CEO da Jaguar Land Rover fala sobre o mercado de carros de luxo

Frédéric Drouin em seu escritório, em São Paulo

Ele não vende carros, vende sonhos. O franco-suíço Frédéric Drouin, desde março de 2017 presidente da Jaguar Land Rover para América Latina e Caribe, já assimilou o slogan das poderosas marcas que comanda a partir de seu confortável escritório, em São Paulo. “Os sonhos”, diz ele, “são a força que move a humanidade.”

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E foi movido pelo sonho de voltar a morar no Brasil que ele trocou o cargo de presidente da Peugeot na Suíça – e a boa vida em Zurique – pela capital paulista. Drouin já morou na Alemanha, Holanda, França, Estados Unidos… Há 20 anos, veio para cá pela primeira vez para dirigir, por três anos, o marketing da Peugeot. “Gostei muito do Brasil, e acho que o Brasil gostou de mim”, afirma.

O sonho de dirigir e possuir carros da Jaguar Land Rover ele já tinha realizado. “Sempre gostei deles como cliente. Quando fui entrevistado pelos executivos do grupo, contei que os principais momentos da minha vida eu passei a bordo desses carros.” O desejo agora era outro. “Eu já estava com 51 anos, queria um novo capítulo na minha vida profissional.”

Casado com uma venezuelana que conheceu durante um voo de 45 minutos entre a França e a Alemanha – e que também, segundo ele, gosta de São Paulo –, o executivo “produziu” dois filhos brasileiros e dois alemães. Confira a seguir os principais trechos da entrevista que Frédéric Drouin concedeu a FORBES.

FORBES Brasil: Na hora de aceitar o cargo, você não pensou “Como é que eu vou vender Jaguar em um país como o Brasil, nessa crise”?

Frédéric Drouin: Não. Eu sei que existe um mercado forte para produtos de luxo no Brasil e na região. Claro que é um mercado pequeno, mas que deve crescer na medida em que a economia se recuperar.

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De que tamanho é esse mercado?

Na Europa e nos Estados Unidos, o mercado premium representa 10% das vendas totais. Aqui, estamos em 2%. Vai demorar para chegarmos aos 10%, mas certamente nesse intervalo temos um grande potencial. Até porque hoje há mais pessoas com poder aquisitivo suficiente para comprar um de nossos carros – talvez ainda não o fizeram por receio da visibilidade ou porque ainda consideram a carga tributária alta. Mas hoje você consegue comprar um Jaguar a partir de R$ 200 mil, já existe uma demanda reprimida. Os próximos 12 meses [referindo-se às eleições de 2018] vão definir como será o país (e o mercado) nos próximos cinco ou dez anos.

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Alguma carta na manga para conquistar esse consumidor reticente?

Estamos oferecendo aos clientes brasileiros a possibilidade de fazer um modelo sob medida, totalmente customizado, com possibilidades infinitas de criar o “seu” carro, desde a cor, a tapeçaria, os detalhes…

Daqueles 2% do mercado de luxo que você mencionou, qual é sua fatia?

O market share da Jaguar é de 18%, o quarto lugar entre todo o mercado premium. Mas se você fizer um recorte acima de R$ 200 mil, temos 38%; acima de R$ 300 mil, aí temos 45% e a liderança do mercado.

Nossa carga tributária (além do câmbio) explica toda a diferença entre os preços de um mesmo modelo na Europa, nos EUA e aqui?

Sim, sem dúvida. A lucratividade aqui é relativamente baixa. É o custo Brasil…

Lojistas em São Paulo e no Rio dizem que o consumidor brasileiro prefere os modelos top de linha, não importando quanto vão pagar a mais por isso.

Acho que isso vale para outros países também. O consumidor também olha um produto de luxo como investimento, preocupa-se com sua desvalorização (ou mesmo sua revalorização) ao longo do tempo. Com poucas marcas isso é possível – chegar aos 15 ou 20 anos de uso em perfeito estado e valendo até mais do que quando foi adquirido.

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Como encara os avanços das energias alternativas?

Estamos investindo bastante nos modelos elétricos. A partir de 2020, cada carro que lançarmos terá uma versão eletrificada (totalmente elétrica ou híbrida). Já no ano que vem lançaremos os primeiros modelos híbridos. O Jaguar conceitual I-Pace será o primeiro a participar de uma categoria de corrida específica para carros elétricos de linha. A chamada Fórmula E terá dez etapas a partir do fim de 2018. Do Brasil, recrutamos o piloto Nelsinho Piquet.

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Os carros autônomos não vão acabar com o prazer de dirigir um bom carro?

A autonomia virá em etapas. Num primeiro momento, a tecnologia vai ajudar o motorista a minimizar o risco de acidentes. O que existe hoje não vai desaparecer de uma hora para outra. Os modelos clássicos vão conviver com as novas tecnologias por vários anos. Um carro 100% autônomo é algo mais para a frente. Mas, sem dúvida, incluindo o compartilhamento de automóveis e a conectividade, a indústria automobilística está se reinventando. Talvez nos próximos dez anos vejamos mais revoluções que nos últimos 50 anos.

Você é um franco-suíço casado com uma venezuelana e pai de filhos brasileiros e alemães. Que língua falam em casa?

Todas (risos).

E onde sonham passar o resto da vida?

No Brasil, sem dúvida. Apesar das dificuldades, eu admiro a simpatia dos brasileiros, sua alegria de viver, o calor humano, a facilidade das emoções, o fato de não levarem as coisas tão a sério… Acho que as pessoas aqui são eternas adolescentes – e essa é sua força e sua fraqueza.

Como assim?

De vez em quando, esse jeito descontraído pode virar uma certa falta de compromisso, de responsabilidade – por isso digo que é também sua fraqueza. Mas se você chegar com passaporte brasileiro em qualquer lugar do mundo, você é bem-vindo. Poucos países têm esse privilégio.

 

Reportagem publicada na edição 56, lançada em dezembro de 2017

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