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Eduardo Saverin: de cofundador do Facebook a bilionário estimulador do empreendedorismo

Eduardo Saverin

Eduardo Saverin, o brasileiro que cofundou o Facebook e é, hoje, um dos maiores estimulares do empreendedorismo (Getty Images)

Pouco antes de completar 22 anos, Eduardo Saverin tomou uma decisão que mudaria sua vida — e de quase dois bilhões de pessoas — quando ajudou a colocar o Thefacebook.com na internet, em fevereiro de 2004. A partir daí, a história é conhecida: teve desavenças com Mark Zuckerberg, saiu da empresa, mas se tornou bilionário graças à sua participação. O que nem todos sabem, no entanto, é que o brasileiro, hoje, é um dos principais financiadores do empreendedorismo no sudeste da Ásia.

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Saverin ainda não tinha entrado para a lista de bilionários de FORBES quando o filme A Rede Social, em que ele é interpretado por Andrew Garfield, transformou-o em figura mundialmente conhecida, em 2010. Com o Facebook ainda de capital fechado, ele só entraria para o ranking dos mais ricos do planeta no ano seguinte, com fortuna estimada em 1,6 bilhão de dólares.

No início de 2004, Mark Zuckerberg, então com 20 anos, tinha acabado de bolar uma rede que ligaria estudantes de Harvard, ainda sob o nome de Thefacebook. Ele precisava de alguém que não só o ajudasse com investimento individual, caso a ideia desse certo, mas que também pensasse em tornar o negócio rentável. Saverin era a escolha certa.

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No penúltimo ano de economia em Harvard, o jovem brasileiro, que participava do clube de investimentos da faculdade, era conhecido por seu tino nos negócios. Havia, inclusive, uma lenda sobre ele ter ganhado um bom dinheiro com fundo de hedge — história que ele próprio negaria depois. A proposta era tentadora: um terço da futura empresa em troca do investimento imediato de mil dólares e participação na captação de recursos. Saverin tornou-se, assim, o usuário número 7 da rede social. Zuckerberg era o número 4, e Dustin Moskovitz, outro cofundador e, hoje, também bilionário, o número 6.

À medida que o site foi crescendo, Saverin assumiu cada vez mais o papel de homem dos recursos. Quando Zuckerberg e Moskovitz mudaram-se para Palo Alto, na Califórnia, num escritório que havia sido inicialmente alugado apenas para o verão, ele ficou em Nova York para angariar fundos por meio de soluções que envolviam, em especial, publicidade.

Página do Thefacebook, percursor da rede social mais popular do mundo (Reprodução)

Página do Thefacebook, percursor da rede social mais popular do mundo (Reprodução)

Foi quando as desavenças entre Zuckerberg e Saverin começaram. De acordo com o livro O Efeito Facebook, do jornalista David Kirkpatrick, os dois discutiam sobre diversos pontos: desde como a publicidade deveria aparecer no portal até o nível de comprometimento de cada um. Com apoio do empreendedor Sean Parker, outro bilionário graças à rede, o grupo da Califórnia reorganizou o estatuto da empresa de maneira que o brasileiro teria cada vez menos participação. Saverin só soube da mudança depois de ela ter sido elaborada e se sentiu traído. Seu nome até havia sido tirado do quadro de fundadores da rede social.

Na época, Zuckerberg negou que não tenha feito as coisas com clareza, mas uma troca de e-mails entre ele e seu advogado, revelada pelo site Business Insider em maio de 2012, mostra que o norte-americano tinha consciência do que estava fazendo. “É provavelmente OK dizer [a Saverin] quantas ações estamos vendendo. O que é provavelmente menos OK é dizer a ele quem está ganhando as ações [Moskovitz e Parker], só porque ele talvez tenha uma reação adversa inicialmente. Mas acho que nós podemos fazê-lo entender isso”, diz uma das mensagens. “Há alguma maneira de fazer isso sem parecer doloroso para ele que está sendo diluído para 10%?”

A história, também relatada no livro Bilionários Por Acaso, de Ben Mezrich, que deu origem ao filme de David Fincher, é até hoje controversa. O que se sabe, no entanto, é que Saverin entrou na Justiça contra a empresa, e conquistou não só a participação de cerca de 5%, mas também o direito de ter o nome recolocado entre os fundadores da rede social.

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Nascido em São Paulo, Saverin se mudou com a família para Miami aos 10 anos, em 1992. Reza a lenda que seu pai, Roberto, havia tomado a decisão por ter sido incluído em uma lista de possíveis sequestráveis, história negada pelo próprio Roberto à revista Veja em 2012. Mas dinheiro, de fato, não era o problema. Os Saverin eram herdeiros da conhecida rede de lojas de roupas infantis Tip Top, fundada pelo avô de Eduardo, Eugênio, e vendida para a TDB Têxtil em agosto de 1987. Na cidade norte-americana onde cresceu, o brasileiro estudou na tradicional escola particular Gulliver Preparatory School para, em 2001, aos 19 anos, iniciar o curso na Harvard Business School, onde conheceu Zuckerberg.

