A ascensão da indústria multibilionária do futebol na China

Hoje, das 16 Super Ligas Chinesas, apenas quatro têm programas juvenis estabelecidos

Atualmente, centenas de escolas privadas de futebol na China treinam e avaliam a próxima geração de jogadores, aqueles que logo carregarão, sobre os ombros, as aspirações do país na Copa do Mundo.

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Por uma grande quantia, os venerados clubes europeus levam seus planos de jogo para a China: são treinadores e equipes, além da recriação de ambientes que buscam introduzir os jovens esportistas chineses às culturas futebolísticas que cresceram organicamente do outro lado do mundo.

A política da Associação de Futebol Chinesa vai solicitar que todos os times nas duas principais ligas, Super Liga Chinesa e a Liga da China 1, coloquem seus jogadores de sub-19, sub-17, sub-15, sub-14 e sub-13 em campo para disputar uma competição organizada pela AFC até 2019. O sistema acadêmico negocia as oportunidades que estarão disponíveis nessas equipes juvenis.

Hoje, das 16 Super Ligas Chinesas, apenas quatro têm programas juvenis estabelecidos. É provável que, durante a organização desses programas, muitos clubes façam parcerias com as escolas de futebol para recrutar jogadores para seus grupos de desenvolvimento, acredita Mário Castro, treinador em Xangai para o Toulouse FC, um clube da Liga Francesa 1 que tem um acordo com o SPHQ FC, em Shenzhen, para gerenciar programas de jovens.

Cultura de exportação

As escolas de futebol da China desenvolvem, atualmente, modelos de negócios que incluem acordos entre clubes internacionais e locais, academias especializadas no esportee e grupos esportivos de desenvolvimento. Outros estabelecimentos estão apenas assinando contratos de marca: a The Ronaldo Academy, que começou no início de 2015, é uma série de institutos administrados por uma equipe de treinadores e administradores chineses. A escola pagou para usar o nome da estrela do futebol brasileiro.

“Estou pronto para ajudar a China a realizar seu sonho no futebol”, disse Ronaldo, ao anunciar as escolas no Estádio dos Trabalhadores, em Pequim. “Eu acho que o país pode ser muito importante no cenário mundial um dia.” O ex-jogador voltou para o Brasil em seguida e não teve mais envolvimento com a entidade.

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Mas muitos clubes europeus oferecem programas completos. Na indústria de futebol profissional já robusta do continente, exportar os modelos de treino para a China, onde as marcas já são reconhecidas, abre novas possibilidades de receita e de desenvolvimento. Alguns desses clubes se tornaram marcas globais que ainda não exploraram as possibilidades de lucro de sua popularidade internacional.

O italiano Inter de Milão foi o primeiro a entrar no mercado chinês, em 2015, quando as regulamentações nacionais se tornaram mais simples, permitindo que escolas de esporte internacionais se estabelecessem no país. O time criou escolas junto com seu parceiro chinês, o Suning Sports Group, e agora comanda quatro delas, 59 programas escolares para jogadores de 4 a 18 anos e cinco centros de treinamento regionais, onde a equipe técnica do Inter de Milão instrui 30 treinadores chineses.

No fim de 2017, o clube alemão Ajax anunciou um acordo com o Guangzhou R&F, da Super Liga Chinesa, para uma parceria de “milhões de euros” por cinco anos. A entidade concordou que a Ajax Coaching Academy, um dos melhores programas juvenis da Europa, gerenciasse um grande centro em Guangzhou para jogadores chineses promissores.

Crescimento

A Toulouse FC é uma das escolas comandadas por clubes mais novas e que cresce mais rapidamente na China. O Toulouse iniciou a parceria com o SPHQ FC, de Shenzhen, em 2016.

Castro, um dos treinadores do clube em Xangai, cresceu jogando futebol em Portugal e treinou times profissionais por anos, até ir para a China trabalhar com jovens jogadores. Além de Castro, a equipe consiste de um treinador espanhol, um treinador chinês e três funcionários administrativos, que comercializam, anunciam, desenvolvem produtos para jovens, mercadorias e fazem a coordenação da filial internacional do Toulouse FC.

Os jogadores de Castro são jovens, das categorias sub-8 e sub-10. Muitos deles fantasiam sobre jogar no nível mais alto, outros estão lá porque os pais querem um currículo “diversificado” para a universidade. Esses jovens idolatram esportistas que alcançaram a fama na Europa (Lionel Messi, Cristiano Ronaldo e Zlatan Ibrahimovic são alguns deles) e assistem mais a futebol europeu do que chinês.

Todo mês de julho os times visitam a França e, duas vezes por ano, funcionários de Toulouse vão à China para checar os times da parceria. A indústria, pelo menos no país asiático, é uma solução temporária. O objetivo é que os técnicos e as equipes não sejam mais necessários um dia. “No futuro, com os jovens times inseridos nos clubes, esses programa devem acabar”, diz Castro.

Ninguém tem certeza de quando isso irá acontecer. Novas restrições sobre os times elaboradas pela AFC, apesar de terem a intenção de ajudar o esporte a crescer, afetam o crescimento enquanto fazem efeito. Para que a instituição alcance as metas, muito bem divulgadas, precisa de crianças jogando no nível mais competitivo frequentemente, mas o sistema de escolas ainda falha em garantir que um número considerável de jovens pratique o esporte durante a quantidade de tempo necessária.

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