria brasileira em detrimento dos importados. Defensor da desoneração da folha de pagamento, conversa com o governo desde os tempos de Lula e elogia a presidente Dilma por ter tido sensibilidade ao aprovar a substituição do recolhimento do INSS, feita por meio da folha, para o faturamento. “Quem emprega muito era penalizado, cenário que mudou no governo Dilma e que trouxe um certo alívio. Mas isso não é tudo. O grande problema de setores com mão de obra intensiva – e não só o têxtil – é o ônus da mão de obra. Nós competimos com os asiáticos dentro de um padrão totalmente desproporcional. Na China, por exemplo, não há imposto sobre mão de obra. E eu pago PIS, Cofins e ICMS sobre ela, o que é um absurdo.”

O empresário é a favor da adoção do Simples para empresas que usam mão de obra intensiva. Seja qual for o faturamento delas. “O Simples faria com que as empresas pequenas crescessem sem medo.” Já falou isso para a Dilma? “Já falei e isso não seria apenas para o meu setor.” Essa seria sua sugestão para defesa comercial do país.

A expectativa é que o próximo governo traga melhorias. “Talvez a Dilma seja a candidata que vai promover essa mudança. Seu segundo mandato talvez seja melhor que o primeiro. Ela tem experiência e uma capacidade de governar muito grande, mais objetiva.” Rosset diz não enxergar muitas mudanças entre Dilma Rousseff e Aécio Neves, mas quando o assunto é Marina Silva ele comenta não ter noção de como seria seu governo. “Uma coisa é certa. Ninguém vai conseguir tirar o Brasil do sistema e do rumo que está. É enorme o potencial de desenvolvimento e de crescimento. O que ocorre agora é um período de retração.” 

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