Conheça o homem por trás da reinvenção de Miami

Conheça o homem por trás da reinvenção de Miami (Felip Cuevas)
Craig Robins no “olho de mosca” do Miami Design District

Se você foi atraído até Miami nos últimos 25 anos, é grande a chance de o visionário incorporador imobiliário e colecionador de obras de arte Craig Robins ter tido algo a ver com isso, mesmo que você não saiba.

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No início dos anos 1990, se você visitasse em South Beach a fantasia multicolorida de edifícios preservados com afeto, como The Netherland, The Marlin e The Leslie – com seus hotéis modernos e cafés que transbordavam para a rua –, poderia agradecer Robins por isso. O primeiro projeto da Dacra, a incorporadora que ele fundou assim que saiu da faculdade de direito, foi adquirir, reformar e revitalizar mais de duas dúzias desses edifícios art déco até então negligenciados. Ao fazê-lo, Robins fomentou uma comunidade de jovens otimistas e criativos que se uniriam a ele em sua cruzada para fazer de sua cidade natal um lugar cada vez mais interessante. E eles cumpriram a missão.

Se você passou uma noite flanando pela Lincoln Road no fim da década de 1990, viu o efeito catalisador da influência que ele teve na paisagem de lojas e restaurantes quando comprou, reabilitou e alugou espaços de uso misto para criar uma via comercial vibrante para uma cidade que vinha fazendo a transição de mero point de férias para um lugar com vida e personalidade próprias. Como reforço adicional à iniciativa de placemaking, ele construiu o Aqua Allison Island, um empreendimento residencial que envolveu o trabalho de 11 arquitetos jovens e dinâmicos, em colaboração com os urbanistas Andres Duany e Elizabeth Plater-Zyberk.

Ele gerou muito lucro, mas seu maior legado é a reinvenção da identidade de Miami como capital mundial do comércio e da cultura

A ambição do Aqua era conciliar a arquitetura moderna (elegante, mas que, muitas vezes, causa certo isolamento) com o urbanismo centrado na comunidade (eficaz, embora raramente inovador). Robins chegou a plantar mangueiras e bananeiras, com a ideia de que os moradores deveriam desfrutar das dádivas naturais da Flórida, e não só do esplendor criado pelo homem. O resultado foi uma comunidade que agora – mais de dez anos após sua criação – está entre as mais disputadas no panorama residencial de Miami.

E será que você visitou a Art Basel Miami Beach alguma vez desde a estreia, em 2001? Pois Robins (novamente ele) foi providencial ao levar a lendária feira de obras de arte suíça à Cidade Mágica e, em 2005, estabelecer uma joint-venture com a exposição para criar a Design Miami, feira de design formadora de mercado com edições em Miami e na Suíça (há boatos de que um terceiro local será anunciado este ano).

Nada mau para o que podemos considerar como a primeira fase de sua carreira. Mas Robins é um homem que parece ter garra e disciplina de sobra. Sua ideia de descontração é passar duas semanas no Grand Canyon remando 290 quilômetros pelo Rio Colorado num caiaque ou pedalando sua bicicleta da casa que divide em Miami Beach com a esposa, Jackie Soffer, e sua prole mista de seis filhos até Key Biscayne, ida e volta. Antes do café da manhã.

O MAIS AMBICIOSO

Nos últimos 15 anos, o foco concentradíssimo dele foi exercitado em seu empreendimento mais ambicioso até hoje, o Miami Design District. Durante o auge, na década de 1940, esse bairro formado por 18 quarteirões e convenientemente central no panorama muitas vezes enlouquecedor de Miami, com seus bairros tão díspares, abrigava showrooms de móveis. Isso durou até esse setor se mudar em massa para o norte, nos anos 1960. Veio a decadência. No início dos anos 2000, Robins começou a adquirir edifícios malconservados, mas arquitetonicamente seguros, e passou a reconstruir todo o bairro quase do zero, acrescentando a prédios históricos estruturas novas e ousadas de autoria dos escritórios de arquitetura Sou Fujimoto, Aranda/Lasch, Keenen/Riley e Johnston Marklee.

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Robins transferiu a sede da Dacra para o bairro, num escritório amplo, repleto de peças de sua coleção de obras de arte e design – dignas dos melhores museus –, e começou a imaginar a região como um novo destino. “Tivemos muita sorte de contar com colaboradores com a mesma visão a respeito do que o District poderia ser”, disse ele. “Primeiro, vieram as marcas de design europeias, como B&B Italia, Capellini e Kartell. Depois, chegaram as galerias de arte e as exposições temporárias.” Logo se seguiram restaurantes destinos de chefes celebrados, como Michael Schwartz e Michelle Bernstein. Marcas de moda audaciosas, como Christian Louboutin, Marni e Maison Margiela, atreveram-se a abrir lojas lá – apostando no currículo de Robins e também, sem dúvida, atraídas pela possibilidade de fazer experimentos arquitetônicos, livres das limitações dos espaços pequenos. “Essas marcas queriam uma oportunidade de expandir sua visão criativa – apresentar sua coleção inteira num ambiente ao qual podiam dar vida com uma arquitetura e um design que refletissem sua estética. E o varejo – em especial o de Miami – tinha se tornado suficientemente dinâmico para justificar uma presença maior. Ficamos muito contentes em oferecer a eles espaços e total liberdade.”

