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Como um homem fez de uma empresa familiar um negócio de US$ 700 mi

(Reprodução/Forbes)

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São 4h30 de uma manhã fria de julho em Antananarivo, capital de Madagascar. Ylias Akbaraly está sentado em um sofá confortável na sala de estar de seu escritório, organizando uma reunião com seu grupo de executivos sênior que haviam acabado de chegar da África Ocidental. “Bem-vindo, meu irmão nigeriano”, diz Akbaraly com um sotaque forte francês, enquanto levanta de sua cadeira e libera seu staff.

Casualmente vestido com um suéter de gola rolê, calça jeans e tênis cinza-escuro, Akbaraly se parece mais com o CEO de uma startup do Vale do Silício do que com o líder de um dos mais famosos conglomerados industriais da África.

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Erudito e confiante, Akbaraly tem um sorriso permanente em um rosto que aparenta ter menos do que os seus 52 anos. Ele menciona que conheceu há algumas semanas o investidor nigeriano Tony Elumelu, em Paris. Ambos eram os principais palestrantes durante uma cúpula de inovação organizada pelo banco francês BPIFrance. “Ele pegou um banco pequeno na Nigéria e o fez muito famoso e presente por toda a África. Um homem visionário”, afirma Akbaraly sobre Elumelu.

Porém, Akbaraly, um dos titãs da indústria mais bem-sucedidos da África Francófona, conquistou tanto quanto seu conhecido. Ele é o presidente do grupo Sipromad, a maior empresa privada de Madagascar, e é o responsável por transformar uma companhia, fundada pelo seu pai, em um conglomerado de multinacionais que gera aproximadamente US$ 350 milhões de lucro ao ano. O grupo, agora, tem interesse em várias áreas: agronegócio, aviação privada, segurança para hotéis, televisão paga, utilidades e bens de consumo.


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Em 1918, o avô paterno de Akbaraly, Merally Manjee, decidiu deixar Gujarat, na Índia, para buscar fortuna na África porque as oportunidades eram bem limitadas onde ele morava. Manjee aterrisou em Belo Tsiribihina, uma pequena cidade costeira no sudeste de Madagascar, onde começou a fazer o escambo de pequenos commodities como sal e açúcar. Porém, enquanto o mercado da troca dava lucros decentes, Sermamod Akbaraly, pai de Ylia, estava mais que convencido que havia oportunidades maiores em Antananarivo. Então, em 1972, Sermamod decidiu criar um negócio na capital.

(Reprodução/Forbes)

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O pai de Yila, usando o dinheiro de suas economias, começou a produzir sabão, velas e graxa para sapatos com as próprias mãos e vendê-los para produtores pequenos e informais da cidade. Nascia assim a Sipromad. “Sabia que era fascinado por negócios logo cedo. A ideia de adicionar valor para materiais puros a fim de criar um produto de valor e vendê-lo para pessoas para conseguir lucro era extremamente fascinante para mim. Eu sabia que era exatamente o que queria fazer”, diz Akbaraly.

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Yila estudou durante a adolescência em Paris e voltou para a capital francesa, em 1981, para estudar administração no Institut Supérieur de Gestion (ISG) e concluiu seu mestrado em marketing de produtos na Universidade de Berkeley, na Califórnia.

Durante sua pós-graduação, Akbaraly foi estagiário na Reunion Island, uma ilha no Oceano Índico, a leste de Madagascar. Por alguns meses, trabalhou na Bourbon Industrial Society, uma distribuidora que representava a Palmolive e a Colgate no país.

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“Quando me recordo dessa época, percebo que o estágio foi uma época importante para mim. Ao trabalhar com eles, aprendi uma das principais regras do mundo dos negócios – o cliente é sempre um rei. O Serviço de Atendimento ao Cliente (SAC) sempre foi o forte deles. Eles sempre prestaram muita atenção às necessidades de seus clientes – os sub-distribuidores, vendedores de atacado e varejo. Se os vendedores reclamassem de algo, os funcionários da Bourbon analisariam a situação o mais rápido possível. Nos negócios, você sempre deve ouvir as reclamações de seus clientes e respondê-las no tempo correto”, diz.

Depois de sua pós-graduação, ele retornou à França e trabalhou por um curto período de tempo na indústria do varejo antes de voltar a morar nos EUA.

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Até que um dia ele recebeu uma ligação do seu pai. “Ele me perguntou quais eram meus planos a médio e longo prazo. Ele disse que eu estava muito confortável nos EUA enquanto havia um negócio para ser administrado em Madagascar”. A ilha era politicamente e economicamente estável, ele disse, e não havia razão para ficar onde estava quando havia uma oportunidade de exercer o papel principal no destino econômico de lá.

Então, em 1989, Akbaraly fez suas malas e voltou para Antananarivo. “Quando voltei, em 1989, era um negócio bem modesto. Tínhamos apenas poucos empregados, que lucravam pouco mais de US$ 20,000 em um ano. Primeiro, entrei no grupo como um gerente de vendas, depois como um diretor comercial. Meu pai me disse que, eventualmente, ele transferiria seu negócio para mim. Ele disse que, após conseguir todos aqueles diplomas chiques nos EUA, era hora de usá-los na ilha”, lembra.

