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Os bilionários australianos que criam ferramentas mais inteligentes

James Horan

Mike e Scott, os bilionários fundadores da Atlassian (James Horan)

Recém-saído de um voo noturno vindo de São Francisco, Mike Cannon-Brookes entra num espaço de escritórios alugado no centro de Manhattan para fechar o maior negócio da história de sua empresa. Vestido com uma camiseta do Detroit Tigers e um boné azul, ele saúda a sala com um ondulante sotaque australiano. Sentados em volta da mesa de conferências estão executivos de sua empresa de software de colaboração, a Atlassian, que está na reta final para adquirir o Trello, concorrente menor cujo fundador, Michael Pryor, também está presente. Durante quatro horas, Cannon-Brookes expõe incansavelmente a importância de ganhar escala e as vantagens de unir as empresas rivais.

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Pryor se convence. Um mês depois, no início de 2017, a Atlassian adquiriria oficialmente o Trello numa transação de US$ 425 milhões que desencadeou uma alta de 47% no valor das ações em quatro meses e acrescentou US$ 820 milhões às fortunas de Cannon-Brookes e de seu cofundador, Scott Farquhar. Os australianos de 37 anos, que se vestem mais como surfistas em horário de folga do que como executivos de alto nível, têm um patrimônio de US$ 2,6 bilhões cada um.

Essa ascensão superou enormemente o modesto objetivo da dupla quando a Atlassian foi fundada, em 2002: evitar uma vida de labuta em TI corporativa. “Nossa aspiração era não ter um emprego de verdade”, Farquhar admite, “e não precisar usar terno”. Com essas metas atingidas, eles alcançaram também alguns marcos adicionais: uma IPO arrasadora em 2015, receitas anuais perto de US$ 600 milhões e o status de uma das startups de tecnologia mais bem-sucedidas da história da Austrália.

Os fundadores, que atuam em conjunto como executivos-chefes da Atlassian, reconhecem com franqueza a improbabilidade de sua ascensão meteórica. “Acho que estamos totalmente aquém das habilidades e da experiência necessárias para o nosso trabalho”, diz Cannon-Brookes, impassível. No entanto, apesar da humildade, eles criaram, sem sombra de dúvida, uma empresa disciplinada, com presença mundial em constante expansão. O que começou como o Jira, uma ferramenta de monitoramento de bugs para desenvolvedores de software, transformou-se, de lá para cá, numa dúzia de produtos de colaboração usados por muitos dos inovadores mais proeminentes do mundo, como Nasa, Snap, Twilio e Spotify.

A Atlassian tem 85 mil clientes que pagam uns poucos dólares por pessoa por mês para terem acesso aos softwares dela. O Confluence, software de compartilhamento de conhecimentos para equipes, é o mais procurado depois do Jira. Entre os outros produtos estão o Bitbucket, repositório online para o armazenamento de código, o Bambo, interface de fluxo de trabalho técnico, e o Hipchat, serviço de mensagens concorrente do Slack. O Trello, a última adição, é uma ferramenta de gestão de projetos que ajuda a Atlassian a atrair ainda mais pessoas físicas e equipes menores e menos técnicas.

Essencialmente, a Atlassian assumiu a missão nada glamourosa de preencher lacunas organizacionais e de comunicação. Se o back-end parece árido, os aplicativos são tudo menos isso. Quando desenvolveu o software que está na base do carro elétrico da Tesla, Elon Musk recorreu à Atlassian. A SpaceX está usando softwares da empresa para coordenar equipes de programação e cientistas de foguetes, e a Nasa contou com eles para ajudar a planejar a missão da sonda Curiosity em Marte. A lista de clientes vai além: Airbnb, BMW, BlackRock, Sotheby’s, PayPal, as oito universidades mais tradicionais dos EUA e 85% das 100 maiores empresas do país.

A tecnologia da Atlassian foi parar em Marte

Esse sucesso foi alcançado apesar da insistência de Farquhar e Cannon-Brookes em driblar as regras do setor. A Atlassian não tem pessoal de vendas, algo inédito no hipercompetitivo mundo dos softwares empresariais. E, numa era em que alguns líderes tecnológicos dirigem mais de um empreendimento bilionário (Jack Dorsey, Elon Musk), os cofundadores são uma dupla que chama a atenção por comandar uma única entidade.

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Até agora, o crescimento veio fácil, mas há pressão sobre a Atlassian – que registrou um lucro de apenas US$ 4,4 milhões no ano passado – para provar que está à altura de sua capitalização de mercado de US$ 8 bilhões. E, enquanto ela se aventura para além de sua competência principal, os concorrentes estão muito ativos. Startups menores, como Slack e Asana, estão comendo a participação de mercado pelas bordas, ao passo que gigantes como a Microsoft representam uma ameaça constante vinda de cima.