Em 2011, Robins vendeu uma porcentagem de sua participação no Design District à L Catterton Real Estate, empresa de investimentos imobiliários pertencente, em parte, ao guru do luxo Bernard Arnault, presidente da LVMH. “Ao me ligar à L Catterton, eu fui extremamente afortunado – encontrei os colaboradores perfeitos para concretizar uma visão bastante ambiciosa. Foi um desses casos em que um mais um é muito mais do que dois – está mais para cinco. Através da rede de contatos deles com marcas de luxo, nós pudemos construir relacionamentos muito rapidamente e apresentar nossa visão do Miami Design District”, conta. Dois outros investidores, entre os quais a operadora de shopping centers GGP, acabaram se juntando a eles. O alcance e os talentos complementares dos sócios aceleraram o ritmo de mudanças.

FAST FORWARD

Avanço rápido para o momento atual: abrigando hoje mais de 60 lojas-conceito de todas as marcas de luxo dignas de nota, quase duas dúzias de restaurantes, dois museus (muito sérios) de arte contemporânea e um sem-número de peças de arte e design expostas ao público, o Miami Design District é um dos principais candidatos a destino mais sofisticado do mundo – e é um sucesso tanto de crítica como em termos comerciais. A peça Elastika, de autoria da falecida arquiteta Zaha Hadid, ganhadora do Prêmio Pritzker, estende-se pelo átrio do histórico Moore Building, resultado do prêmio de Designer do Ano recebido por Hadid na Design Miami de 2005. O australiano Marc Newson projetou para a Dash, escola pública de ensino médio do bairro, uma cerca de um quarteirão de comprimento que parece ondular e confundir a vista do observador a partir de qualquer ângulo. Uma redoma “olho de mosca” ao estilo de Buckminster Fuller é a âncora do espaço Palm Court – que é rodeado de joalherias e relojoarias de luxo, da Bulgari à Van Cleef & Arpels, conta com diversos restaurantes e recebe a série de apresentações mensais gratuitas produzida por Emilio Estefan (leia mais sobre a importância de Emilio e Gloria Estefan para a cidade em FORBES Life, nesta edição).

E assim por diante: uma Hermès de 900 metros quadrados com a linha completa de cristais St. Louis. Uma Gucci de vários andares com todo tipo de produto, de aerados trajes de noite a desmedidos moletons masculinos com bordados. O Instituto de Arte Contemporânea de Miami, com seu tranquilo jardim de esculturas ao ar livre. O OTL, café hipster onde é provável que você veja Jennifer Lopez pegando um café com leite de soja antes de seguir para a MiuMiu ou para a Tom Ford para um ajuste. O Mandolin, um bistrô grego onde figurões de Miami fecham negócios sob uma pérgula folhosa enquanto degustam polvo grelhado. A sorveteria alcoólica Aubi & Ramsa. A expressão máxima da Givenchy, Christian Dior e Louis Vuitton. Pode-se dizer, sem medo de errar, que o District está atingindo sua plenitude.

BOM NEGÓCIO

Esse impressionante grau de diversidade e criatividade é um bom negócio. “Eu queria fazer do Design District um destino onde tudo – a arquitetura, as compras, os restaurantes, as experiências – fosse o mais especial possível”, observa Robins enquanto percorre o mais recente espaço público do District, a vibrante Paradise Plaza.

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“A inovação e a globalização sem dúvida trouxeram vantagens extraordinárias, mas um subproduto disso é que hoje existe uma mesmice no mundo. Eu senti que tínhamos a oportunidade de fazer algo realmente ímpar, que fosse comercialmente inteligente e, ao mesmo tempo, gerasse um benefício social.” (Craig Robins parece ter inspirado as marcas presentes no District a seguir o mesmo enfoque de exclusividade – praticamente todas as lojas, da Panerai à Prada, têm uma oferta de edição limitada que não pode ser encontrada em nenhum outro lugar do mundo.)

Ao longo do caminho, Robins gerou muito lucro para si e para seus sócios. Porém, o maior dividendo de todos talvez seja a reinvenção da identidade de Miami como uma capital mundial do comércio e da cultura. Para esse apaixonado filho da cidade, essa pode ter sido a maior conquista de todas.

