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Como Jorge Paulo Lemann está investindo na educação para mudar o Brasil

Jorge Paulo Lemann, o maior bilionário do Brasil (Divulgação/Fundação Estudar)

Jorge Paulo Lemann, o maior bilionário do Brasil (Divulgação/Fundação Estudar)

os últimos cinco anos, Jorge Paulo Lemann tornou-se o maior bilionário do Brasil, transformou seu conglomerado nacional de cervejas no maior do planeta, reergueu uma das maiores redes de fast food do mundo, e juntou-se a Warren Buffett para criar o quinto maior grupo de bebidas e alimentos do globo. Se esses parecem motivos suficientes para o carioca ser o único brasileiro entre as 31 pessoas que mais mudam o mundo hoje segundo FORBES, a fundação que leva seu nome é, ainda, responsável pela melhora da educação de 89 mil alunos da rede pública no país.

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Aos 76 anos, a menina dos olhos de Lemann não é sua fortuna, seu império cervejeiro ou as diversas empresas em que tem alta participação, mas a fundação a que deu o nome de sua família, criada em 2002. Em meio a movimentada agenda, o bilionário, que mora na Suíça, reúne-se uma vez por semana com Denis Mizne, diretor-executivo da Fundação Lemann, para discutir estratégias e resultados da iniciativa que tem como valor inicial a ambiciosa máxima: “Queremos mudar o mundo, mesmo”.

“O que a gente quer é conseguir fazer com que os 45 milhões de alunos de escolas públicas tenham uma educação de excelência”, afirma Mizne, fundador da ONG Sou da Paz e à frente da organização de Lemann desde 2011.

Os resultados têm sido expressivos desde então. As tecnologias educacionais desenvolvidas e apoiadas pela fundação tiveram mais de 11 milhões de usuários únicos só em 2015, um crescimento de quase quatro vezes em relação ao ano anterior. Lemann acompanha tudo de perto. “Ao contrário da maioria das organizações sem fins lucrativos, ela é gerida nos mesmos moldes das empresas, com meritocracia, esforço enorme para atrair as melhores pessoas, aposta alta no desenvolvimento do time e metas agressivas e difíceis de alcançar”, conta Mizne. “Toda filosofia do Jorge Paulo está muito presente no nosso trabalho.”

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O bilionário passou o último fim de semana de junho no interior de Minas Gerais no encontro anual com seus pupilos, chamados Lemann Fellows. Como parte de uma das quatro diretrizes de sua fundação, Lemann concede bolsas parciais de mestrado e doutorado a uma seleta rede de estudantes “com visão” em algumas das melhores universidades do mundo, como Harvard e Stanford. Um dos requisitos para entrar no grupo? Ter uma pesquisa relacionada a algum grave problema social brasileiro. Atualmente, a rede está na casa dos 310 membros.

“Até pouco tempo antes de existir a Fundação Lemann, eu acreditava que, cumprindo bem minha vocação de empresário, estaria devolvendo ao país as oportunidades que ele me proporcionou. Mas cheguei à conclusão de que poderia tentar fazer algo além da esfera empresarial. A Fundação Lemann é o veículo que está tentando fazer mais, devolver mais para a sociedade. E, ainda que sua atuação seja uma gota no mar de todas as necessidades existentes, espero que seja uma gota efetiva. Para isso, buscamos ir além das melhorias pontuais ou incrementais”, afirma o empresário.

Fora seu programa de Fellows, a fundação tem foco exclusivo na rede pública. “Uma educação pública de qualidade é a melhor maneira de ampliar o potencial de todos e, consequentemente, do Brasil”, afirmou Lemann em entrevista publicada no documento de divulgação de resultados de 2015 da organização. “Acredito que melhorar o nível educacional brasileiro é, portanto, essencial para diminuir as desigualdades sociais e ajudará o país a se tornar mais competitivo em médio e longos prazos.”

Jorge Paulo Lemann (no destaque) com os Lemann Fellows, no encontro de imersão e talentos deste ano (Divulgação)

Jorge Paulo Lemann (no destaque) com os Lemann Fellows, no encontro de imersão e talentos deste ano (Divulgação)

De acordo com o documento, o programa Inovação nas Escolas, que usa a tecnologia para melhorar o nível e estimular a aprendizagem dos alunos, especialmente em matemática, já chegou a 400 escolas públicas em 50 redes municipais, com a participação de 89 mil alunos.

