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Como a ex-ministra Cláudia Costin quer transformar a educação no Brasil

Cláudia Costin (Carol Carquejeiro)

Cláudia Costin deixou seu cargo no Banco Mundial para investir em um think tank de educação no Brasil (Carol Carquejeiro)

Cláudia Costin está de volta ao espaçoso apartamento em Higienópolis, na região central de São Paulo. Reencontrou seus 8.000 livros espalhados pelas salas e quartos e a vista do vale do Pacaembu no prédio que, antes de ser construído, a viu nascer num antigo sobrado. Mulher de causas e de desafios, propõe-se mais um: um think tank de política educacional, um grupo estratégico para encorajar governos e empresários a investir no setor. Algo que transcenda o público e o privado.

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Filha de um empresário romeno — Maurice Costin, dono de uma fábrica de brocas e ferramentas de corte — e de mãe húngara, Cláudia cumpria até o início de julho o mandato de diretora global de educação do Banco Mundial, em Washington (EUA). Antes, havia sido funcionária pública de carreira, tendo ocupado cargos na administração federal, nos governos Itamar Franco e Fernando Henrique Cardoso, e nas esferas estadual (no governo paulista de Geraldo Alckmin) e municipal (com o prefeito Eduardo Paes, no Rio de Janeiro). Permaneceu longe da capital paulista até se entregar com mais cinco pessoas ao projeto educacional, que deverá ter sedes em São Paulo, na
capital fluminense, em Brasília e nos Estados Unidos.

“Eu tinha mandato [no Banco Mundial] e ele acabou agora. Eu poderia ficar, se quisesse. Mas quero criar este think tank sobre política educacional. Foram bárbaros esses dois últimos anos. Conheci os problemas da educação no mundo inteiro. Estive em seis continentes. Mas eu não vou deixar as coisas como estão na educação do [meu] país. Minha ideia é ajudar prefeitos e governadores a pensar a política educacional, participando do processo de discussão sem me envolver com partidos e quadros políticos”, afirma.

A dedicação à educação foi uma decisão tomada há dez anos, quando completou 50 anos. Na época, Cláudia havia acabado de deixar a Secretaria de Cultura do Estado de São Paulo. Tinha sido alvo de críticas ao assumir o cargo, justamente porque o seu perfil, no governo federal, era de gerenciadora da máquina pública — foi ministra da Administração de FHC. “Quando fiz 50, tomei duas decisões: ler todos os livros que as pessoas falam e nunca havia lido — sabe aqueles que são ‘os livros’, patrimônios da humanidade? A segunda era passar a correr. E todo mundo riu, porque eu não fazia exercício nenhum. Na minha geração, ou você era atleta, ou você era intelectual. Como eu era a intelectual, eu não fazia nem ginástica.”

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A opção a fez virar secretária da Educação da Prefeitura do Rio de Janeiro, na gestão Eduardo Paes. Cláudia sempre expõe os números conseguidos durante o seu período na pasta, sobretudo com o programa Escolas do Amanhã, que priorizava unidades educacionais em locais mais vulneráveis à pobreza ou ao tráfico e com piores índices de desempenho escolar. “A média de melhoria da rede foi de 22% no nono ano [de implantação]. Nas Escolas do Amanhã, esse incremento foi de 33%. E mesmo assim não chegou no nível da rede [carioca]. Naturalmente, em um bairro que tem tiroteio todos os dias, as escolas fecham. Mas o índice de evasão escolar também caiu brutalmente para menos da metade no nono ano [de escolarização], que é quando o tráfico recruta, as milícias recrutam as crianças para trabalhar.”

Cláudia descobriu tardiamente suas origens. Quando ela tinha 37 anos, a mãe húngara — que hoje, vítima de Alzheimer, mora no apartamento logo abaixo da ex-ministra — contou, em livro escrito à mão, o vínculo da família com o judaísmo. Até então, a paulistana, que estudou no Colégio Sion, também em Higienópolis, havia tido formação católica. A principal descoberta foi a de que o pai Maurice, morto em 2012, na verdade havia pegado emprestado o sobrenome Costin para escapar das perseguições a judeus na Europa dos anos 1940. O popular sobrenome romeno substituiu o Calmanovici — cujos remanescentes hoje resistem em Moldova, antiga república soviética ao norte da Romênia, também conhecida como Bessarábia.

“O mundo da empresa privada esteve muito presente na minha formação”, diz. “O meu pai é um romeno que, depois de ter ido para a França, veio pra cá fugindo do pós-guerra e conheceu minha mãe, também europeia. Nenhum dos dois fizeram faculdade, mas construíram a vida deles. Meu pai tinha uma empresa que nasceu pequena e foi crescendo. Eu fui, de algum jeito, trabalhada para ser a sucessora.”