EM CASA

Quando você se senta para falar com Robins em sua casa, ele parece mais jovem e mais acessível do que se esperaria, e definitivamente menos sério. A ampla casa da família na Baía Biscayne tem um banheiro projetado por Zaha Hadid com uma peça inteiriça de material branco que desafia a compreensão ao se curvar numa forma que é obviamente uma ducha, embora não se pareça com nenhuma ducha que você já viu. “As pessoas acabam subindo lá quando damos uma festa. Mas não fazem nada escandaloso – geralmente é para tirar uma selfie. Pelo menos, eu não acho que elas façam nada escandaloso.”

Os filhos entram e saem freneticamente, e parecem sentir-se bastante à vontade morando com uma coleção de obras de arte e design que inclui peças dos Irmãos Campana (“Você já foi ao estúdio deles em São Paulo?”, pergunta Robins. “São geniais!”), de Maria Pergay, de Tom Dixon e dos Irmãos Bouroullec, para mencionar apenas alguns artistas de seu acervo.

E qual dos filhos vai seguir os passos dele nos negócios da família? “Pergunta difícil. Nossa filha mais velha trabalhou com nossas atividades de marketing, nossa filha mais nova sabe mais de design do que eu, e todos os nossos filhos parecem ter pelo menos um interesse geral em imóveis. Mas esse é o assunto sobre o qual conversamos no jantar, então talvez seja inevitável.” (A esposa de Robins, Jackie, é incorporadora por mérito próprio, supervisionando a carteira de imóveis comerciais da família, que inclui o Aventura Mall).

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Toco em um assunto mais espinhoso: como ele reage às críticas ligadas ao processo de gentrificação, no qual certamente seu nome pode ser envolvido? “Eu sei que as transformações às vezes podem ser difíceis para algumas pessoas – para cada um que ama algo hoje, deve haver alguém que prefere tudo como era dez anos atrás. Mas as cidades são como organismos vivos – as mudanças são vitais para elas permanecerem saudáveis. Eu espero que as mudanças que incentivamos nos bairros os tenham tornado lugares melhores e que as tenhamos realizado de forma responsável”, explica.

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Craig: “projeto Brasil” adiado

E que lições empreendedores e governantes de uma cidade como São Paulo podem aprender com ele para revigorar um bairro histórico porém degradado como o centro da cidade? “São Paulo é uma cidade bastante dinâmica, com muita energia e criatividade. Não tenho dúvida de que esses bairros de importância histórica podem ser revitalizados. E isso será feito provavelmente por pessoas locais que se importam com sua cidade de forma apaixonada, assim como eu me importo com Miami. Esse orgulho, esse desejo de ver sua cidade otimizar seu potencial são ótimos combustíveis para a transformação. Em South Beach, não se tratou da visão de uma pessoa – não só a minha, nem a do Tony Goldman, nem a do Chris Blackwell [seus parceiros]. Foram muitos jovens, trabalhando todos juntos em nossos próprios projetos e, mesmo assim, encontrando maneiras de colaborar. Foram nossa energia e nossa ambição coletivas que transformaram a região. Nós começamos pela preservação – hoje, é difícil imaginar que aqueles edifícios art déco emblemáticos já estiveram em perigo, mas estiveram. Foram quase demolidos. Na verdade, eu comecei a adquiri-los porque me pareciam esculturas, e achei que deviam ser preservados.” Ele prossegue: “As pessoas costumam supor que há um conflito entre prédios históricos e novas incorporações, mas não concordo com isso. Excelência é excelência, independentemente da safra. No District, temos edifícios históricos e futuristas travando entre si um diálogo visual que deixa o bairro muito mais interessante”.

Sobre o comentário que fez em 2015, de que gostaria de encontrar o projeto certo no Brasil: ainda está procurando? “Estou sempre estudando projetos, é claro. Mas sou muito cauteloso com as coisas a que me dedico. Preciso saber que sou a melhor pessoa para a tarefa, que podemos levar algum benefício exclusivo a um projeto para aprimorá-lo. Nós costumamos nos envolver profundamente em projetos menores por longos períodos, em vez de nos envolvermos de maneira temporária ou superficial em projetos maiores.” Parece que o “projeto Brasil” saiu do radar, ao menos no curto prazo: “O que vem pela frente, para mim, é realmente levar o Design District a cabo, assegurar que todos os nossos colaboradores se beneficiem daquilo que criamos. Foram necessários muitos anos e muitas pessoas para chegarmos até aqui. Acho que o melhor ainda está por vir”.

Veja, na galeria de fotos abaixo, a transformação de Miami:

  • Allison Island em 1927

  • Aqua Allison Island hoje

  • South Beach no início dos anos 1990

  • Lincoln Road revitalizada

  • Hermès, Harry Winston, Louboutin e Tom Ford: parceiras

  • Paradise Plaza: o espaço mais recente

  • “Olho de mosca” e lojas de grife

  • Bistrô Mandolin

  • Peça Elastika, no átrio do Moore Building

Allison Island em 1927

Reportagem publicada na edição 57, lançada em março de 2018

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