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Parceria entre música e mundo digital cresce no Brasil

Fátima Pissarra trabalhava na área de advertising da Nokia americana. Seu então chefe foi convidado para assumir o cargo de vice-presidente da Vevo e a chamou para montar uma representação no Brasil. Com esse propósito, a executiva foi atrás de um sócio local e acabou conhecendo Ricardo Marques, fundador da Elemidia, que havia vendido sua empresa há pouco tempo. Em 2012, fundaram, então, a produtora Music 2 para ser representante oficial da Vevo no país. “Eu acredito muito neste negócio. Quando abrimos o escritório, eu estava trabalhando na ideia há pelo menos um ano. Sabia que teríamos oportunidades, pois o mercado da música e o digital estão crescendo em grandes proporções”, afirma Fátima.

De fato, o mercado digital nunca esteve tão aquecido. Ainda há quem compre CDs e DVDs – no Norte e Nordeste, principalmente – e vá aos shows, que estão cada vez mais caros. Mas os serviços de streaming, por exemplo, estão começando a cair no gosto do público. O Spotify, que chegou ao Brasil recentemente, possui 10 milhões de usuários ativos. No Deezer, um programa semelhante, são 2 milhões de pessoas ouvindo músicas. Somados, correspondem a 6% da população brasileira. Pode não parecer muito, mas a perspectiva é que o número cresça cada vez mais. “O digital veio para causar uma revolução. Acho que em dez anos teremos essa mudança mais consolidada, de ninguém mais sequer lembrar da existência do CD”, diz Ricardo Marques.

Com venda menor de CDs, pirataria, download e streaming na internet, como os artistas estão faturando? O grande carro-chefe continua sendo o show. Mas isso pode mudar em breve, pois uma nova forma de gerar receita está surgindo: o product placement, que consiste em colocar um produto de uma marca específica dentro do videoclipe. “Esse tipo de estratégia é muito diferenciado. Fora do Brasil já está sendo bastante usado. As marcas estrangeiras entendem que o consumidor prestará muito mais atenção em um vídeo de três minutos do seu artista preferido do que em um comercial de 30 segundos na TV. Além disso, é o artista que mostrará como usar o produto, não será algo imposto”, explica a executiva. Isso significa que o público-alvo é atingido de uma maneira muito mais eficiente. Mesmo assim, as empresas brasileiras ainda não captaram muito bem a ideia. Para eles, o fato de o comercial passar na TV, em um canal conhecido, é muito mais importante do que focar em um videoclipe. No entanto, a executiva acredita que as marcas vão acabar percebendo que essa tática vale a pena, porque, além de ser mas interessante, é mais barata.

Guta Braga, proprietária da Musica, Copyright e Tecnologia, empresa prestadora de serviços da Vevo, trabalha há muito tempo no mercado da música e conta que, antigamente, era muito mais fácil para o artista fazer dinheiro com o seu trabalho no mundo do produto físico. “Com a mudança de comportamento, cada vez mais um número maior de pessoas está trocando o formato físico pelos serviços de música digital. A perda de receita dos artistas, compositores, selos e editores é expressiva”, afirma Braga.

Hoje, os artistas estão atentos ao fenômeno da geração de conteúdo – onde tudo acontece ao mesmo tempo – e também estão começando a entender que o usuário da web procura conforto e acessibilidade. O público poder assistir ao show de sua banda favorita, sem sair de casa e sem gastar dinheiro, é um luxo que a tecnologia proporcionou. “Fazer um show para um número ilimitado de fãs, em diferentes locais, no Brasil ou no exterior, é incrível”, ressalta Fátima. É com essa percepção de crescimento do mercado da música no digital que Celso Augusto Forster e outros quatro sócios criaram o Clap Me, plataforma de transmissão de shows on-line e interatividade. Lançada em 2013, já conta com mais de 1.500 artistas associados e cerca de 500 shows foram transmitidos neste ano. O site oferece também formas de monetização por meio de “gorjetas” dadas pelos fãs e patrocínios de marcas. 

Ele afirma também que estar entre as grandes gravadoras ainda é um sonho de todo artista. Eles querem tocar suas músicas no rádio, na TV e ter seu CD e DVD nas prateleiras de grandes lojas. Com esse desejo, uma espécie de comodismo – dos artistas e gravadoras – foi gerado, deixando o mercado paralisado. “O hábito de consumo das pessoas mudou e continuará mudando. A internet e o surgimento de inúmeras ferramentas possibilitam que o artista gerencie suas músicas, shows, gravações e produções. Talento é importante, mas a disciplina, responsabilidade e sabedoria para gerenciar seu conteúdo são fundamentais”, diz. 

Além de transmissões on-line, outra forma de viabilizar projetos que muitos músicos estão aderindo é o crowdfunding. Pela internet, as pessoas investem uma quantia de dinheiro em alguma iniciativa, como shows e produção de CDs, por exemplo. Isso possibilita a vinda de artistas internacionais e o lançamento de novos trabalhos e shows de artistas nacionais. Para o fã, principalmente, é ótimo, pois seu artista predileto, na maioria das vezes,  vem por um preço menor do que o valor de um ingresso. 

Com todas essas alternativas, é desnecessário dizer que o mercado digital está em pleno crescimento e ainda há muito para acontecer. “Antes, para o artista ser reconhecido, ele dependia da gravadora, da divulgação do canal e de outros fatores. Agora, disponibiliza o vídeo na internet e automaticamente tem a chance de se tornar famoso. Ele sai da dependência dos outros para trabalhar pessoalmente a própria estratégia”, finaliza Fátima

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