Em 2009, mudou-se para Cingapura, no sudeste asiático, região que começou a lhe chamar atenção nos primórdios da rede social, quando a Indonésia tinha sua segunda maior comunidade, atrás apenas dos Estados Unidos. “Cingapura é um ótimo local para viver. Está no meio do caminho entre a China, a Índia e o sudeste asiático, que, juntos, têm 60% da população mundial e são lugares em que a tecnologia e a inovação estão mudando a vida de milhões de pessoas. Anos atrás, eu investi em uma empresa de um amigo, baseada em Cingapura, e decidi viajar até o país para aconselhá-lo nos negócios. O que começou com uma rápida visita resultou em minha decisão de criar raízes e se estabelecer em Cingapura”, disse a FORBES Brasil.

O brasileiro voltou às manchetes em 2012, quando foi anunciada sua renúncia à cidadania norte-americana poucas semanas antes da abertura de capital do Facebook, em maio daquele ano. O bilionário teria tomado essa decisão em setembro do ano anterior, porque, conforme já declarou em mais de uma ocasião, queria se estabelecer definitivamente na cidade-Estado asiática. A atitude, no entanto, foi duramente criticada na época, por supostamente ser uma manobra para evitar a taxação sobre sua participação na empresa. Estima-se que, com o sucesso do IPO, o maior da história da internet, que então avaliou a rede em 104 bilhões de dólares, o brasileiro tenha economizado centenas de milhões de dólares.

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Hoje, no entanto, o Facebook é um assunto do passado para Saverin — embora suas 53 milhões de ações sejam ainda grande parte de sua fortuna, estimada em 22,79 bilhões de reais. Casado há pouco mais de um ano com a indonésia Elaine Andriejanssen, o brasileiro dedica-se hoje a financiar os mais diversos tipos de startups, com foco especial no sudeste asiático.

Quem acha que Saverin escolheu a região por qualquer motivo que não uma calculada decisão de negócios ignora o potencial estrategista do brasileiro que, aos 13 anos, venceu uma partida de xadrez contra um mestre internacional do jogo em Orlando. “Sul da Ásia e sudeste asiático são mercados muito grandes, com uma classe média em rápido crescimento e cada vez mais conectada à internet, com mais de 120 mil novos usuários por dia apenas na região sudeste. O uso do celular para movimentações tem taxa quase três vezes superior à do resto do mundo. Estes mercados têm recebido menos atenção e capital do que a China. E existe menos volume de financiamento na região”, disse para FORBES Brasil.

Seu mais novo empreendimento é a empresa de investimentos B Capital Group, fundada no ano passado em parceria com Raj Ganguly. O foco, claro, é o sudeste da Ásia. “A Índia espera um crescimento de 5,9% entre 2014 e 2018, e o sudeste asiático, de 5,4%. É o dobro da média esperada para os Estados Unidos, de 2,5%”, afirmou a dupla Saverin-Ganguly, por meio de um artigo publicado no LinkedIn em maio deste ano.

Em janeiro, o Banco Mundial publicou um artigo em que dizia que a Índia será o país em desenvolvimento com crescimento mais rápido até 2018. Mesmo que no primeiro trimestre deste ano as startups do país tenham visto uma queda no investimento, de 891 milhões de dólares no mesmo período de 2015 para 736 milhões de dólares, é um dos ambientes de empreendedorismo mais fortes do continente.
Em fevereiro de 2015, Saverin estreou no mercado indiano ao aplicar 11 milhões de dólares no Hopscotch, e-commerce especializado em roupas para crianças e bebês, fundado em 2012 em Mumbai. Depois de ver um crescimento de mais de 20% no último ano, investiu mais 13 milhões de dólares em fevereiro.

Embora não tenha o mesmo tamanho do mercado da Índia, 2016 tem sido um bom ano para as startups de Cingapura. As empresas receberam, ao todo, 199 milhões de dólares de financiamento no primeiro trimestre, face a 53,1 milhões de dólares no mesmo período de 2015. Além de residente da cidade-estado, Saverin é um grande fomentador de suas startups, com apostas geralmente relacionadas à internet. Em janeiro deste ano, por exemplo, ele participou de uma rodada de investimento inicial de 2,5 milhões de dólares do gerenciador de pagamentos on-line Xfers.

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Em janeiro de 2015, ele liderou um round de dois milhões de dólares que ajudou a fundar o site de vendas imobiliárias 99.co. “Quando me mudei para Cingapura, há alguns anos, não havia um site como este, e eu tive que explorar o que tinha. Fiquei um pouco desapontado”, justificou a aposta no lançamento do portal. “Aquelas informações eram confiáveis? Foi uma experiência duvidosa e demorada que precisava mudar.”

