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Como o maior escritório de arquitetura do país superou a época de crise

Ivo Wohnrath, do escritório de arquitetura corporativa Athié Wohnrath (Carol Carquejeiro)

Ivo Wohnrath, do escritório de arquitetura corporativa Athié Wohnrath (Carol Carquejeiro)

Sobre a mesa de Ivo Wohnrath passam 55% dos projetos de arquitetura corporativa do país, executados ou em execução. A sala, de vidros transparentes, permite que seus colaboradores e seu sócio, Sergio Athié, contemplem sua movimentação — exatamente como pede a chamada geração Y, nascida nos anos 1990, amplamente informatizada e que ainda discute a necessidade de um escritório, ou se é possível trabalhar remotamente, longe de grandes edifícios.

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Ivo, 53, porém, entende ser de outra geração, a dos chamados baby boomers, nascidos no pós-guerra e que suporvalorizam a hierarquia e a sala grande. Embora seja um dos donos da Athié Wohnrath, ele se opõe ao que pedem seus contemporâneos: sua sala é estreita e modesta, embora as janelas contemplem a Hípica Paulista, no Brooklin, em São Paulo.

“Você precisa combinar a variáveis demográficas no escritório”, diz. “Os estudos dos psicólogos que atuam nessa área mostram que nós temos a situação dos baby boomers, mas também a da geração X, que teve um desapego maior da hierarquia, mais preocupada em manter o salário e o emprego. Houve uma grande discussão se a geração Y precisava ter um escritório ou preferia trabalhar cada um remotamente. O espaço físico passou a ser um novo ponto de encontro e sustentação da cultura da empresa. Embora tenham a capacidade de trabalhar remotamente, as pessoas querem ir ao escritório para se retroalimentarem da cultura e dos valores dos processos da empresa.”

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As soluções que a empresa de Ivo apontam são para combinar esses estilos de gerações. A volta ao escritório está acontecendo, mas de maneira diferente da que ocorria anos atrás. As posições são cada vez menos fixas e passaram a ser compartilhadas com mais frequência, dependendo da atividade. “Consultores e vendedores chegam a compartilhar um mesmo posto para cinco profissionais”, diz. “Por outro lado, nossos engenheiros, que têm atividades internas e externas, têm de 20% a 30% das estações sempre vazias, e o compartilhamento economiza. Em compensação, cresceram muito os espaços colaborativos.”

Com base nessa escala, Ivo e Sergio oferecem e aprovam projetos, desde galpões médios, como os da Alston, em Taubaté (SP), até ambientes arejados como a sede do Google, em São Paulo. Na maior parte das vezes, são concepções que nascem dentro de prédios já construídos, e a arquitetura deve ser adaptada ao que já tem forma.

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“Temos um processo que é fantástico”, diz sorrindo. “Controla tudo, desde a hora em que começamos a conversar com o cliente. É completo, técnico e de bom padrão. E eu, ao fazer todas coisas, tenho que cumprir rigorosamente o prazo, e não posso atribuir o problema ao projeto.”

A solução inclui uma questão incômoda para os arquitetos: o cliente que não quer dizer o tamanho do orçamento para a empreitada. A empresa, então, desenvolveu um modelo que captura as informações do que é desejado — arquitetônica ou tecnicamente — na primeira ou na segunda semana de trabalho. “Eu digo para ele: ‘Para implantar isso, vai custar ‘x’, 15 milhões de reais. Eu posso seguir com o projeto dentro desse valor?’ No máximo, terá uma variação de mais cinco, menos cinco”, diz. Essa base, de trabalhar com a verdade na contratação, faz com que a Athié Wohhrath seja elogiada pelo cumprimento de prazos.

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Uma das inovações é apresentar os projetos com óculos de realidade virtual, em que um vídeo com o projeto é visualizado pelo cliente ainda na planta. A obra, portanto, não precisa estar pronta ou contar com a imaginação de quem contrata para que seja contemplada. “O cliente vai na própria laje, põe os óculos e passeia pelo escritório que vai ter. Se necessário, a gente já ajusta rapidamente, e disso sai um orçamento, sustentado até o fim, a menos que ele mude algo. Foi outro pilar de velocidade.”

Do móvel ao imóvel

Ivo Wohnrath é de Pirassununga, no interior de São Paulo. A família, diz, era muito simples. Mesmo sem recursos para investir, Ivo despertou para o empreendedorismo. Veio para a capital paulista aos 18 anos, cursar administração na Fundação Getúlio Vargas. Como o mercado mais promissor era o financeiro, foi trabalhar no banco Schahin Cury, à época o principal banco de investimento em São Paulo. Foi convidado para cuidar das vendas Brasil na Escriba, empresa de móveis de escritório com sede nos Jardins.