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A diretora global de educação do Banco Mundial optou, no entanto, por outra via: a da militância política. Chegou a ser presa duas vezes durante o regime militar, e participou de grupos clandestinos de esquerda, como o PRC (Partido Revolucionário Comunista). “Eu, muito progressista, queria mudar o mundo, e participei muito cedo de movimentos estudantis. Não queria assumir a empresa. Por conta de uma série de motivos, sabia que queria trabalhar com educação, queria fazer psicologia.”

Os rumos mudaram com a morte do irmão mais velho. O pai, então, pediu que ela se preparasse para assumir a empresa familiar. “Eu não queria de jeito nenhum! Na minha cabeça, era coisa de burguês. Mas também não queria magoar meu pai, ele já estava sofrendo demais. E descobri que a FGV tinha um curso de administração pública. Pensava: posso fazer ‘a revolução’ de noite e trabalhar de dia na máquina pública. Só contei para o meu pai que o curso era de administração pública depois. Aí, imagino que aceitou que administrar a empresa não era para mim.”

A empresa não, mas a gestão pública, sim. Costin passou um longo período trabalhando como concursada na Fundap (Fundação de Desenvolvimento Administrativo de São Paulo). “Aquilo foi tão bom”, lembra. “Tinha uma série de pessoas que queriam, a todo custo, fazer a política pública de uma outra maneira. Era um núcleo de gente que queria transformar, combater o clientelismo, fazer uma coisa mais transparente, para que a população enxergasse melhor o que é feito.”

Foi essa meta que perseguiu nos anos que dedicou à máquina federal, de funcionária de carreira à ministra da Administração do governo FHC. “Sempre achei que não fosse função do Estado produzir bens e serviços”, diz, sobre a proposta liberal da administração tucana. “Essa agenda [estatista] foi uma agenda dos militares, que aumentaram o tamanho do Estado. Tirando a Petrobras, que era uma questão de orgulho nacional — e olha depois o que fizeram com ela! Eu achava importante dotar o Estado de uma estrutura, e não de tantos cargos de confiança, e mais gente de carreira.”

A passagem pela máquina federal durou até 2000, quando assumiu pela primeira vez um cargo no Banco Mundial, o de diretora regional. Desde então, foi se afastando das políticas para o funcionalismo e se aproximando do perfil de educadora que sempre quis explorar. Como secretaria da Cultura do Estado de São Paulo, a principal meta foi a de criar um público leitor. No Brasil, afirma, a média é de apenas três livros lidos por habitante por ano — baixíssima, mesmo se comparada à dos EUA, com apenas 10 livros.

Uma questão cultural, que ainda é sobreposta à econômica, mesmo com a suposta ascensão pré-crise da chamada “nova classe C”. Na edição 42 de FORBES Brasil, o presidente do Bradesco, Luiz Carlos Trabuco, disse que a nova transformação do país viria pela ascensão cultural da sociedade.

Cláudia concorda. “Sobre a inclusão cultural da população que passou a ser classe média, é natural que tenham padrões estéticos distintos dos padrões da elite. É o repertório cultural acumulado. Eu tenho horror a preconceito cultural. Não é culpa deles que o gosto seja distinto. Mas eu acredito que esse preconceito seja ainda mais agravado porque as nossas elites também não são muito cultas. As nossas elites não frequentam museus no Brasil, só nas viagens. As crianças, os cidadãos em formação, vão a Disney quatro ou cinco vezes, mas não a museus incríveis que existem em alguns países. Nossas elites não levam seus filhos aos museus. Então, com que direito eu vou julgar os novos membros da classe média que têm um padrão estético distinto do meu, que só gostam daquilo que a televisão apresenta?”, questiona.

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Cláudia visita uma experiência em Antares, subúrbio do Rio de Janeiro, para explicar como é possível transformar essa realidade. Lá, a educação ocupou o vácuo de poder público que estava então sob domínio do crime organizado. Foi uma ação do Estado, mas poderia ser da iniciativa privada — como algumas fundações ligadas a grandes empresas e bancos, como a Lemann (leia na página 36) ou a Itaú Social.

“Chegamos a um ponto em que a elite valoriza a educação, mas ela não sabe o que deve ser feito para valorizá-la”, diz. “Ela está entrando no ‘como [fazer]’. É importante que setores da sociedade atentem para o que o corporativismo [de professores] não vai necessariamente atentar — não basta remunerar melhor o professor; é preciso atrair talentos melhores e colocar o foco da política pública na criança, que deve estar no centro do processo educacional. Como fazer isso é a grande questão.” Cuja resposta ela começa a elaborar ainda este ano, com seu think tank.

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