Fraude da ex-bilionária Elizabeth Holmes é maior do que se imaginava

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Elizabeth abrirá mão de 18,9 milhões de ações da companhia, perderá o controle de voto e se comprometerá a pagar uma multa de US$ 500 mil – além de ficar impedida de liderar uma empresa pública por 10 anos. (Getty Images)

Elizabeth Holmes é uma fraude ainda maior do que se pensava. A Comissão de Títulos e Câmbio dos Estados Unidos (SEC) acabou de acusar a jovem de 34 anos de dolo relacionado às alegações que a ex-bilionária fez sobre sua empresa de teste de sangue, a Theranos. Para resolver o caso, Elizabeth abrirá mão de 18,9 milhões de ações da companhia, perderá o controle de voto e se comprometerá a pagar uma multa de US$ 500 mil – além de ficar impedida de liderar uma empresa pública por 10 anos. Elizabeth continuará, no entanto, como CEO da Theranos, que, sob o esquema fraudulento descrito pela SEC, levantou US$ 700 milhões.

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O braço direito de longa data de Elizabeth, Sunny Balwani, de 52 anos, também está sendo acusado de fraude, embora não esteja mais na empresa.

O esquema da Theranos, descoberto pelo jornalista do “Wall Street Journal” John Carreyrou, parece ainda pior do que se pensava. FORBES reportou em 2016, quando Elizabeth foi retirada da lista de bilionários, que as vendas eram muito menores do que a empresa fazia os outros acreditarem. Segundo a SEC, quando a Theranos alegava que tinha vendas anuais de US$ 100 milhões, elas estavam em apenas US$ 100 mil. Elizabeth e Balwani alegaram que o Departamento de Defesa estava utilizando a tecnologia da Theranos em helicópteros de extração médica – mas não era verdade.

As supostas mentiras se acumulam. De acordo com a entidade que regulamenta o mercado norte-americano de capitais, a Theranos disse, em 2010, a uma empresa identificada como “Pharmacy A” – mas que, claramente, trata-se da Walgreens, segunda maior operadora de farmácias dos Estados Unidos – que seria capaz de realizar quase qualquer exame de sangue em suas máquinas até o fim daquele ano, utilizando gotas retiradas de picadas no dedo dos pacientes, em vez de agulhas. No ano seguinte, os executivos da farmácia começaram a se preocupar com o fato de que o dispositivo de Elizabeth talvez precisasse ser aprovado pela agência federal Food and Drug Administration (FDA). Mas não se deram conta da escala de sua decepção.

Em 2013, ano em que o miniLab – nome da máquina da Theranos – deveria ser lançado na “Pharmacy A”, ele não estava nem perto de estar pronto. Foi quando Balwani e Elizabeth ordenaram que seus engenheiros começassem a usar máquinas de outras empresas, de formas não autorizadas, para analisar amostras coletadas das picadas nos dedos dos pacientes, diz a denúncia. Ao que tudo indica, a Theranos nunca foi clara sobre isso com os executivos da cadeia farmacêutica.

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Nessa época, Elizabeth e a Theranos fizeram repetidas – e exageradas – declarações aos jornalistas, incluindo repórteres de FORBES, “Fortune”, “Wired” e “Wall Street Journal”, sobre as habilidades de uma máquina que nem existia. O miniLab da Theranos podia fazer, àquela altura, apenas 12 testes, diz a SEC, e não 90% de todas as possibilidades existentes em um exame de sangue como Elizabeth pregava. As descrições da “Fortune” sobre a máquina que diziam o contrário foram pessoalmente aprovadas pela executiva, diz a reclamação da SEC.

As apresentações da companhia para os investidores dependiam fortemente do carisma de Elizabeth. Mas a denúncia da SEC também diz que eles receberam pastas com relatórios que pareciam ter sido escritos por empresas farmacêuticas que haviam trabalhado com a Theranos, mas que, na verdade, haviam sido elaborados pela própria Theranos.

Há ainda a questão que preocupou os executivos da Walgreens: se a Theranos precisava ou não da aprovação do FDA (similar à Anvisa no Brasil). Elizabeth dizia repetida e insistentemente que a empresa não era obrigada a tê-la, mas que estava buscando o registro como parte de sua estratégia. Mas, segundo a SEC, o FDA teria sinalizado, em 2014, que os testes da companhia precisavam sim de aprovação – mais um exemplo de que um processo de comunicação mais transparente e público entre a agência e as empresas traria inúmeros benefícios aos investidores.

Elizabeth provavelmente não vai ficar rica com esse esquema devido a um fato percebido por FORBES há algum tempo: seus investidores preferiram ações, e a avaliação de mercado da Theranos teria de passar dos US$ 750 milhões antes que a participação da executiva valesse qualquer coisa. A decisão da SEC de aceitar o acordo é um indicativo de que a Theranos vale muito menos do que isso. Os investidores enganados, em algum momento, avaliaram a companhia em incríveis US$ 9 bilhões. E essa era toda a fonte do patrimônio de Elizabeth.

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No fim, a SEC classifica o esquema como extraordinariamente descarado, e enfatiza que não importa quão espertos sejam os investidores em relação às empresas privadas – eles correm muito mais risco do que os acionistas de empresas públicas, obrigados a contratar auditores e lidar com o controle detalhado de seus negócios. Elizabeth Holmes se apresentava como uma revolucionária da tecnologia. No fim, ela era qualquer coisa menos isso.

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