A ocupação o aproximou de Sergio Athié, arquiteto formado no Mackenzie que, na Escriba, cuidava das vendas São Paulo. “A indústria de móveis naquela época dava suporte para os arquitetos sobre como precificar e usar o móvel, e o Sergio fazia isso. Juntos, conseguíamos resultados fantásticos, não só pela venda, mas também pela solução que a gente apresentava ao cliente.” Os dois voltariam a se encontrar quando Ivo saiu da Escriba, e Sergio já havia montado um escritório de arquitetura.

Ambos chegaram à conclusão de que era preciso voltar a trabalhar juntos: Sergio com a arquitetura, e Ivo com as vendas. “Eram trabalhos separados, mas comecei a olhar o que ele [Sergio] fazia e chegamos à primeira reflexão: não vamos fazer de tudo e bom; vamos ser ótimos num segmento. Foi natural a escolha por interiores, porque já vendíamos móveis para escritórios.”

Centro de Pesquisas Global da GE, na Ilha do Fundão, Rio de Janeiro: um dos cases da Athié, segundo Wohnrath (Divulgação)

Centro de Pesquisas Global da GE, na Ilha do Fundão, Rio de Janeiro: um dos cases da Athié, segundo Wohnrath (Divulgação)

Num primeiro momento, a planta era entregue para o cliente com um layout da ocupação e um conjunto de soluções de acabamento, com um catálogo de produtos sugerindo a compra de móveis. Essas cotações eram administradas pelo cliente, mas o material da execução era normalmente decidido pelas construtoras. “Fomos ocupando o espaço das construtoras e ajudando o cliente a escolher o melhor serviço. Por curiosidade, acompanhávamos o que acontecia nas nossas obras, e percebíamos que as construtoras alteravam um pouco o projeto. Para maximizar o ganho, elas faziam a infraestrutura de uma maneira mais simples. Peguei os itens mais críticos e isolei. Esse caminho não parou mais. Hoje, numa implantação de interiores, tem aproximadamente 150 grupos de itens diferentes, e isso é totalmente processado com a construtora. Foi com esse processo inicial de controlar a qualidade da obra que nós assumimos a integração de todos os empreiteiros da obra.” Wohnrath diz ter acrescentado ao talento do arquiteto Athié a parte racional de metodologia, mecanismos de controle de orçamento, prazo e entregas.

Com o sucesso no desenho de interiores, o negócio expandiu. Para fora. “Um dia, o [incorporador] Walter Torre, que à época estava voltado para galpões, ligou e disse que havia fechado o maior centro de logística da América Latina, com operação financeira formatada, engenharia também, e o terreno reservado. ‘Só tem um problema’, ele disse. ‘O cliente falou que só vai fazer o processo comigo se vocês forem o escritório de arquitetura’.”

Os galpões, portanto, foram o próximo passo da empresa. A obra em questão era um centro para a Volkswagen em Valinhos (SP). No segmento de óleo e gás, a cada dez grandes parceiros da Petrobras, oito são clientes do escritório. “A gente levou essa nossa área de projeto técnico para bem próximo deles, em Macaé e na Ilha do Fundão (RJ). Tinha uma área para fazer a calibragem das brocas que iam até o pré-sal; outra com tanques de concreto com uma pressão gigantesca para testar a pressurização. Voltamos muito nossos esforços para essa área. Temos 50% dos prédios dessa região.”

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A Athié Wohnrath tem uma parceria internacional com a Arquitectonica, um escritório de Miami que projeta edificações, outro passo dado pela empresa de Ivo. “Temos projetos com praticamente todo mundo. Fizemos a combinação ideal, com o traço internacional e conceitos novos. São projetos na China, no Oriente Médio. Ficou a receita perfeita. Existem um ou dois escritórios maiores do que o nosso, mas muito rapidamente seremos o maior também na área de edificações, voltado para prédios corporativos, residenciais, shoppings e hotelaria.”

Esses projetos perfazem um bilhão de reais em valores processados em 2015. A perspectiva? Crescer mais. “O momento é de provocar”, diz. “Quando você fala de uma fábrica, um galpão ou um prédio, a decisão tem que levar a algum retorno. A fábrica é porque precisa expandir; um galpão de logística, porque é especulativo e vai precisar alugar ou uma empresa está precisando. Posso gerar valor no sentido de achar soluções mais econômicas e eficazes para implantar esse projeto. Aí, entre escolher um concorrente sem know-how e a gente que faz arquitetura, engenharia e a visão da construção, eu consigo dar hipóteses mais rápidas de como fazer melhor.” Crise? Para Ivo Wohnrath, essa é uma época de oportunidades.

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