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Os negócios da Sipromad na época estavam centrados na manufatura e distribuição de graxa para calçados, sabão, velas e produtos de limpeza. Porém, havia outras companhias operando no mesmo setor e que faziam bem mais sucesso que a Sipromad. “Eu me lembro da principal lição que aprendi na Reunion Island: os negócios devem se centrar nas necessidades dos clientes. Por isso, me empenhei em descobrir o que os clientes queriam que melhorássemos.”

Akbaraly foi a campo e visitou outlets onde os competidores da Sipromad tinham um mercado maior. Ele conversou com os vendedores de varejo e os clientes para ter ideias de quais melhorias poderia fazer para aprimorar os produtos e as vendas da Sipromad. “Vários de nossos clientes relamaram do nosso preço. Na época, a maioria da graxa disponível no mercado – incluindo a nossa, vinha em latas de 3000, 2000 e 1000 cm³. Decidi que poderíamos produzir embalagens muito menores e vendê-las a um preço muito menor.”

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A marca de graxa para sapatos da Sipromad se tornou líder de mercado da noite pro dia com essa decisão. “Foi uma jogada de mestre para nós. Nossa margem diminuiu, mas nossas vendas cresceram muito. Nós conseguimos uma parte significativa do mercado de ações.”

Nesse mesmo período, Sokataly Karmaly, um empresário de Madagascar, que era dono de uma grande fábrica de velas em Antsirabé, cidade a 180 km ao sul da capital, perdeu seu filho e queria vender sua fábrica. “Conversei com bancos e eles me permitiram pegar um empréstimo para poder comprar a fábrica. Então, nós nos tornamos a maior fábrica de velas do país. Considerando que Madagascar tem, tradicionalmente, seus déficits de energia elétrica, nosso negócio de velas prosperou e nós canalizamos nossos lucros para outros lugares.”

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Akbaraly começou a expandir agressivamente e, então, passou a importar materiais como cimento para o país. Logo, criou uma construtora que garantiu o contrato para construção do aeroporto de Mahajanga, na costa oeste da ilha. “Conseguimos uma boa quantia de dinheiro com esse contrato, e também consegui ter a lucidez para adquirir terra e propriedades residenciais baratas, tanto fora quanto dentro de Antananarivo. Então, começamos a comprar terras e construir propriedades residenciais nelas para trabalhadores de classe média e baixa e revendê-las rapidamente.”

Atualmente, a Sipromad tem, no total, um portfólio de mais de 200 propriedades comerciais e residenciais em Madagascar. Seu portfólio custa pouco mais de US$ 300 milhões e inclui a icônica Torre Laranja no centro de Antananarivo.

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Dos ganhos dos investimentos da Sipromad e dos negócios de manufatura, Akbarly diversificou seu império em várias indústrias. Hoje, além da principal empresa do grupo, a Sipromad Trade and Distribution, que manufatura detergentes, sabão, alvejante, graxa para sapato, Akbarly estende seus tentáculos sobre a indústria do tabaco. Sua empresa, além de ser dona de uma das maiores fazendas de tabaco do Oceano Índico, produz os cigarros Focus, os mais consumidos do país. Sipromad também é ativa no mercado da hidroelétrica e uma de suas companhias construiu duas estações de energia termal nas cidades de Toliara (no Sul) e Ambanja (no Norte).

Fora de Madagascar, a Sipromad é dona da Broadcasting Media Solutions Indian Ocean (BMS-IO), uma provedora de TI e telecomunicação nas Ilhas Maurício e Seichelles.

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Akbaraly credita muito do seu sucesso à sua administração cabeça-aberta. “Na Sipromad, não há burocracia quando se trata de tomar decisões. Meu escritório está aberto a sugestões que possam ser discutidas rapidamente”, diz o empresário.

A Forbes Afrique, publicação licenciada de FORBES que foca nos líderes da África Francófona, estimou o valor de Akbaraly em US$ 710 milhões no ano passado.

Porém, o empresário mais famoso de Madaascar não se importa apenas em conseguir dinheiro. Ele também se importa com caridade. Em 2008, ele e sua esposa italiana, Cinzia, fundaram a associação Akbalary depois que Cinzia teve uma experiência pessoal com o câncer.

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Hoje, a fundação Akbaralt, fundada por Ylias e sua esposa – com o apoio de fundações internacionais -, vem desenvolvendo programas para educar mulheres africanas sobre a consciência, a prevenção, o diagnóstico e o tratamento do câncer. A fundação também doa fundos para a pesquisa sobre a doença, treina o staff de médicos e paramédicos e cria centros regionais de saúde. O programa custa milhões de dólares por ano.

Em reconhecimento pelas suas notáveis realizações no ramo dos negócios e da filantropia, o presidente de Madagascar o homenageou com a honra nacional da Ordem Nacional de Madagascar e de Elevado Comandante da Ordem nacional de Madagascar. Ele também recebeu o prêmio Bharatiya Samman Divas em 2009, o maior reconhecimento do governo indiano para um não-residente do país.

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Embora ele tenha construído o conglomerado mais bem-sucedido de Madagascar, Akbaraly está motivado para fazer um sucesso ainda maior. Ele planeja lançar novos negócios na mídia na África Ocidental dentro dos próximos 12 meses, e está trabalhando para expandir seu negócio de manufaturas em mais 5 países na África Subsaariana nos próximos 4 anos.

“Sinto como se nossa real jornada apenas tivesse começado. Nos próximos 4 anos, devemos lucrar por volta de US$ 1 bilhão”, conclui.

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