Negócios

De pai para filho: a sucessão na Cyrela

Leticia Moreira

Leticia Moreira

Desde março de 2014, 52 anos após fundar a Cyrela, Elie Horn, hoje com 71 anos, resolveu migrar da presidência executiva da incorporadora e construtora para a presidência do conselho de administração, deixando seus filhos Efraim e Raphael no comando do negócio que, em 2014, gerou R$ 5,6 bilhões em vendas contratadas (20,8% a menos que no período anterior). Como já era de se imaginar, dado seu apego ao trabalho, a companhia não passou por mudanças profundas e seu mentor também não se afastou. Pelo contrário. Ele continua muito ativo nas diretrizes da empresa e na filosofia do negócio. O que ocorreu foi mais uma transição formal que prática. “Ele não só vem todo dia à empresa como chega uma hora mais cedo que todo mundo e vai embora uma hora mais tarde”, conta Efraim Horn, copresidente da Cyrela. Assim como seu discretíssimo pai, o jovem de 34 anos também não gosta de aparecer. O maior exemplo disso é a foto ao lado, em que, a seu pedido, aparece sem mostrar seu rosto.

Avesso aos cliques, ele acatou nossa sugestão de posar sem aparecer. Na imagem, dois detalhes revelam muito sobre a família e o atual momento da companhia. O primeiro é o quipá (solidéu, em português), que sinaliza para a religiosidade dos Horn. Pouco antes da entrevista, foi solicitado que mudássemos da grande sala de reuniões para uma menor, a fim de preparar o espaço para a reza diária das 17h30. Geralmente, os judeus religiosos oram três vezes ao dia (de manhã, de tarde e à noite). Para os Horn, não basta pedir e agradecer. É preciso também fazer por receber. Um ensinamento de filosofia judaica, que pai e filhos estudaram.

Hábito, aliás, que Elie cultiva até hoje. Todas as manhãs, antes de sair para o trabalho, ele realiza sua atividade física e estuda (por meio de aulas e/ou leituras). “Ela ajuda a colocar o lado humano e social antes de qualquer outro valor na vida. Ela também ensina a não ter ego, a não buscar o troféu e a não desejar ser o número 1. Ser o líder não é uma meta, mas sim fazer o máximo possível de empreendimentos e boas ações”, ensina Efraim, há 13 anos trabalhando na Cyrela.

Desrespeitar a ética e os valores também jogam contra a filosofia judaica. “Tudo isso forma a nossa base e a da Cyrela, que, antes de ser uma empresa de construção, é uma empresa de valores”, conta o jovem de fala doce, baixa e desapressada. E por falar em Cyrela, o segundo detalhe da foto é o quadro que Efraim está segurando. Ele reflete não só a imagem do projeto residencial Cyrela by Pininfarina, mas o foco crescente da companhia em empreendimentos de luxo. Talvez o balanço de 2014 explique essa decisão. O VGV (Valor Geral de Vendas) da Cyrela caiu de R$ 6,6 bilhões para R$ 5,8 bilhões de 2013 para 2014, mas a representatividade do alto padrão se manteve estável, migrando de R$ 3,95 bilhões no ano retrasado para R$ 3,96 bilhões no passado. Já a Living, braço da construtora voltado à classe média, e o Minha Casa Minha Vida sofreram uma queda de R$ 2,69 bilhões para R$ 1,88 bilhão.

O que a Cyrela quer, além de continuar atendendo o alto padrão, é avançar como referência no luxo vertical residencial e mudar a paisagem com arranha-céus diferentes. Efraim deixa claro que não há crise para o luxo. Isso levou os Horn a selar uma parceria com a Pininfarina, o estúdio de design italiano responsável pelos desenhos arrojados de bólidos como Ferrari e Maserati: “Nosso briefing para eles foi: todo prédio tem engenharia. Como poderíamos esculpir um prédio que não parecesse ter engenharia nem tijolo e cimento? Uma obra esculpida durante anos pelo movimento do vento, fluída de todos os lados, sem uma frente e que também não fosse redonda?” Vale lembrar que essa não é a primeira vez que a Pininfarina se envolve no projeto de um prédio. Em Cingapura, por exemplo, há um residencial de luxo chamado Ferra com traços que muito remetem às curvas imortalizadas pela escuderia da Maranello.

Depois de muitas idas e vindas, o primeiro projeto da Cyrela com a Pininfarina saiu. Com a proposta de trazer “novas sensações arquitetônicas” para a cidade, o empreendimento foi apresentado a um grupo de amigos em setembro, durante um coquetel que contou com uma exposição repleta de objetos criados pela oficina de design e com a presença de Paolo Pininfarina. “Naquela noite, assinamos a venda de 20 unidades. Das 40 pessoas que foram, 50% compraram.”

