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Salvar elefantes pode ser bom para o seu negócio

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Há uma década, ninguém se importava com os maus-tratos ou as mortes dos elefantes por causa do marfim (iStock)

Pense no Quênia, o país da África Oriental limitado ao norte pelo Sudão do Sul, a leste pela Somália e pelo Oceano Índico, ao sul pela Tanzânia e a oeste por Uganda. Com certeza você imaginou pessoas em situação de pobreza – fome, moscas e casas de baixa renda. Ou talvez uma savana ao pôr do sol, com uma silhueta brilhante vermelha refletindo em elefantes enquanto eles se movem lentamente ao longo da linha do horizonte.

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Ambas são realidades neste país de contrastes, mas existe um novo tipo de savana emergindo que acaba com concepções como essas, ao mesmo tempo em que as combina para extrair um benefício mútuo. Essa nova savana nasceu do crescente setor de manufatura, agroindústria, turismo, finanças e tecnologia do Quênia, criando um centro para desenvolvimento econômico e investimentos estrangeiros. Batizada de Silicon Savana da África, a região abriga uma crescente classe média e tem presenciado inovações tecnológicas, rápida urbanização e aumento no setor de serviços. De acordo com o Banco Mundial, o crescimento econômico do Quênia está entre os mais rápidos da África. Em 2016, pesquisas do Kenya National Bureau of Statistics indicaram que a economia do país cresceu 6,2% no segundo semestre comparado a 5,9 % no mesmo período em 2015.

Em uma terra historicamente sem leis, essas áreas de preservação estão transformando vidas, e instituições comunitárias bem governadas estão revertendo a “tragédia dos povos”

Em seu plano de desenvolvimento nacional de longo prazo, o Vision 2030, o Quênia almeja transformar-se em um país de média renda, com um novo processo de industrialização. A agricultura continua a oferecer a base para isso. O turismo também, em menor proporção, mas talvez mais divulgado. Estes dois setores estão apoiados em seus incríveis, porém em crescente ameaça, recursos naturais. A pressão nas pastagens, florestas e pescarias causadas por uma população cada vez maior e as mudanças climáticas afetam principalmente as pessoas da base – justamente o grupo demográfico que tem o maior potencial para comandar a mudança. O sucesso da visão de desenvolvimento do Quênia e a responsabilidade de equilibrar o rápido crescimento econômico com a conservação de ecossistemas que o suportam baseiam-se, agora, principalmente nos donos de terras privadas e comunitárias.

Jeremy Bastard, o administrador de uma pousada safári bem-sucedida nas remotas montanhas Mathews, ao norte do Quênia, afirma que, há uma década, ninguém se importava com os maus-tratos ou as mortes dos elefantes por causa do marfim. “Os elefantes eram considerados um transtorno. As pessoas que cuidavam das pastagens passavam longas horas, sob o sol, cavando poços para a pecuária. À noite, os elefantes vinham e destruíam os poços, em busca da mesma água. As pessoas passaram, então, a deixar um pouco da água no canal, para dividi-la com os elefantes. Agora, por causa do espírito de preservação da comunidade, os cidadãos enxergam valor nos elefantes. São os seus elefantes”, conta.

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Isso simboliza a razão pela qual a contenção da caça aos elefantes no norte do Quênia não tem sido apenas um sucesso de preservação, mas também um sucesso social e econômico. A proporção dos elefantes mortos ilegalmente nas terras da comunidade do norte do Quênia diminui 52% desde 2012.

A região norte do país é amplamente habitada por semi-nômades, que cuidam da pecuária e têm uma história marcada por conflitos étnicos, caça ilegal de elefantes, degradação do solo e extrema pobreza. Enquanto em qualquer outro lugar do Quênia o crescimento econômico foi concreto para a maioria urbana, o desenvolvimento do remoto norte foi dificultado por esses desafios. Em 2014, porém, tudo isso começou a mudar graças ao movimento de preservação da comunidade.

(Reprodução/Forbes)

Guerreiros Samburu, tribo africana, em uma área de preservação no Quênia (Reprodução/Forbes)

Apoiada pelo Northern Rangelands Trust (NRT), organização não governamental que tem como objetivo desenvolver uma comunidade por meio da preservação, a região norte e o litoral contam hoje com 33 comunidades de conservação em, aproximadamente, 45 km2. São terras administradas por grupos indígenas pastoris, agricultores e pescadores para oferecer uma bandeira branca em busca de paz, segurança física, boa governança, gestão de recursos naturais e oportunidades econômicas. Em uma terra historicamente sem leis, essas áreas de preservação estão transformando vidas, e instituições comunitárias bem governadas estão revertendo a “tragédia dos povos”.

