Negócios

Por que empreender em várias áreas pode trazer felicidade

A pergunta “o que você faz?” pode trazer algum desconforto para as pessoas cujas respostas sejam: “eu faço várias coisas diferentes”, “eu tenho dois negócios e sou um artista” ou “eu sou um profissional com prática em múltiplas áreas”. Isso porque ainda existe um certo preconceito implícito em situações como estas, acompanhado por comentários como “ele não tem um emprego fixo ou uma carreira regular”. Por regular, a sociedade ainda entende “real”. No entanto, essa percepção é ultrapassada – a cultura de trabalho “mono profissional” está dando lugar à “poli profissional”.

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A revolução industrial terminou, mas alguns de seus fantasmas parecem não querer desaparecer. No século passado, as pessoas tinham um tipo de trabalho na vida, ou seja, eram “mono profissionais” e passavam sua carreira atravessando os estágios de uma área específica. Agora, a economia de trabalho é 40% baseada em relacionamentos, o que leva a uma migração histórica de empregos tradicionais para alguma outra forma de contratação ou para o modelo autônomo.

As profissões convencionais não acabaram, mas não são mais sinônimo de qualidade, assim como os diplomas físicos. Mas o mono profissionalismo, ainda que esteja perdendo seu domínio, permanece ligado à percepção de status.

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A noção de que as pessoas devem fazer apenas uma coisa e “bem”, como diz o ditado, oculta o incrível trabalho que muitos fazem como poli profissionais – aqueles que não se limitam a uma coisa, mas insistem em fazer mais de uma – e bem. Em outras palavras, estes profissionais querem tudo – incluindo a capacidade de seguir suas múltiplas paixões e vocações. Isso porque a ênfase em crescer em uma única profissão é encarada, nos dias dias de hoje, como um limitador desnecessário e contraprodutivo.

  • Status: uma situação que está mudando de forma

    Jack Ma posicionou-se contra uma tradição profundamente enraizada quando fundou o Alibaba, inicialmente um pequeno negócio que fez dele o homem mais rico da China. Ele não cresceu por meio dos processos tradicionais da sociedade e a universidade não o ajudou a seguir uma carreira tradicional. Seus primeiros experimentos de negócios falharam. No geral, ele era visto como um “perdedor” que não aceitava a hierarquia padrão que deveria ser seguida para obter status e sucesso. Ma continuou a quebrar as regras como CEO do Alibaba. Quando vendeu 40% ao Yahoo, não gastou muito de seus US$ 25 bilhões em itens de alta visibilidade (apesar de ter investido em um jato). Ele deixou de ser CEO e virou membro do conselho e, nesta condição, continuou a perseguir seu interesse em pôquer, meditação e tai-chi, além de leitura e escrita de ficções de kung-fu. Em outras palavras, ele nem mesmo aproveitou sua riqueza da maneira esperada.

    Há uma razão primária para a ideia de que os indivíduos devem ser definidos com base em um único interesse: a partir do momento em que eles podem confortavelmente ser poli profissionais, cria-se uma ameaça à dominância daqueles que consolidam o controle. Status é meramente o mecanismo de recompensa e de execução para a conformidade da definição de um profissional padrão. Porém, ele não paga as contas – e também não cria inovação. O status gera resistência e problemas em áreas onde a pressão por novas ideias cresce. Felizmente, hierarquias profissionais que dão status estão, cada vez mais, enfraquecendo.

  • Vocação: a morte do trabalho meramente racional

    Em épocas como a Grande Depressão (1929) e a Segunda Guerra Mundial (1939-1945), não era costume pensar sobre que profissão traria satisfação pessoal. Os jovens analisavam as demandas da sociedade e escolhiam seus trabalhos com base nelas. Se precisasse de mais caminhões para a guerra, por exemplo, eles iriam trabalhar em uma fábrica soldando rodas de ferro.

    Séries de televisão populares daqueles tempos retratavam rapazes que rejeitavam o negócio da família e a indústria da demanda e que fugiam de cada para realizar o sonho de serem músicos ou poetas. Nestes casos, no entanto, o final era sempre o mesmo. Eles voltavam para casa tendo aprendido uma grande lição: o mundo funciona como seus pais diziam que funciona. A boa notícia, porém, é que essa engrenagem deixou de funcionar assim.

    A demanda, agora, não é tanto por trabalho, mas por ideias originais. Nós acabamos de viver uma mudança política sem precedentes. A diferença entre a era de trabalho da Segunda Guerra Mundial e a atual é que os seres humanos não são mais meros substitutos das máquinas. Agora, buscamos uma experiência mais profunda e completa em nossas vidas profissionais.

