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Lançamentos da Apple apontam para um futuro sem iPhones

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Com as novas tecnologias da gigante criada por Steve Jobs, as pessoas poderão, em breve, dispensar seus smartphones (Getty Images)

O evento da Apple realizado nesta terça-feira (12) apresentou o produto mais esperado do ano, o novo iPhone X: uma deslumbrante peça da tecnologia com performance fantástica, design preciso e tela OLED de tirar o fôlego. Mas, enquanto todos estavam ansiosos pelo que Tim Cook definiu como “o maior avanço da empresa desde o iPhone original”, um outro anúncio da companhia ganhou o status de mais importante. Obviamente, os novos smartphones da marca ainda venderão dezenas ou centenas de milhões de unidades e serão responsáveis por grande parte do lucro da Apple nos próximos anos. Mas, além de todas as maravilhas do iPhone X, ele ainda é uma placa de vidro e metal que você coloca em suas mãos. A Apple já está olhando para o dia em que essa não será mais a maneira como as pessoas vão interagir com seus dispositivos.

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Pode até parecer, hoje, uma ideia radical considerando os mais de 1,2 bilhão de iPhones vendidos e a possibilidade de a Apple atingir a marca de US$ 1 trilhão no próximo ano, mas o futuro poderá ser diferente. E isso faz com que o novo Apple Watch, com uma rede próprias de dados, seja o real produto a ser observado nos próximos meses e anos. Os resultados que ele pode trazer em 2018 devem aparecer em pequenas ondas, mas a Apple está pronta para causar um tsunami de mudanças na comunicação a partir da próxima década.

A Apple já está olhando para o dia em que a maneira como conhecemos hoje de interagir com os nossos dispositivos não será a mesma

Dizer que o Apple Watch não tem sido um sucesso de vendas é subestimá-lo. A ideia de que o produto não foi bem-sucedido é contraditória, pois cerca de 30 milhões de unidades foram vendidas até então e é provável que cerca de 1 a cada 20 usuários de iPhone já tenham o seu. Enquanto os críticos insinuam que ninguém gosta do Apple Watch, a companhia afirma que a satisfação dos consumidores é de 97% – assim como de outros produtos da marca.

E é preciso lembrar que a Apple nem sempre foi bem-sucedida. O software já passou por revisões significativas desde que o primeiro Watch foi apresentado, em 2015. Na verdade, o OS original foi um desastre com muitos paths e pouca performance. Mas tudo isso ficou para trás graças à interface aperfeiçoada, à melhoria significativa da velocidade e ao sucesso da Apple com as próprias funções do Watch: monitoramento fitness, notificações e o Apple Pay, por exemplo.

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Claro, ele também estava atrelado ao iPhone, com poucas capacidades independentes. O “Apple Watch Series 3” vai oferecer uma melhor performance e uma nova tela OLED, com duas vezes mais brilho do que o “Series 1”. Surpreendentemente, ele suporta não apenas o 4G LTE, mas também UMTS, a variante 3G que substituiu o GMS e que já foi o padrão mais popular do mundo em mobile. Isso dá ao Apple Watch acesso a resultados de redes celulares ao redor do mundo, apesar de, inicialmente, ser limitado para apenas alguns países.

O produto será capaz de fazer e receber ligações, transmitir músicas da nuvem, mandar mensagens por meio de qualquer aplicativo presente no celular, fornecer acesso à internet e ainda terá a Siri. Ele é melhor do que você pode esperar graças ao pequeno microfone, frequentemente capaz de fazer um ditado ou uma mensagem de texto completa sem erros.

A Apple afirma que a bateria tem capacidade para 18 horas e uma quantidade adequada de ligações e serviços de música. O “Apple Watch Series 2”, normalmente, poderia durar dois dias com uma única carga – e raramente acabava de forma inesperada. Isso significa um retrocesso na performance e provavelmente vai gerar recarga ocasional no meio do dia.

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Dizer que o Apple Watch não tem sido um sucesso de vendas é subestimá-lo (Getty Images)

A chave para fazer do Watch uma substituição do celular, entretanto, já havia sido anunciada: os AirPods que são, provavelmente, os melhores headphones com wireless em termos de experiência de usuário. Com o Apple Watch e os AirPods nos ouvidos, a liberdade para se mover é muito maior do que antes. Além disso, o peso nunca foi tão pequeno na era do smartphone.

A Apple já apostou, entretanto, que poderia reinventar a informática e não foi tão bem-sucedida. A ideia de que os iPads iriam substituir os computadores era algo erto em 2013, quando 74 milhões unidades do produto foram vendidas. Mas esse número ficou abaixo de 43 milhões no último ano – uma queda súbita quando comparada à queda sofrida por computadores no mesmo período (de 365 milhões em 2011, as vendas caíram para 270 milhões). Apesar de a Apple não ter abandonado o iPad, é justo afirmar que as vendas de 2013 são agora algo muito distante.

Mas o iPad foi uma aposta em 2010, depois de mais de 25 anos do Macintosh, que provou que o paradigma da informática mudaria para o modelo touchscreen da companhia, pioneira três anos antes com o iPhone. E a teoria estava, em grande parte, correta, pois os smartphones substituíram os computadores para muitas pessoas.

O iPad não foi a primeira vez que a empresa ficou no limbo. Apenas depois de três anos da apresentação do Mac, em 1984, a Apple começou a trabalhar em seu primeiro computador tablet, o Apple Newton. Até suas mudanças em 1993, esse foi o produto mais arriscado, em um esforço de empurrar a tecnologia para além do que era possível até então. O reconhecimento de escrita no Newton era péssimo, a tela era muito simples e o produto foi considerado uma catástrofe.

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Steve Jobs dispensou o Newton em 1998 e mais 12 anos foram necessários para que o iPad fosse lançado. Essa década torna o Apple Watch especificamente fascinante. Já passaram 10 anos desde que o “celular que mudou tudo” chegou. Espera-se que o iPhone continue a ser o produto mais importante da gigante pelos próximos 10 anos.

As vendas de smartphones continuam sendo impressionantes, com cerca de 1,5 bilhão de unidades anualmente. A Apple consegue cerca de um sexto deste total e pode, facilmente, continuar a ter um desempenho parecido quando as remessas forem maximizadas no próximo ano. Entretanto, a categoria quase não consegue crescer dada a natureza finita da população e o fato de que quase todo adulto já terá um smartphone em breve.

O que vem em seguida ainda é um assunto de muito debate, mas a indústria chegou em um consenso sobre a realidade aumentada – a imposição de gráficos e imagens do mundo real. Ela tem uma potencial tão grande quanto a revolução dos smartphones. A Apple tem um suporte de realidade aumentada excelente com o novo iOS 11, mas ainda seria preciso olhar para o celular para ter acesso a isso.

Essa tecnologia vai funcionar bem agora, com jogos inteligentes e alguns aplicativos fascinantes, prontos para serem lançados em breve. Mas a realidade aumentada será ideal por meio de algum tipo de óculos – pense em uma versão ótima e muito atraente do Google Glass. Entretanto, a tecnologia da Apple para torná-los possíveis ainda não está pronta.

Um Apple Watch com funções de celular, entretanto, e headphones com wireless são o futuro. E eles acenam para um mundo no qual o iPhone é opcional, pelo menos por um tempo. A Apple está fazendo algo possível e no melhor espírito do Vale do Silício: faça diferente antes que alguém faça. O fato disso estar mudando o produto mais bem-sucedido da história é monumental.

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