Até o momento, dos 92 apartamentos do empreendimento, 65 já foram vendidos. O tamanho do imóvel que será erguido na Rua Fiandeiras, na Vila Olímpia (em São Paulo), gira em torno de 46 a 50 m2, com duas vagas na garagem, metro quadrado entre R$ 26,5 mil e R$ 31 mil e custo do apartamento em torno de R$ 1,2 milhão. O objetivo é atender o público que mora ou tem negócios na Avenida Faria Lima. A previsão de entrega é setembro de 2017.

Após esse projeto, a Cyrela fechou duas outras parcerias com a Pininfarina. Uma para um projeto comercial de cinco andares na Avenida Henrique Schaumann, no Jardim Paulista (em São Paulo). O lançamento será em 2016 e a entrega em 2019. O outro empreendimento, com lançamento no segundo semestre deste ano, será um residencial de 570 metros quadrados na Rua Leopoldo Couto Magalhães, no bairro paulistano do Itaim. Com o metro quadrado em torno de R$ 25 mil, os apartamentos deverão ser negociados por volta de R$ 15 milhões.

Há 20 anos, Elie Horn provavelmente não olharia com tamanha atenção para a região da Faria Lima e seu entorno. Afinal, quem sonharia em comprar um imóvel de luxo nesse bairro quando tanto se sonhava em morar nos Jardins, na Vila Nova Conceição e em Higienópolis? Mas, como diz seu filho, as cidades são grandes células vivas que tomam rumos não identificados e surpreendentes. “A Nova Faria Lima concentrou um número grande de empreendimentos corporativos. E luxo hoje é morar perto do trabalho. Moema, Itaim e Vila Nova Conceição foram se desenvolvendo por conta de proximidade com o Parque do Ibirapuera e, mais recentemente, com o Parque do Povo. São vizinhos nobres que transformaram a Vila Olímpia, por exemplo. Não por acaso, o Shopping JK Iguatemi abriu nesse novo eixo.”

Hoje, ele considera luxo um conceito relativo. Para uns, andar de Rolls-Royce é um luxo. Para outros, é sair pelas ruas de Mini Cooper. “Inovação a Cyrela sempre teve. O que mudou foram as referências. Meu pai, por exemplo, se espelhava nos grandes hotéis de Paris e Viena e nos clássicos de Nova York. Em frente ao Pininfarina, também estamos lançando um outro empreendimento no segundo semestre feito em parceria com o escritório de design Yoo, criado por John Hitchcox e Philippe Starck — e especializado em projetar casas e hotéis. É uma empresa que não existia há 20 anos e que nos ajudou a desenvolver apartamentos com pé-direito duplo, de 6,2 metros de altura, e áreas úteis com piscina olímpica e semiolímpica coberta”, observa.

Os nomes usados para os imóveis também mudaram. Antes eles chamavam-se Ritz, Plaza Athenée, entre outros ícones internacionais. Agora, os preferidos são termos locais, ligados a nossa história, como nomes de ruas ou árvores, ou, então, nomes fantasia. Não são só nesses pontos que o mercado imobiliário está mudando. Horn lembra que, pela primeira vez na história, o metro quadrado dos imóveis residenciais de São Paulo se equipararam ao preço do metro quadrado dos comerciais. “Em todos os países desenvolvidos do mundo, o metro quadrado do luxo residencial vale dez vezes mais que o luxo comercial. Em alguns locais como Nova York, Tóquio e Mônaco, o metro quadrado pode chegar a US$ 100 mil. E isso faz sentido porque a pessoa física não precisa prestar contas aos acionistas nem dar lucro, diferentemente das empresas. O Brasil é o único lugar do mundo onde é o contrário, mas agora empatou em São Paulo.”

Em 2015, a Cyrela deverá entregar dez projetos de classe média alta e lançar oito de luxo — sendo dois top, dada a exclusividade dos projetos. Quando questionado sobre o impacto da crise em seus negócios, ele responde que São Paulo é maior que alguns países e que cada bairro é um mercado. “Moema não tem nada a ver com a Zona Leste, que tem vários mercados. Dentro de cada bairro há vários segmentos. Há mais de 300 mercados diferentes na construção.” E no quesito luxo? “Em alto luxo, São Paulo não consegue repor produtos em relação à demanda. Terreno de alto padrão não existe mais. É uma luta conseguir um em bairros como Higienópolis e Jardins. Leva-se oito anos para formar um terreno comprando 20 casinhas. Até durante a crise americana o mercado de luxo de Nova York não caiu.”

Ele explica que a Cyrela vai financeiramente bem, com o menor patamar de dívida dos últimos seis anos. “É uma empresa sólida, conservadora no caixa. Daquelas que se preparam para a crise, mesmo se ela não vier.” A geração de caixa da Cyrela em 2014 foi recorde:
R$ 867 milhões ante os R$ 201 milhões registrados no ano anterior.

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