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Jeffrey Tucker sobre o bitcoin: “O status quo tenta resistir às novidades”

Reprodução/FORBES

Tucker é investidor e sócio administrativo da empresa de investimentos Vellum Capital, além de ter fundado a CryptoCurrency Conference, um dos primeiros eventos da década de 2010 a reunir as mentes mais influentes do setor de criptomoedas. (Reprodução/FORBES)

Em 2008, em Wall Street, enquanto a crise financeira assolava os Estados Unidos e uma dívida de US$ 600 milhões esmagava irreversivelmente o banco de negócios Lehman Brothers, foi lançado um documento de nove páginas, com bibliografia, em um fórum de internet. Dez anos mais tarde, o livro criador da mais famosa das criptomoedas, “Bitcoin: A Peer-to-Peer Electronic Cash System”, ainda pode ser consultado livremente na rede. Seu autor, porém, parece ter desaparecido.

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Assumindo que tenha de fato existido, de Satoshi Nakamoto não se sabe nada além de um endereço de email. Há quem defenda que se trata de um pseudônimo, atrás do qual se esconde um grupo de especialistas. Existe, por outro lado, quem jure ter trocado mensagens com o homem a quem é atribuída a criação da criptomoeda. Essa é a tese de alguns dos protagonistas de “Banking on Bitcoin”, filme de Christopher Cannucciari e Phillip Galinsky que documenta a gênese das criptomoedas dos primeiros anos da década de 2000 até hoje.

Jeffrey Tucker, autor especializado em Bitcoin e diretor editorial do centro de pesquisas American Institute for Economic Research, está entre os protagonistas do documentário sobre o nascimento da criptomoeda. Tucker é também investidor e sócio administrativo da empresa de investimentos Vellum Capital, além de ter fundado a CryptoCurrency Conference, um dos primeiros eventos da década de 2010 a reunir as mentes mais influentes do setor de criptomoedas.

Veja, a seguir, os principais trechos da entrevista feita por FORBES com o especialista.

FORBES: Satoshi Nakamoto já respondeu a algum email seu?

Jeffrey Tucker: A minha primeira correspondência sobre o tema do Bitcoin remonta a setembro de 2010. Pessoalmente, nunca consegui trocar uma palavra com qualquer um que se chamasse Satoshi. Não sei quem é ou quem foi.

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FORBES: O autor do protocolo Bitcoin nunca existiu?

Tucker: Satoshi é o inventor do sistema subjacente ao Bitcoin. Poderia ser certamente o autor ou, por que não, a autora. Mas acredito que se trata de um pseudônimo criado por uma dezena de desenvolvedores. É uma prática muito comum.

FORBES: De qualquer maneira, eles não foram os primeiros a imaginar a moeda de internet…

Tucker: Não foram os primeiros, mas foram certamente os pioneiros na realização de um sistema que conferisse confiança a quem troca moedas virtuais em rede. No fundo, todas as tentativas anteriores fracassaram porque ninguém havia encontrado um modo de garantir que um bem em rede pertencesse a apenas uma pessoa e não fosse reprodutível. As pessoas hoje entenderam que a tecnologia blockchain resolveu esse problema, graças ao uso de uma rede de validação difusa e descentralizada.

FORBES: Hoje se escreve Bitcoin e se lê investimento. A ideia original não era a de substituir o euro e o dólar nas compras cotidianas?

Tucker: Mais do que substituir as moedas correntes, os desenvolvedores pretendiam oferecer uma alternativa aos mercados financeiros regulados pelos governos. O objetivo era e permanece sendo acrescentar ao quebra cabeças da internet aquilo que faltava: uma moeda que nascesse na rede e para a rede, com o objetivo de incluir no mundo financeiro grandes faixas de populações excluídas até então dos mercados tradicionais liderados pelos bancos.

FORBES: Não estamos então assistindo ao fracasso do projeto original?

Tucker: Do jeito que está estruturado hoje, o Bitcoin não conseguirá suplantar as moedas tradicionais. As criptomoedas sofrem fundamentalmente com dois problemas: as pessoas que possuem um portifólio de Bitcoin tendem a não gastá-los porque esperam um aumento do preço; e as tarifas associadas às transações ainda são muito altas.

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FORBES: O Bitcoin nasce em resposta à crise do sistema financeiro tradicional. Hoje, porém, parece ter se tornado um outro sistema financeiro. Estamos assistindo à nemesis do Bitcoin?

Tucker: O ouro também sempre foi considerado como um bem de refúgio durante as crises financeiras. Atualmente, as criptomoedas se tornaram um instrumento para preservar a riqueza de atores como governos, bancos centrais e autoridades, e estão cumprindo um papel fundamental.

FORBES: Enquanto Jamie Dimon, a cargo do JPMorgan, definia os Bitcoins como “uma fraude”, o banco adquiria moedas no mercado. Qual é a razão pela qual o Bitcoin parece ser, ao mesmo tempo, vítima de ataque e fonte de valor?

Tucker: Os ataques de Jamie Dimon refletem a atitude conservadora da velha guarda. Como ocorre com frequência, o status quo tenta resistir às novidades. Isso ainda acontecerá por anos. Ao mesmo tempo, as novas gerações consideram essa tecnologia como uma grande oportunidade para aproveitar. O dinheiro fala, sempre. E muitas pessoas estão enriquecendo graças às criptomoedas.

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