Farquhar e Cannon-Brookes começaram a vida com trajetórias distintas. Brookes, filho de um banqueiro de investimentos inglês, passou grande parte da juventude voando entre Sydney e um luxuoso internato britânico. Comprou seu primeiro computador usando milhas aéreas e decidiu, por capricho, seguir carreira em tecnologia, após ser aceito num programa de bolsas de estudos em administração e ciência da computação na Universidade de Nova Gales do Sul.

Farquhar cresceu numa família com muito menos recursos. A mãe trabalhava na Target e depois no McDonald’s. O pai, num posto de gasolina. Ele adquiriu seu primeiro computador – um modelo Wang que mal funcionava – quando a empresa do pai descartou o aparelho. Chegou à Universidade de Nova Gales do Sul no mesmo grupo de bolsa de estudos, um dos poucos alunos que recebiam um valor anual de cerca de US$ 9 mil.

Apesar das diferenças, a dupla desenvolveu afinidade logo de cara. “Ele parecia ser muito gente boa”, diz Cannon-Brookes. Mas passaram a maior parte de seus anos de faculdade trabalhando em projetos diferentes: Brookes em startups medianamente bem-sucedidas, e Farquhar como um infeliz estagiário numa empresa de consultoria em tecnologia.

Finalmente se associaram no último ano da graduação, quando Cannon-Brookes enviou um e-mail a um grupo de colegas, em busca de parceiros para uma nova startup. Farquhar, ávido por evitar outro emprego em consultoria, foi a única pessoa a aderir.

Depois de formados, trabalharam para cultivar clientes sob o nome Atlassian – nome tirado do titã grego Atlas, que sustenta os céus. Porém, o modelo de suporte terceirizado se mostrou difícil de ampliar, então testaram uma série de outros projetos: uma ferramenta de arquivamento de e-mail, um produto de gestão do conhecimento e o Jira, criado para ajudar programadores a monitorar bugs de software.

O Jira foi o primeiro a ganhar território, então eles descartaram as outras ideias e mergulharam de cabeça. Havia só um modelo de negócio possível. “Para começo de conversa, nosso software não fazia muitas coisas, então não podíamos vendê-lo por um valor alto”, explica Farquhar. “Se você não vende por um valor alto, precisa vender muitas unidades. Para vender muitas unidades, ele precisa ser vendido mundialmente. E, se você vende mundialmente, ele precisa se vender online.”

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Assim, a Atlassian colocou o Jira na internet e deixou que os clientes o encontrassem por conta própria. Um dos primeiros foi a American Airlines, que comprou mil dólares em software sem sequer falar com a equipe da Atlassian.

O enfoque no baixo custo deu à empresa um fluxo de caixa positivo desde o princípio, permitindo que eles investissem em pesquisa e desenvolvimento e pagassem os primeiros contratados em dinheiro, em vez de abrir mão de participação na empresa.

Sustentada pelo crescimento orgânico, a Atlassian não tomou capital externo até 2010, quando a Accel Partners investiu US$ 60 milhões, com avaliação estimada em US$ 400 milhões. Na rodada seguinte – uma injeção de US$ 150 milhões liderada pela T. Rowe Price em 2014 –, a avaliação tinha saltado para US$ 3,3 bi. Os CEOs despretensiosos, com seus cabelos despenteados, viraram bilionários. No ano seguinte, a empresa abriu o capital com uma capitalização de mercado de US$ 4,4 bi, e as fortunas deles se avolumaram ainda mais.

Getty Images

Mike e Scott alguns “bilhões de dólares” atrás (Getty Images)

Os fundadores fazem pouco de sua riqueza, mencionando a geração de empregos como valor mais importante. Contudo, desmentindo sua imagem pública de desapego, Brookes especula em Bitcoins e investe em projetos relacionados à sua paixão pela ficção científica, como os nanossatélites. Em março, ele buscou mitigar a crise energética da Austrália do Sul com a ajuda de Elon Musk, numa iniciativa de alta visibilidade no Twitter, na tentativa de importar uma central de baterias de 100 megawatts-hora (plano que, por uma série de motivos, não deu em nada até agora). De seu lado, Farquhar pagou US$ 52 milhões por um imóvel de 154 anos de idade em Nova Gales do Sul com sete dormitórios e quadra de tênis à beira-mar; consta que foi a compra de residência mais cara da Austrália em todos os tempos.