    Um dos heróis desta linha de pensamento é Elon Musk, CEO da Tesla e o 70º mais rico do mundo segundo o ranking FORBES, com patrimônio de US$ 15,6 bilhões. Ele é o tipo de empresário que não fica dentro da caixa, focado em apenas uma coisa. Ele tem sido chamado de “generalista especialista” – mas, na prática, esta é uma designação complicada para um polímata que aplica seu conhecimento a problemas de negócios. E ele não está sozinho.

  • Os polímatas: empreendedores que não se acomodam

    O mundo está cheio de personalidades com inclinação para a experimentação e para a aventura com formação em artes e ciências – e interesses diversos. Elas frequentemente não se encaixam em nosso modelo corporativo, então o empreendedorismo e as artes costumam ser seu refúgio.

    Kenneth Mikkelsen, filósofo e coach de liderança, fala sobre o neo-generalista – a pessoa que é tanto “especialista quanto generalista, frequentemente capaz de dominar múltiplas disciplinas”. Ele sugere algumas perguntas para identificar este tipo de profissional: “Você encontrou dificuldades ao descrever o que você faz para outras pessoas… rotulou-se para ser compreendido?” e “Como você vive uma vida com sentido se você vive em mais de um mundo?”.

    A sociedade louva os polímatas do passado, como os renascentistas que eram, ao mesmo tempo, poetas, artistas, cientistas, inventores etc. Lamenta sua morte, ou a morte de sua normalidade, ou talvez, ainda, da nossa tolerância em relação a eles. O escritor tcheco Robert Twigger escreveu: “Nossa era venera os especialistas, mas humanos são naturalmente polímatas e nosso melhor potencial vem quando direcionamos nossas mentes a muitas coisas”.

    Um exemplo contemporâneo de polímata é Jessica Alba. Não satisfeita em ser apenas uma atriz de sucesso, ela construiu a Honest, empresa de produtos para bebês que hoje vale US$ 1,7 bilhão. Ela é a prova de que a regra implícita de que não é possível ser bonita, comercialmente talentosa e uma empreendedora séria é falsa. Tem, portanto, múltiplas vocações.

    Pode haver um custo econômico para o poli profissionalismo, mas há também significativas oportunidades.

  • A construção da fortuna: a maioria dos milionários é poli profissional

    O livro “O Milionário Mora ao Lado”, de Thomas J. Stanley, compara os tipos de milionários e suas áreas de atuação. Ao contrário do que se pode imaginar, a classe de colarinho branco tem menos milionários, já que, aparentemente, tende a gastar o dinheiro mais rápido do que acumula. São pessoas que dirigem carros da Honda, e não da Tesla. No entanto, um dos segredos para sua fortaleza financeira é que eles frequentemente diversificam suas fontes de renda, que tornam-se, assim, consistentes e à prova de recessão.

    Timothy Ferriss escreveu em seu livro “Trabalhe 4 Horas por Semana” que ter múltiplas fontes de renda protege o empreendedor das mudanças do mercado, escândalos, perdas com fraude e até mesmo incompetência em alguma área específica. No entanto, dificulta a já mencionada tarefa de responder quando alguém pergunta: “O que você faz?”. Na verdade, Steve Pruneau diz: “Essa pergunta é, normalmente, uma tentativa de localizar o seu lugar na hierarquia de status que vale para quem tem um único emprego”. Caso seja respondida sinceramente com “várias coisas diferentes”, há a tendência de passar a impressão de “não fazer parte da hierarquia”.

    Por outro lado, os famosos empreendedores – aqueles que todos nós queremos ser (não meramente ricos, mas conhecidos por isso) – são normalmente focados em uma única coisa. Eles vão fundo e, quando alcançam seu objetivo ou conseguem dinheiro, diversificam seus investimentos para proteger sua riqueza. Mas há outra motivação para isso, que é o interesse apaixonado por alguma coisa que não é explicada meramente por gestão de riqueza. A disposição do ator Ashton Kutcher para investimentos, por exemplo, é notória. Mas há outra motivação, que não é explicada meramente pela gestão de dinheiro. É um interesse que mistura vocação e paixão por alguma coisa. Matt Damon está à frente do projeto Greenlight e sua campanha por água limpa. Elon Musk faz tanto da Tesla quanto da SpaceX empresas incrivelmente lucrativas, ao mesmo tempo em que tenta transformar o transporte em si com foco em ferrovias.

  • Preconceito: as mulheres estão traçando o caminho para todos nós

    A atriz Hedy Lamarr foi uma pin-up da Segunda Guerra Mundial. Porém, ela era também uma intelectual, que inventou e patenteou a técnica de “salto de frequência” com uma aplicação em torpedos controlados via rádio. A Marinha ridicularizou sua ideia e disse a ela para ir embora e usar sua aparência para levantar dinheiro para a guerra. Afinal, ela não podia ser bonita e fazer bem qualquer outra coisa. Hedy fez, então, o que sugeriram. Mas os militares usaram sua ideia de torpedos controlados por rádio, sem o salto de frequência – a iniciativa tornaria-se, mais tarde, um item de tecnologia de ponta.

