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Ex-executivo do BTG na Ásia conta como negligência na China está ligada a escândalo no Brasil

Zeljko Ivic, ex-executivo do BTG Pactual (Reprodução/FORBES)

Zeljko Ivic, ex-executivo do BTG Pactual (Reprodução/FORBES)

Como o escândalo bancário do Brasil foi influenciado pela China? As relações ainda não foram completamente compreendidas.

De acordo com o ex-executivo do banco de investimentos BTG Pactual Zeljko Ivic, o fundo soberano da China teve um papel chave na preparação da listagem pública do banco em 2012 que levou a ricas recompensas para os sócios. O BTG está hoje no centro de uma série de investigações que estão agitando círculos da elite brasileira.

Apesar de um mercado de IPO (Initial Public Offering, Oferta pública inicial em tradução livre) moribundo na época, o bilionário fundador do BTG conseguiu dar um salto de cinco vezes no valor do banco para US$ 14,5 bilhões em meros três anos. O banco se tornou um símbolo do crescente poderio econômico do Brasil, pronto para competir com gigantes globais como o Goldman Sachs.

Ao menos esta era a percepção de quem olhava de fora, e é por isso que a prisão de André Esteves por obstrução de justiça em novembro foi um choque para tantos – mas certamente não para todos.

“A arrogância era de um jeito que eu nunca havia visto na minha vida, o que alimentou egos e testou todo mundo. É isso o que os colocou [o BTG] em problemas”, disse Zeljko Ivic.

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De Hong Kong, Ivic trabalhou para o BTG como diretor de operações da Ásia de 2010 a 2014. Recrutado com a visão de ligar o apetite chinês por commodities aos aparentemente ilimitados recursos brasileiros, ele teve papel chave em assegurar os investimentos do BTG do Chine Investment Corp. (CIC), um dos maiores fundos soberanos do mundo.

De lá para cá, no entanto, aos 48 anos ele se encontra entre as vítimas do BTG. Ele tem processos em Hong Kong, um com data de 2013, contra seu ex-empregador, alegando que não foi propriamente demitido ou pago. A entidade brasileira foi assombrada pelo inquérito penal/investigação sobre corrupção que envolveu Esteves e muitos outros oficiais públicos – sua capitalização de mercado caiu 50%. Enquanto seu próprio caso corre através do sistema legal, Ivic conversou com a FORBES ASIA sobre as amarras do BTG na China.

Em 2010, Esteves e seus sócios estavam tentando vender 18% do BTG através de uma colocação privada a um dos maiores e mais respeitados investidores do mundo – um grupo de fundos soberanos, fundos de pensão e investidores privados. Dois eram para ser da Ásia, o CIC e o GIC de Cingapura.

“Você sabe como a China funciona. Você não entra pela porta da frente com uma apresentação encadernada, com suas credenciais, dizendo ‘Olhe para nós!’ Você não irá chegar a lugar algum”, disse Ivic.

Como um veterano dos bancos da Ásia, Ivic foi recrutado por John Huw Gwili Jenkins, vice-presidente do BTG na época, para entrar no que era descrito como “Goldman dos trópicos”.

Original da Croácia, Ivic cresceu na Alemanha antes de ir estudar nos Estados Unidos e conseguir um emprego em Wall Street. Ele foi para a Ásia quando trabalhava para o Lehman Bros., em 1996. Através de passagens anteriores por Jardine Fleming, ABN AMRO e BMP Paribas ele construiu uma extensa rede de contatos na região que o permitiu atingir os tomadores de decisões, incluindo os do CIC.

Liderado por Lou Jiwei, hoje ministro de finanças da China, o CIC se comprometeu a investir US$ 300 milhões por uma participação de 3,1% no BTG. A tão divulgada colocação privada, anunciada em dezembro de 2010, incluiria não apenas o fundo de Cingapura, mas também a empresa de investimentos J.C. Flowers; o Ontario Teachers’ Pension Plan; o Lord Rothschild’s family interests; a EXOR; e a Inversiones Bahia.

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A colocação privada do BTG foi a base para seu IPO. Depois do investimento do CIC, a Citic Securities entrou para a lista com uma participação que valia US$ 150 milhões. A corretora, controlada pelo conglomerado estatal Citic Group, queria uma sociedade com o Goldman tropical para uma futura expansão para fora do mercado chinês.

Ainda que Esteves, Jenkins e outros executivos da BTG ainda falassem sobre suas ambições globais após o IPO, há pouco para mostrar sobre isso.

Ivic diz que ele viu o BTG ter um dever de construir seu próprio relacionamento com o CIC, tendo aproveitado o nome do fundo de segurança no Brasil. Porém, a atividade mútua veio para nada. O fundo de segurança chinês ainda investiu, mas não quer falar sobre isso.