Com dinheiro para uma vida inteira, os dois estão focados em fazer da Atlassian uma ferramenta indispensável que catalisará inovações mais profundas da próxima geração. A aquisição do Trello é apenas a primeira fase de um plano mestre. “Daqui a dez anos ainda seremos jovens”, diz Brookes. “Nós pensamos no mundo em termos de décadas”.

AGENTES DE MUDANÇAS GLOBAIS

Estes líderes empresariais globais estão transformando setores e vidas ao redor do mundo. Para entrar na lista, precisam dirigir operações com fins lucrativos que estão crescendo e inovando mais que seus pares. As empresas devem ter valor de mercado de, no mínimo, US$ 1 bi

  • MUKESH AMBANI
    60 anos, presidente da Reliance Industries (Índia)
    CONECTIVIDADE
    O magnata indiano do setor de petróleo e gás entrou no mercado de telecomunicações e está levando internet barata para as massas.

  • JEFF LAWSON
    39 anos, fundador do Twilio (EUA)
    APLICATIVOS MÓVEIS
    Permitiu que cerca de 40 mil clientes, inclusive gigantes como Airbnb, aprimorassem seus aplicativos com mensagens de voz, texto e vídeo.

  • KEN FRAZIER
    62 anos, CEO da Merck (EUA)
    TRATAMENTOS PARA CÂNCER
    Quando assumiu, a Merck estava assolada por escândalos. Agora rivaliza com a Bristol-Myers Squibb numa nova classe de medicamentos para o câncer.

  • LARRY FINK
    64 anos, cofundador da BlackRock (EUA)
    GESTÃO MONETÁRIA
    Com US$ 5,4 trilhões em ativos, Fink pressiona conselhos de administração por melhor remuneração dos executivos, divulgação de riscos climáticos e diversidade.

  • ADAM NEUMANN
    38 anos, cofundador da WeWork (EUA)
    ESPAÇO DE ESCRITÓRIO
    Aluga espaço de coworking com benefícios como salas de jogos eletrônicos e barris de cerveja em 44 cidades ao redor do mundo. “A conexão humana é mais importante.”

  • EVAN SPIEGEL
    26 anos, cofundador do Snap (EUA)
    REDE SOCIAL
    Cativou o mundo com as mensagens de foto e vídeo que desaparecem. O Snap tem 158 milhões de usuários diários ativos que checam o aplicativo 18 vezes por dia.

  • ZIV AVIRAM E AMNON SHASHUA
    58 anos e 56 anos,
    cofundadores da Mobileye (Israel)
    AUTOMÓVEIS
    Estão tornando os carros inteligentes e seguros. A Mobileye é líder em sistemas de condução assistida baseados em câmeras. Usam dados de milhões de veículos para que eles “aprendam” a tomar decisões.

  • JOHN E PATRICK COLLISON
    26 e 28 anos, cofundadores da Stripe (EUA)
    PAGAMENTOS DIGITAIS
    Graças aos irmãos da Irlanda, ficou fácil para comerciantes aceitarem pagamentos móveis e online. A Stripe processa bilhões de transações. Seu novo produto, Atlas, ajudará países como Cuba a entrar no comércio eletrônico.

  • STEWART BUTTERFIELD
    44 anos, cofundador do Slack (EUA)
    WORKPLACE COMMUNICATION
    A plataforma de mensagens Slack está evoluindo para ser um sistema nervoso corporativo. Próximo passo: tirar proveito da inteligência artificial para automatizar tarefas de escritório tediosas.

  • TAAVET HINRIKUS E KRISTO KÄÄRMANN
    36 anos, cofundadores da TransferWise (Reino Unido)
    TRANSFERÊNCIAS DE DINHEIRO
    Usam tecnologia ponto a ponto para desafiar os maiores bancos do mundo no ramo de transferência de dinheiro, um setor de US$ 3 trilhões.

  • ROBERT KATZ
    50 anos, CEO da Vail (EUA)
    RESORTS DE ESQUI
    Transformou a Vail numa empresa mundial de esqui com novos pontos, de Vermont à Austrália, e marketing orientado por dados, ao estilo dos cassinos. O passe de temporada com acesso total, ao valor baixo de US$ 859, está esmagando os concorrentes.

  • HAMDI ULUKAYA
    44 anos, fundador da Chobani (EUA)
    IOGURTE
    O imigrante turco popularizou o iogurte grego nos EUA. Hoje fatura US$ 1 bilhão. Ulukaya doou um décimo do capital da Chobani a seus funcionários e vem contratando refugiados ativamente.