Observar seu cotidiano é uma das estratégias que Saverin usa para estabelecer tendências e selecionar iniciativas para investir. Caso do e-commerce de venda e entrega de produtos de supermercado RedMart. “Atualmente [informação e dados] são as commodities mais baratas e acessíveis. Seja para encontrar opções de viagens on line ou aprender mais a respeito de seu corpo, com dispositivos de saúde digitais, ou para saber quando sua encomenda vai chegar. Estes são tempos extraordinários”, disse a FORBES Brasil.

Outra aposta recente na região foi o portal de notícias Tech in Asia, que se define como “uma comunidade on line voltada para o ecossistema de startups na Ásia”. O brasileiro, que aparece no portal como um de seus principais investidores, participou de um round que aplicou 4 milhões de dólares na iniciativa em junho de 2015. Com foco no empreendedorismo asiático, o site tem colaboradores na Indonésia, no Japão, em Cingapura, na China, na Índia, no Paquistão e nas Filipinas.

Apesar do foco na região asiática, a empresa tem dois escritórios na Califórnia (Los Angeles e San Francisco), comandados por Ganguly, e outro em Cingapura, comandado por Saverin. “Muitos investidores apostam no mercado dos Estados Unidos”, afirmou a dupla de cofundadores no artigo do LinkedIn. “Em 2015, o país viu um total de 58,8 bilhões de dólares em investimentos de risco. Em comparação, a Ásia, que tem uma população dez vezes maior, viu apenas 55,3 bilhões de dólares.”

Os investimentos de Saverin nos EUA nunca pararam. Em janeiro de 2011, liderou um round de investimentos para o aplicativo Qwiki, app que misturava conteúdo multimídia, como fotos, músicas e vídeos, para contar uma história. De futuro promissor, foi adquirido pelo Yahoo! por 50 milhões de dólares em julho de 2013, com o objetivo de aumentar a interatividade do recém-comprado Tumblr. Graças a outro grande investimento de Saverin, o cada vez mais soberano Facebook, a ideia tornou-se obsoleta, e a empresa o desativou.

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As apostas nem sempre vingam. Em setembro de 2014, Saverin fez duas na área automotiva. Fundada em 2012, a FlightCar era uma grande promessa da nova economia compartilhada. Como um Airbnb de automóveis, o aplicativo disponibilizava veículos em aeroportos: quem viajasse poderia deixar seu carro sob os cuidados da startup, que o alugava para alguém que chegasse à cidade e ficava com uma porcentagem do valor pago. Em setembro de 2014, Saverin participou de um aporte de 13,5 milhões de dólares. Apesar do ânimo, a empresa entrou em crise depois de reclamações de maus cuidados por parte dos usuários e baixas avaliações em sites de serviços como o Yelp. Em julho, a startup fechou todos os 12 pontos em aeroportos e vendeu a tecnologia para a Mercedes-Benz por um valor não revelado. Já a Silvercar, serviço de luxo de reserva de carros com exclusividade no Audi A4, onde liderou uma rodada de Série B de 14 milhões de dólares no mesmo mês da FlightCar, vai muito bem.

Mas talvez o caso mais emblemático de uma aposta não tão bem-sucedida do brasileiro seja a Jumio. Fundada em 2010, a ferramenta de identificação digital recebeu 6,5 milhões de dólares de uma rodada liderada pelo empreendedor em março de 2011. Cinco anos depois, em março de 2016, a empresa entrou em concordata e ninguém menos que o próprio Saverin se propôs a resgatá-la, por meio de outra companhia, a Jumio Acquisition, por 3,7 milhões de dólares.

Saverin participa do Tech in Asia Singapore 2016 (Reprodução)

Saverin participa do Tech in Asia Singapore 2016 (Reprodução)

Apesar de nem todas as apostas funcionarem como o esperado, está claro que Saverin não dá ponto sem nó. Não é só o dinheiro que faz com que os investidores procurem por ele. O jovem brasileiro costuma acompanhar de perto as empresas em que aposta. “Gosto de arregaçar as mangas e ajudar os empreendedores”, afirmou o bilionário no evento Tech in Asia Singapore 2016, realizado em Cingapura em abril. Ele explicou que a posição de CEO pode ser “solitária” e é importante ter alguém que dê apoio. “Tento não investir em um negócio se não puder ajudar os empreendedores com mentoria e conselhos.” Na área de staff do portal da RedMart, por exemplo, ele aparece estrategicamente como “cofundador”.

No evento, Saverin revelou que gostar do que faz é uma das coisas que lhe chama atenção na hora de investir. “É um trabalho difícil, mas, com paixão. Você está armado com a habilidade de ouvir e a capacidade de se adaptar para, quando cair, se levantar de novo.” Dinheiro para estas apostas é o que não falta. Seja em seu bilionário patrimônio pessoal, seja na B Capital, que recebeu aporte de 143,6 milhões de dólares em maio.

Saverin, no entanto, prefere o estilo low profile. Não dá muitas entrevistas, evita ostentação e aparições públicas — seu luxuoso casamento na Riviera Francesa, inclusive, foi todo fechado — e até sua conta no Facebook já não é lá muito movimentada. Um estilo que lembra o de outro conhecido bilionário brasileiro: Jorge Paulo Lemann.

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