    Há um rancor em relação a pessoas que são bem-sucedidas em mais de uma coisa. Você pode ser o CEO que canta razoavelmente nas festas do escritório, mas não pode se tornar um artista sério e ainda comandar uma empresa.

    Não estamos mais na era da Segunda Guerra Mundial, mas talvez as mulheres tenham sido as maiores defensoras da diversificação. A ícone de Wall Street Sallie Krawcheck fala sobre a pressão social da escolha: você quer ser uma boa mãe ou ter uma carreira? Em uma sociedade de classe corporativa, ainda não é totalmente tolerado ter as duas vidas. A grande questão, diz ela, é: “Eu não posso ter tudo?”.

    Sheryl Sandberg, COO do Facebook e criadora do “Lean In”, um manifesto para a ambição feminina, fala sobre como a pressão encoraja as mulheres a largar tudo em vez de responder com um “Sim” em alto e bom som. Por que é tão inaceitável ser, ao mesmo tempo, artista e empreendedor, mãe e empresária, vencedora de um concurso de beleza e empreendedora? Por que é tão ruim dizer “eu faço várias coisas” e “não, algumas não são hobbies, eu levo cada uma delas com seriedade”?

    Um ícone vivo, Jack Dorsey, CEO do Square e do Twitter, encara muitas críticas por não escolher um ou outro. Ele não quer escolher. Já Steve Jobs é considerado um “gênio visionário” por ter comandado tanto a Pixar quanto a Apple. Isso indica que a diversificação é vulnerável a críticas até que você alcance status em tudo o que você fizer. Mas essa jornada não vem em dose única.

  • Jornada: nem um prato pré-aquecido, nem pronto para comer

    É um mito achar que cada um de seus interesses tem de ser um mero hobby ou algo comercialmente viável. As coisas não são viáveis até que são – é uma jornada.

    O trabalho extra não é apenas um caminho viável para buscas múltiplas – é um caminho inteligente. Daymond John construiu a marca de roupas FUBU enquanto esperava por uma mesa no restaurante Red Lobster. Ele diz que o “trabalho do dia” é exatamente o tipo de estratégia de proteção de risco que os investidores milionários fazem. A segurança não vem de um título facilmente definível que pode afundar com um simples tremor da economia. Um exemplo é Travis Kalanick – apesar de ser o gênio empreendedor que é, o cofundador e CEO da Uber, que criou a empresa e uma disruptura na nova economia, está de saída do mundo dos negócios por causa de um escândalo que se tornou viral. Segurança não é status. Segurança é ter múltiplas cartas na manga. Ironicamente, a segurança também pode ser sinônimo de felicidade.

  • Felicidade: onde está a evidência?

    Não há nenhuma evidência de que aqueles que fazem apenas uma coisa são mais felizes do que aqueles que fazem várias. “Encontre uma coisa que o faz feliz, e faça isso.” A questão é: nós não estamos autorizados a encontrar as três ou quatro coisas que nos fazem felizes e desenvolvê-las? Por que “um” é o número mágico? Na verdade, muitas pessoas se tornam infelizes justamente pelo contrário: por terem deixado de lado sua arte ou outras ideias de negócios simplesmente porque era isso que “deveriam” fazer.

Status: uma situação que está mudando de forma

Jack Ma posicionou-se contra uma tradição profundamente enraizada quando fundou o Alibaba, inicialmente um pequeno negócio que fez dele o homem mais rico da China. Ele não cresceu por meio dos processos tradicionais da sociedade e a universidade não o ajudou a seguir uma carreira tradicional. Seus primeiros experimentos de negócios falharam. No geral, ele era visto como um “perdedor” que não aceitava a hierarquia padrão que deveria ser seguida para obter status e sucesso. Ma continuou a quebrar as regras como CEO do Alibaba. Quando vendeu 40% ao Yahoo, não gastou muito de seus US$ 25 bilhões em itens de alta visibilidade (apesar de ter investido em um jato). Ele deixou de ser CEO e virou membro do conselho e, nesta condição, continuou a perseguir seu interesse em pôquer, meditação e tai-chi, além de leitura e escrita de ficções de kung-fu. Em outras palavras, ele nem mesmo aproveitou sua riqueza da maneira esperada.

Há uma razão primária para a ideia de que os indivíduos devem ser definidos com base em um único interesse: a partir do momento em que eles podem confortavelmente ser poli profissionais, cria-se uma ameaça à dominância daqueles que consolidam o controle. Status é meramente o mecanismo de recompensa e de execução para a conformidade da definição de um profissional padrão. Porém, ele não paga as contas – e também não cria inovação. O status gera resistência e problemas em áreas onde a pressão por novas ideias cresce. Felizmente, hierarquias profissionais que dão status estão, cada vez mais, enfraquecendo.

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