  • CHRISTO WIESE
    75 anos, presidente da Steinhoff (África do Sul)
    COMPRAS COM DESCONTOS
    Wiese voltou seus olhos para áreas rurais de baixa renda e levou para lá seus produtos do dia a dia com preços muito baixos. Criou o maior império varejista da África, com 11 mil lojas.

  • GABE NEWELL
    54 anos, cofundador da Valve (EUA)
    VIDEOGAMES
    Em 2004, lançou a plataforma de distribuição digital Steam, que se tornou um dos canais de vendas mais importantes do setor de videogames. É pioneiro em realidade virtual.

  • ZHOU QUNFEI
    47 anos, fundadora da Lens Technology (China)
    DISPLAYS
    Começou numa fábrica quando adolescente e foi selecionada pela Motorola em 2003 para substituir as telas de plástico. Desenvolveu as telas de vidro superfinas dos iPhones. Ficou bilionária.

  • MOHAMMED BIN SALMAN
    31 anos, segundo príncipe herdeiro (Arábia Saudita)
    ENERGIA
    Está reinicializando a economia da Arábia Saudita ao tomar medidas para desmamá-la do petróleo, inclusive com elevação de impostos, redução de subsídios e corte dos benefícios exagerados dos funcionários públicos. Também está liderando a iniciativa da maior IPO em nível mundial: a da gigante petrolífera estatal Aramco.

  • JAMES DYSON
    70 anos, fundador da Dyson (Reino Unido)
    ELETRODOMÉSTICOS
    Inventou um aspirador de pó sem saco antes de voltar a atenção aos secadores de cabelos, ventiladores e, agora, baterias. Sucesso recente: um aspirador movido a bateria que levou 17 anos para ser finalizado.

  • JOHN OVERDECK (f) E DAVID SIEGEL
    47 e 55 anos, cofundadores da Two Sigma (EUA)
    FUNDOS DE HEDGE
    Nerds que criaram o fundo de hedge de crescimento mais rápido do planeta, usando algoritmos para detectar padrões. Gerenciam US$ 46 bilhões.

  • SCOTT FARQUHAR E MIKE CANNON-BROOKES
    37 anos, cofundadores da Atlassian (Austrália)
    PRODUTIVIDADE EMPRESARIAL

  • MICHAEL RAPINO
    51 anos, CEO da Live Nation (EUA)
    ENTRETENIMENTO
    Rei da música ao vivo. Realizou concertos em 40 países no ano passado e domina a venda de ingressos através da Ticketmaster. Tomou conta de festivais, como Lollapalooza, e está por trás de grandes turnês, como as do U2, Madonna e Jay Z.

  • JUDY WENHONG TONG
    46 anos, CEO da Cainiao (China)
    LOGÍSTICA
    Ex-secretária, é a mente por trás de uma vasta rede colaborativa usada pela Alibaba e outras. Entrega 57 milhões de encomendas por dia.

  • PAULO CESAR DE SOUZA E SILVA
    61 anos, CEO da Embraer (Brasil)
    AVIAÇÃO
    Pioneiro de um modelo de terceirização hoje amplamente usado, que consiste em pegar peças de empresas como GE e Honeywell e fazer a montagem no Brasil. A empresa domina o setor de aviões da região com seus elegantes e espaçosos E-Jets, que são vendidos para 70 companhias aéreas de 50 países.

  • DAVID KONG
    62 anos, fundador da Nirvana
    Asia (Malásia)
    FUNERAIS
    Num continente com fome de espaço, Kong vende minúsculos compartimentos para restos mortais em columbários enfeitados onde os parentes podem prestar homenagens e até fazer uma refeição.

  • ANNE WOJCICKI
    43 anos, cofundadora da 23andMe (EUA)
    EXAMES GENÉTICOS PESSOAIS
    A Administração de Alimentos e Medicamentos dos EUA chegou a ordenar que ela parasse de vender seus exames. Mas Wojcicki reverteu a decisão.

  • CHENG WEI
    34 anos, fundador da Didi Chuxing (China)
    TRANSPORTE SOLIDÁRIO
    Salvou a China do domínio do Uber. “Foi uma batalha épica”, diz Wei, uma versão mais humilde de Travis Kalanick. A Didi conquistou 300 milhões de usuários e acaba de acrescentar US$ 5 bi de financiamento a seu orçamento.

MUKESH AMBANI
60 anos, presidente da Reliance Industries (Índia)
CONECTIVIDADE
O magnata indiano do setor de petróleo e gás entrou no mercado de telecomunicações e está levando internet barata para as massas.

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