O NRT foi criado como uma organização “guarda-chuva” para apoiar seus integrantes, por meio da oferta de suporte financeiro e técnico, supervisão governamental, resolução de conflitos e oportunidades de investimento. A entidade recebe um grande apoio financeiro dos Estados Unidos, da Agência Dinamarquesa para o Desenvolvimento Internacional (DANIDA) e do The Nature Conservancy (TNC).

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Para fortalecer as oportunidades de investimento, a NRT pode atuar por intermédio da NRT Trading Ltd., criada em 2014 para focar em negócios de conservação. A NRT Trading é uma empresa social com fins lucrativos pertence à NRT que tem a missão de identificar, incubar, pilotar e desenvolver negócios sustentáveis nas áreas de conservação – e um deles é o turismo.

Em 2015, a receita vinda do turismo nas áreas de preservação do NRT (com taxas de entrada e tarifas de hotéis) totalizou mais de US$ 410.000 – um volume muito significativo para essas comunidades remotas e marginalizadas, derivadas da vida selvagem. Duas pousadas safári – Saara e II Ngwesi – são, atualmente, propriedades da comunidade, que contrata pessoas para administrá-las. As receitas do turismo da vida selvagem estão divididas em 40/60: 40% para os custos operacionais da preservação (como o salário de guardas e combustível para os veículos) e 60% para projetos de desenvolvimento considerados prioritários pela comunidade em suas assembleias gerais anuais. Normalmente, as comunidades decidem gastar seus recursos em bolsas de estudo para as famílias mais pobres, assistência médica e abastecimento de água para reduzir a carga das mulheres que precisam ir buscar o recurso em lugares muito distantes.

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Fazer a conexão entre proteger a vida selvagem e melhorar os meios de subsistência tem sido o catalisador para conduzir as comunidades locais para a vanguarda da preservação. Além de promover segurança para a vida selvagem, santuários operados pela comunidade em três áreas de conservação da África vem assumindo um papel importante na proteção de espécies em extinção. O rinoceronte negro, o hirola (um tipo espetacular de antílope) e a girafa-núbia estão se beneficiando da intervenção direcionada nas áreas de conservação que, por sua vez, estão se beneficiando do ecoturismo – sem mencionar o orgulho que os habitantes dessas áreas sentem por estarem nessa vanguarda.

O Indeed Saruni, um grupo de propriedades de safári de luxo no Quênia, inaugurou o “Saruni Rhino”, em fevereiro de 2017, em parceria com a Sera Community Conservancy para investir em uma propriedade que vai proporcionar aos hóspedes acesso à única comunidade-santuário no oeste da África – e um dos únicos lugares onde os visitantes podem acompanhar os rinocerontes a pé.

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Como condições para melhorar os negócios, tecnologias solares e móveis estão gerando novas oportunidades. Guardas podem tirar fotos de atividades de campo com seus smartphones e, instantaneamente, mandá-las por mensagem ao escritório da central de controle. Painéis solares estão começando a fornecer energia para sedes das áreas de conservação que não teriam a menor chance de serem interligadas a essas redes tão cedo.

É necessário um maior investimento de capital na paisagem do NRT para esse modelo de ecoturismo crescer em grande escala – atualmente só sete das 33 áreas de conservação abrigam instalações turísticas e se beneficiam dos empregos e serviços que trazidos por elas. E ainda há um longo caminho para muitas dessas instituições. Desafios de infraestrutura, culturais e ambientais vão demandar uma dedicação dos acionistas, mesmo do mais experiente investidor. Mas os retornos sociais e ambientais são significativos – e serão uma conexão sustentável entre a autêntica savana e a Silicon Savana para as marginalizadas comunidades do norte.

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Nessa relativamente pequena curva da África, grandes e pioneiras ideias são testadas e comprovadas. A ciência de ponta e a manutenção do foco nos negócios estão casadas com a tradicional criatividade africana para resolver problemas que têm sido considerados irreparáveis por gerações. E, desse lugar especial, essas soluções pragmáticas e ousadas já estão se espalhando para outros locais da África. Este é o motivo que torna esta iniciativa diferente: por gerações, estrangeiros bem-intencionados levaram ideias e dinheiro e tentaram resolver os desafios de cima para baixo, muitas vezes com pouca sorte ou resistência. Mas essa revolução, como qualquer outra que realmente funciona, é de baixo para cima. Por isso os investimentos no NRT são duradouros.

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