O BTG reivindicou em seu prospecto de IPO que estava trabalhando com o Citic “para juntamente desenvolver um número de iniciativas de negócios, incluindo a coorientação de clientes buscando executar transações envolvendo empresas da China e da América Latina.” Porém, a realidade é decepcionante.

Nos quatro anos desde o IPO do BTG, o banco agiu como assessor em apenas dois acordos de fusão e aquisição para apenas uma empresa chinesa, de acordo com o Dealogic. A empresa de dados afirmou que a China Three Gorges Corp. foi assessorada pelo BTG quando adquiriu ações da Energias de Portugal AS, em 2014, e da Triunfo Pariticipacóes e Investimentos SA, em 2015.

De sua parte, o Citic foi o bookrunner junto ao Standard Chartered para os chamados “títulos dim sum” do BTG em 2013, quando levantou 1 bilhão de yuans (US$ 160 milhões). O Citic não responde se isso tudo foi uma decepção.

“Desde minha partida, as promessas originais do BTG de projetar acordos marcantes e transformadores entre a China e o Brasil no campo dos recursos, de saciar a sede de China por tudo, de minérios a grãos, têm ficado muito aquém das expectativas”, afirmou Ivic. E ele diz que estas perspectivas secaram muito antes de o mercado de commodities se desvalorizar.

Além disso, ele relata como o China Construction Bank (CCB), um dos quatro maiores do país e um terreno fértil para oficiais sênior do governo, estava trabalhando com o BTG para adquirir as ações brasileiras do banco alemão WestLB, mas o acordo não deu certo. Em vez disso, o banco foi assessorado pelo Morgan Stanley em sua aquisição do brasileiro Banco Industrial e Comercial por mais de US$ 700 milhões.

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O último relatório anual do BTG não expõe a receita da Ásia ou da China, mas indica prioridades estratégicas em níveis de pessoal. O banco diz que emprega 1.737 pessoas no Brasil, 297 nos Estados Unidos, 268 no Reino Unido, mas apenas 32 na China e 13 em Hong Kong. Seu negócio em Xangai é focado em commodities.

Se o distanciamento do BTG de seus investidores chineses foi insatisfatório, eles deveriam ter sido cuidadosos com a filiação da empresa. O BTG de hoje nasceu das cinzas do UBS Pactual, o braço latino-americano do megabanco suíço UBS, quando a crise financeira começou a se desdobrar. O UBS havia comprado o Pactual em 2006, quando colocou um dos maiores acionistas do último, Esteves, no comando. Ele e outros sócios sairiam em julho de 2008 para formar o BTG, que em um ano adquiriu o UBS Pactual.

O chefe de Ivic, Jenkins, entrou no BTG após um intervalo em seu breve mandato como CEO do banco de investimentos UBS. O banco suíço foi o mais atingido pela crise na Europa, com reduções de quase US$ 50 bilhões em 2009. A unidade que Jenkins supervisionou tomou a decisão desastrosa de construir detenções de obrigações de dívidas garantidas em 2007 que seriam culpadas pela maioria das perdas do UBS em um relatório preparado pelo banco mais tarde. Quando a escala das perdas do UBS se tornou aparente, Jenkins estava entre os primeiros a saírem de lá. Porém, novas oportunidades o aguardavam com seu ex-colega Esteves. Após trabalhar para o BTG como consultor por um ano, Jenkins se tornou sócio em março. Logo em seguida, ele estava recrutando Ivic para o BTG.

Tendo assegurado o investimento do CIC, Ivic diz que o disseram que ele seria recompensado com parte do valor que ele criou – 2% dos fundos levantados é uma média no setor. Mas ele diz que, em vez disso, ganhou seu pagamento base até ser informado em 2013 que o emprego já não existia. Ele saiu em 31 de agosto.

“Eu nunca esperei que eles iriam me demitir. Depois de tudo o que eu fiz, era inconcebível”, disse. Desde então, ele manteve-se em contato com relacionamentos do setor financeiro.

Questionado se o BTG falhou em viver de acordo com seus investimentos na China, um porta-voz do banco se recusou a comentar. Em relação ao processo de Ivic contra ele, o banco disse: “Ele é um ex-funcionário desapontado. A alegação não tem mérito, e o BTG Pactual irá se defender vigorosamente.”

O BTG buscou bloquear Ivic de comunicação futura com repórteres, o que tornou alguns detalhes do caso difíceis de serem esclarecidos. Através de seus advogados, Esteves negou todas as transgressões, mas não comentou sobre a China e os processos de Ivic. Ele busca cerca de US$ 20 milhões, de acordo com seu advogado, como compensação pelo valor dos pagamentos e da parceria que ele diz que foram prometidos.

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