Estilista vegana luta para banir o uso de peles e vencer indústria bilionária

Anna Tagliabue passou os últimos anos trabalhando com o objetivo de provar o conceito de que a pele sintética pode parecer de luxo (Getty)

Ativistas dos direitos dos animais são visitas frequentes de desfiles de moda ao redor do mundo há décadas. Eles invadem as apresentações de estilistas que usam peles de animais verdadeiras e, antes de serem removidos pelos seguranças, protestam com cartazes contra a crueldade envolvida na nessa indústria.

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O argumento é válido. Segundo o PETA, ONG de proteção aos animais, milhares de animais, no caso de coelhos, um bilhão, são mortos anualmente e sofrem com a crueldade desse mercado. Cerca de 85% das peles utilizadas são de animais que vivem presos em gaiolas de fazendas especializadas e morrem eletrocutados para preservar a pele ou, até mesmo, esfolados ainda vivos.

Um terço das peles comercializadas nos Estados Unidos é proveniente de animais mortos de forma cruel. Essa indústria também é prejudicial ao meio ambiente e à saúde humana, devido ao risco de vazamento de dejetos dos animais e dos produtos químicos utilizados no tratamento das peles.

Mas, agora, esses ativistas andam nas passarelas como modelos. A estilista Anna Tagliabue, fundadora da Pelush, uma startup de peles falsas de luxo em Manhattan (EUA), tem promovido uma revolução no segmento.

Geralmente, peles sintéticas são associadas a produtos baratos feitos de poliéster e de náilon. Anna trabalha para mudar essa ideia, com casacos coloridos espetaculares, cheios de detalhes manuais, rendas e vidros brilhantes, que, além de parecer com pele real, tem a mesma textura. “Podemos reproduzir qualquer tipo de pele atualmente”, diz a estilista. “Não há mais pretextos para usar pele verdadeira.”

Apesar de a Pelush, que significa pelúcia em francês e em italiano, ter sido lançada oficialmente em 2014, o conceito da marca foi pensado durante cerca de duas décadas. Tudo começou quando Anna se mudou da Itália para os Estados Unidos para o seu primeiro emprego, no departamento de peles da famosa Fendi, onde trabalhou por oito anos. O pensamento da estilista mudou quando presenciou um protesto do Peta e se identificou com a causa.

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Logo após o incidente, Fendi lançou o primeiro casaco de pele sintética da marca, o que entusiasmou Anna. Com o sucesso de vendas, a Fendi decidiu banir o uso de peles. “Assim que eu vi e senti a ‘pele’ do casaco, me apaixonei. Parecia verdadeira e, em vez de custar US$ 45.000, era vendida por US$ 7.500.”

Encantada com o casaco, Anna passou os 18 anos seguintes em busca de algo similar. Há cinco anos, solicitou a ajuda do amigo e mentor, o renomado estilista de alta costura Antonio Grimaldi, que a levou a Paris e lhe mostrou um outro lado do negócio da moda.
“De cinco anos para cá, as peles sintéticas ficaram ainda mais sofisticadas. Hoje, conseguimos reproduzir o toque da chinchila perfeitamente. Quando a pele sente o casaco, a sensação é a mesma de uma pele verdadeira, mas sem a crueldade.”

Devido a relatos de produtos que contém pelagem de cães, gatos e outros animais, a Pelush se certifica de escolher as peles sintéticas de melhor qualidade de fornecedores da Europa. “O problema hoje é o fast fashion, que faz produtos muito baratos com esse tipo de pele. Nós precisamos nos educar a consumir menos, de forma mais inteligente e nos certificar de que o fabricante é ético e comprometido.”

Anna passou os últimos três anos na construção de uma forte estrutura para a Pelush, com o objetivo de provar o conceito de que a pele sintética pode parecer de luxo. Os preços variam entre US$ 995 a US$ 10.000, conforme o nível de detalhamento e a exclusividade da peça. A estilista criou o negócio sozinha. Após muita procura, encontrou um pequeno ateliê em Nova York para criar as peças enquanto formava uma rede de clientes, de olho na elegância e no glamour sem comprometer seus valores éticos.

Getty
Anna Tagabue no desfile da Pelush na Semana de Moda de Nova Iorque (Getty)

As semanas de moda de Nova Yorks nos últimos dois anos trouxeram destaque e influência para a marca. Recentemente, a Pelush fez uma performance no Fitzgerald Ballroom, com a participação de ativistas de idades variadas e da atriz Missy Hargraves. O desfile exibiu peças de diversos tipos de pele, além de trazer um cão, gato e coelho na passarela, como forma de incentivar a adoção de animais. O desfile terminou com todos os participantes removendo as roupas, para expressar a poderosa mensagem de que pele é vida.

Segundo representantes da Federação Internacional de Peles, a indústria gira valores em torno de US$ 40 bilhões. Para Anna, o sucesso de artigos de pele retornou porque a casa de leilão escandinava Saga Furs começou a dar esse tipo de material para estudantes de moda, novos designers e celebridades.

Atualmente, muitos donos de lojas e marcas de moda rejeitam pele verdadeira devido à uma iniciativa da Fur Free Alliance, uma organização que trabalha com grifes para incentivá-las a cessar o uso e venda de produtos de pele. Empresas como a Gucci, Armani, Zara e Hugo Boss fazem parte dessa lista.

Celebridades em busca de uma alternativa de luxo sem crueldade também começam a notar a Pelush. Muitos artistas, como o ator Dame Helen Mirren e a musicista Esperanza Spalding, foram vistos com peças da marca.

Hoje, Anna está em busca de um investidor para crescer sua marca. O plano da estilista é ajudar a banir, definitivamente, o comércio de peles verdadeiras no mundo.

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