Sem incentivo fiscal ou financeiro do governo, a fundação usa os recursos didáticos da conhecida Khan Academy, organização internacional que promove educação básica gratuita para mais de 10 milhões de alunos ao redor do mundo por meio de vídeos-aula e exercícios on line. A Fundação Lemann é a maior apoiadora global da iniciativa, ao lado da Bill & Melinda Gates Foundation, do cofundador da Microsoft com a esposa.

Formado em economia em Harvard, nos EUA, em 1961, Lemann começou a chamar atenção do meio corporativo no Brasil dez anos depois, quando, com três sócios, fundou a corretora Garantia, que, nos anos 90, viria a ser um dos maiores bancos de investimentos do país. Foi por meio dele que o investidor conheceu, nos anos 1970, seus dois principais companheiros de negócios: Marcel Herrmann Telles e Carlos Alberto Sicupira, com os quais formaria a 3G Capital, em 2004.

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No Garantia, Lemann também começaria a implementar seu hoje conhecido e copiado modelo de gestão, focado em inovação, manutenção dos melhores funcionários, meritocracia e resultados. “Ele criou o selo Lemann de qualidade”, avalia Adriano Gomes, professor-doutor de finanças na ESPM e sócio-fundador da consultoria Méthode. “Sem querer aparecer demais, ele entrega exatamente o que os investidores procuram: retorno financeiro.”

Um dos seus segredos sempre foi formar boas equipes. “A avaliação das pessoas é um item essencial e construtivo para a instituição”, dizia a carta de valores do Garantia, transcrita de Sonho Grande, livro da jornalista Cristiane Correa sobre a trajetória de sucesso do trio brasileiro. Parece familiar? Esta é uma das marcas da AmBev, cervejaria que, sob o comando de Lemann, tornou-se, fusão bilionária após fusão bilionária, a maior do mundo, sob o nome Anheuser-Busch InBev. “O modelo de gestão que ele adotou vai contra o que a gente está acostumado na cultura brasileira”, diz Gabriel Chueke, coordenador do Observatório das Multinacionais Brasileiras. “É um modelo muito americanizado. Ele o trouxe, provavelmente, da experiência que teve em Harvard.”

Lemann já falou sobre a importância que o período na universidade americana, concluído em três anos, teve para a sua vida. “Eu era um surfista, um tenista que nunca tinha saído do Rio de Janeiro e, de repente fui para aquele negócio lá, cheio de ideias grandes. Então, minha visão do mundo se transformou”, conta o bilionário em Sonho Grande. “Lá estava no meio das melhores pessoas do mundo. Tinha excelência por tudo quanto é lado… E isso teve uma grande influência em como eu passei a escolher gente, que foi uma das principais características da minha carreira.”

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Essas conquistas fizeram com que Lemann quase triplicasse seu patrimônio desde que se tornou o maior bilionário brasileiro, no lugar de Eike Batista, há pouco mais de três anos: de estimados 38,2 bilhões de reais, em agosto de 2013, para cerca de 105,2 bilhões de reais em julho de 2016.

Embora nos negócios seja sempre difícil prever o próximo passo de Lemann (destilados ou bebidas não-alcoólicas, quem sabe?), sua fundação tem quatro metas claras para os próximos dois anos. Até 2018, eles pretendem ter 30 milhões de alunos brasileiros com acesso a tecnologias de alta qualidade para auxiliar na aprendizagem; apoiar a gestão de 10 mil escolas públicas; ajudar o país a ter uma política curricular mais estruturada; e ter, pelo menos, 80 fellows em cargos de “alto impacto”, “que são os que realmente estão fazendo a diferença, como Eduardo Queiroz, à frente da Fundação Maria Cecília Souto Vidigal, principal organização de educação infantil do Brasil”, afirma Mizne.

Para Lemann, apenas esperar que todas as condições para uma educação — pública ou privada — de qualidade sejam ideais colocará em risco o futuro de algumas gerações de brasileiros. “É preciso agir, fazendo mais e melhor com aquilo que já se tem. Nosso projeto é de longo prazo e toda a minha família está comprometida com o trabalho da organização”, diz.

Se esses objetivos parecem ambiciosos demais, é importante lembrar que o homem por trás deles se tornou o maior investidor da história do Brasil depois de a primeira empresa em que teve participação falir e de ser um dos responsáveis pela fusão das rivais Brahma, que adquiriu em 1989, e Antarctica, e a posterior criação do império Anheuser-Busch InBev. Melhor não duvidar de Lemann.

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