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Como a maconha pode ajudar a combater a epidemia de heroína nos Estados Unidos

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Estudos indicam que a maconha tende a evitar o consumo de drogas mais fortes, como a heroína (iStock)

Um recente relatório do Centro de Controle de Doenças (CDC) lançado no mês passado revelou que 25% do total de overdoses ocorridas nos Estados Unidos são decorrentes do consumo de heroína. Estima-se que um milhão de norte-americanos sejam atualmente viciados na droga – muitos deles acabam chegando até ela como uma alternativa mais barata aos opioides prescritos. Na véspera da divulgação do estudo, o secretário de imprensa da Casa Branca, Sean Spicer, fez uma ligação entre a massiva epidemia de opioides e o aumento da popularidade e do uso recreativo da maconha, outra droga listada pelos EUA como substância de alto risco (a List of Schedule 1).

Entretanto, o que o secretário e as outras pessoas podem não saber ainda é que especialistas no assunto acreditam que a maconha poder oferecer uma grande ajuda para combater o crescente número de pessoas, principalmente de baixa e média renda, que sofrem com a epidemia de opioides, problema que causa 91 mortes todos os dias no país. De acordo com estudos recentes, a planta pode mesmo ter o potencial de não apenas evitar o vício e salvar vidas, mas também de economizar bilhões de dólares em impostos dos contribuintes (e até dos laboratórios).

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Pesquisas que sugerem um papel para a maconha nos tratamentos de dependência já começaram a ser feitas. Um estudo recente do Mount Sinai, da Icahn School of Medicine, nos Estados Unidos, revelou que o canabidiol, um dos componentes mais ativos da planta, tem sido identificado como uma das formas de reduzir a vontade de heroína em seres humanos e roedores uma semana após a interrupção no uso da substância. Mais do que isso: ela até sinalizou uma restauração de alguns danos neurológicos.

Em um comunicado, a autora da pesquisa e especialista em neurobiologia Yasmin Hurd ressaltou a necessidade de aumentar o investimento nos estudos de uso da maconha medicinal. “Nós precisamos nos abrir para essa possibilidade, já que há componentes na planta que aparentam ter propriedades terapêuticas. Sem pesquisas empíricas ou ensaios clínicos, no entanto, estamos transformando em piada o modo como o assunto é tratado. E são essas informações que vão guiar a maneira de as pessoas votarem o tema e as políticas que serão feitas sobre ele”, disse. “Essa é uma das primeiras vezes na nossa história em que estamos deixando leigos e políticos decidirem o que é medicinal e o que não é. Se queremos dizer que a maconha é medicinal, temos que provar que ela realmente é.”

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No ano passado, um estudo publicado no jornal médico “JAMA Internal Medicine” apontou uma queda em 25% no número de mortes por overdose de opioides em estados onde a maconha medicinal é legalizada. Para explicar este efeito, a pesquisadora Amanda Reiman cita o uso da planta para ajudar as pessoas a largarem drogas mais fortes. Ela explicou ao jornal “VICE” que a erva, além de ser um substituto viável para outras substâncias mais perigosas como os opioides e a metanfetamina, traz alguns benefícios importantes para o tratamento da abstinência.

A maconha também pode ser uma ferramenta de grande potencial para prevenir o vício em opioides. Segundo uma reportagem da revista “TIME” publicada no ano passado, uma revisão, feita pela Universidade de Georgia, de todas as receitas médicas do Medicare Part D (programa do governo norte-americano para subsidiar medicamentos) entre 2010 e 2013, descobriu que estados que legalizaram a maconha medicinal constataram quedas significativas no volume de prescrições de medicamentos para dor, assim como de antidepressivos, drogas para epilepsia, ansiedade e sono, entre outros problemas.

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Além disso, há quem diga que a maconha também pode oferecer alívio financeiro em uma época em que os opioides se tornaram um caso de epidemia no país. O estudo da Universidade da Geórgia, por exemplo, revelou uma redução no programa público de saúde de US$ 165,2 milhões em 2013, quando 17 estados passaram a ter leis sobre o uso da maconha medicinal. Se todos eles tivessem aderido, a economia teria sido de US$ 468 milhões. Os autores do relatório observaram: “Em uma época em que todo o sistema de saúde está sob uma enorme pressão fiscal, nossa pesquisa sugere que a aprovação mais generalizada da maconha medicinal poderia proporcionar um alívio orçamentário”.

Enquanto isso, a planta também pode ajudar a combater outro grande problema por trás do abuso e da distribuição de drogas em várias comunidades norte-americanas menos assistidas: o subemprego. FORBES divulgou, recentemente, que a indústria legal da maconha deverá criar 250 mil novos empregos até 2020, em uma variedade de funções e setores. Como o jornal “Washington Post” informou em outubro passado, a “corrida verde” de 2015 já gerou 18 mil novos empregos em tempo integral no Colorado e movimentou US$ 2,4 bilhões.

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Entretanto, é claro que há muitas questões ainda sobre como e quando a maconha deve ser usada, como essa crescente indústria deve ser estruturada para beneficiar pequenos negócios e pacientes e de que maneira a legislação deve ser endereçada.

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