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L Catterton anuncia novos investimentos no Brasil

Diego Nata e Ale Santos

Julio Babecki, sócio e CEO da L Catterton na América Latina (Diego Nata e Ale Santos)

O fundo de private equity L Catterton tem US$ 400 milhões para investir na América Latina. O principal alvo dos aportes, segundo o espanhol Julio Babecki, sócio e CEO Latam da empresa, serão companhias de varejo brasileiras, especialmente as voltadas para beleza e bem-estar.

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A L Catterton é fruto da fusão, em janeiro de 2016, do fundo americano Catterton (focado em bens de consumo) com a L Capital, braço da holding francesa de marcas de luxo LVMH e do Groupe Arnault – na proporção de 60%, 20% e 20%, respectivamente. A gestão da L Catterton (US$ 14 bilhões em ativos) ficou a cargo dos antigos diretores do fundo americano.

Nove ou dez empresas latinas devem se unir a St. Marche e Espaçolaser no portfólio do fundo

Seu portfólio engloba 85 marcas na Europa, América e Ásia. A estreia no Brasil é recente. Em outubro de 2016, adquiriu 52% do grupo St. Marche; em dezembro, 37% da rede de depilação Espaçolaser (que tem a apresentadora Xuxa como sócia). No St. Marche (que inclui 18 mercados e as marcas Empório Santa Maria e Eataly, especializada em produtos alimentícios italianos), o aporte divulgado foi de R$ 226 milhões. Babecki não revelou quanto investiu na Espaçolaser.

O CEO vai comandar as operações latino-americanas a partir do escritório de Nova York. “Manteremos duas pessoas em São Paulo, uma na Cidade do México e uma em Bogotá”, diz. “O Brasil é um dos maiores mercados dentro das categorias nas quais costumamos investir, em particular beleza e bem-estar. Aqui as pessoas dão muito valor à imagem. Os brasileiros – inclusive os homens – são vaidosos”, afirma.

Mesmo quando não adquire a maioria de uma empresa, a L Catterton participa da implementação das estratégias traçadas junto aos sócios e parceiros. “Não interferimos na gestão do dia a dia, mas fazemos parte do conselho das companhias.”

Divulgação

Eataly: estreia da L Catterton no Brasil (Divulgação)

Os “donos do dinheiro” estão atentos, avaliando várias empresas no Brasil e nos países vizinhos. “Acabamos de fazer um investimento na Argentina, em uma empresa de moda feminina chamada Rapsodia, e na maior companhia de academias de ginástica colombiana, a Bodytech (sem relação com a brasileira), que tem 150 unidades na Colômbia, no Peru e no Chile”, diz Babecki. Ao lado de St. Marche e Espaçolaser, essas são, por enquanto, as quatro marcas latino-americanas de seu portfólio. A elas se juntarão outras nove ou dez na divisão dos US$ 400 milhões – um começo relativamente modesto diante dos US$ 12 bilhões disponíveis para América do Norte, Europa e Ásia. Mas é um começo.

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GANHANDO ESPAÇO

Os sócios – incluindo a apresentadora Xuxa Meneghel – já não tinham do que reclamar. Em 2016, a rede Espaçolaser teve receita líquida de R$ 106 milhões, contra R$ 52 milhões do ano anterior. Agora, com a entrada da L Catterton, o céu parece estar ainda mais azul. Mas não faltaram turbulências no início dessa história.

“Eu me formei em medicina no Mato Grosso e vim para São Paulo trabalhar com dermatologia estética”, lembra Ygor Moura, um dos fundadores da Espaçolaser. “Depilação a laser é um dos tópicos dessa área, mas naquela época pouca gente conhecia e era muito cara. Enquanto atendia meus clientes na clínica no bairro de Moema, sonhava com uma forma de torná-la comercialmente viável, agregando tecnologia de ponta e preço acessível”, conta. Ele apostava em três trunfos: comparado com a cera, o método é praticamente indolor, rápido (algumas sessões contra uma vida inteira) e de melhor custo-benefício.

RAPIDEZ

Diego Nata e Ale Santos

Ygor e Paulo: parceria rápida e duradoura (Diego Nata e Ale Santos)

Em 2004, enquanto atendia um paciente chamado Tito Veiga Pinto, ele falou sobre esse sonho. No dia seguinte, Tito e um amigo, o advogado Paulo Iasz de Morais, foram ao consultório. “Na mesma tarde nos tornamos parceiros. Na semana seguinte, começamos a procurar o ponto. Em três meses, inauguramos nossa primeira unidade, no Morumbi Shopping”, lembra Ygor. O nome da clínica de Moema foi mudado para fazer parte da nova “rede”. O único, grande, caro e pesado equipamento da revolucionária depilação ficava lá. “Quando tinha cliente no shopping, colocávamos a máquina num furgão. E ela ia de cá para lá, de vez em quando ainda ia para Mogi das Cruzes e Araraquara, onde eu também atendia”, diz Ygor. “Empreendedor em começo de carreira é assim, tem que otimizar o investimento”, diverte-se.

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Mas, apesar desse jogo de cintura e do possante furgão, o negócio crescia em um ritmo mais lento do que eles imaginavam. Até que surgiu a febre dos cupons de desconto pela internet. A Espaçolaser entrou na farra. “No dia que nossa promoção foi ao ar, fiquei desesperado tentando ligar para alguém do site e pedir para ‘desligar’. Aquilo virou uma avalanche. Tínhamos 14 atendentes e 1.800 pessoas querendo marcar hora.” Assim, a marca tornou-se conhecida e chegou a 30 lojas.

CELEBRIDADE

Paulo era amigo de João Carlos Semenzato, dono de uma holding de franquias (incluindo a conhecida rede de cursos Microlins). Semenzato havia dito que estava esperando a Espaçolaser crescer para entrar no negócio e turbinar seu sistema de franquias. Cumpriu a promessa em 2015, quando já era sócio de Xuxa em franquias de beleza e estética. E, assim, a apresentadora também entrou no negócio, para o qual hoje dá dicas na área de marketing e imagem.

Getty Images

Xuxa é sócia da rede Espaçolaser (Getty Images)

“A expectativa era vender 40 franquias entre 2015 e 2016 – e foram mais de cem. Nem temos mais local disponível no Brasil”, diz Paulo. Hoje a rede acumula 51 lojas próprias, 20 joint ventures e 81 franquias (só as lojas próprias devem faturar R$ 180 milhões em 2017). Atende mais de 200 mil pessoas por mês – 90% delas são mulheres. “Fizemos uma pesquisa e descobrimos, para nossa surpresa, que 82% dos homens gostariam de depilar, principalmente a barba. O desafio é criar formas de atraí-los até nossos serviços”, afirma Ygor. Outro dado que mostra o potencial desse mercado no país: 90% das mulheres das classes A e B ainda optam pelo método “antigo”.

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“Conhecemos algumas pessoas do mercado financeiro, e elas perguntavam sobre nosso interesse em captar recursos para crescer mais rápido”, conta Paulo. “No fim de 2015 começamos a pensar mais seriamente nisso, e apresentamos nossas propostas de venda (sempre minoritária) a alguns fundos. Tivemos o primeiro contato com a Catterton em agosto, e em dezembro fechamos o negócio.” Mais uma vez, tudo muito rápido e duradouro. Como uma depilação a laser.

* Matéria publicada na edição 50 de FORBES Brasil, de abril de 2017

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