Como a Muzik vai enfrentar os fones Beats by Dr. Dre

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A criatividade de Jason Hardi, um inventor em série, é o principal chamariz para os investidores

O astral na sede, em West Hollywood, da Muzik – empresa por trás do autoproclamado “smartphone dos fones de ouvido” – tem, apropriadamente, clima de startup. A única segurança visível parece ser um esquadrão de cãezinhos que perambula pelo espaço aberto. No terraço, o fundador e CEO, Jason Hardi, 41 anos, está sentado em uma cadeira de vime, com os antebraços envoltos por tatuagens. Mas é o nome estampado em sua camiseta preta que diferencia a Muzik de suas congêneres do setor de tecnologia: Kering, a gigante europeia de artigos de luxo, por trás de marcas como Gucci, Saint Laurent e Balenciaga.

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O “fashion statament” de Hardi representa um novo capítulo para sua empresa de seis anos: François-Henri Pinault, herdeiro bilionário e presidente da Kering, foi responsável por quase metade de uma rodada de financiamento de US$ 70 milhões para a Muzik, no segundo trimestre de 2018. Pinault é, sem dúvida, o nome mais importante de um time de investidores de diversas áreas, desde o esporte (Michael Jordan, Ndamukong Suh) até o entretenimento (Drake, Kevin Hart), passando pelas palestras motivacionais (Tony Robbins).

A ideia é unir os fones de ouvido conectados de Hardi – que permitem aos usuários compartilhar músicas via Twitter e Spotify, dois dos principais parceiros – à influência da Kering na moda para criar uma versão incrementada e sofisticada do Beats by Dr. Dre.

“Não queríamos ser apenas inteligentes, queríamos ser sensuais”, diz Hardi. “Achamos que o inteligente é sensual. Não queríamos que as pessoas continuassem a olhar para o chão, com a cabeça no telefone. Queríamos que ficassem com a cabeça erguida.”

A criatividade de Hardi, um inventor em série, é o principal chamariz para os investidores, que têm apostado em sua tecnologia. Hardi obteve mais de 30 patentes e 16 marcas registradas nos Estados Unidos para produtos que vão de fones de ouvido a pingentes eletrônicos para animais de estimação, e tem outras 50 patentes pendentes internacionalmente. Ele projetou pessoalmente o primeiro fone de ouvido de sua empresa, o Muzik One, de US$ 300, que ganhou vários prêmios na CES e teve uma edição limitada de cerca de 10 mil unidades, esgotada em 2016.

A recente infusão de dinheiro conseguida por Hardi – e seus investidores de elite – deve dar à Muzik a munição de que precisa para se lançar no grande mercado com uma ambiciosa série de colaborações. A primeira: um fone de ouvido de marca conjunta com a Gucci, a ser lançado ainda este ano. Pinault e suas marcas Kering virão em seguida.

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“Decidi investir na Muzik porque Jason e eu compartilhamos a mesma visão do que a conectividade e a tecnologia podem trazer para a criatividade”, diz Pinault. “Os produtos e softwares da Muzik têm a capacidade de combinar de forma muito exclusiva o melhor da música, do controle por voz, dos recursos de vídeo e do design.”

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A ideia é unir os fones de ouvido conectados de Hardi à influência da Kering na moda

Hardi começou a mexer com tecnologia para “vestir” ainda na juventude. Nascido em Los Angeles, filho de um contador e uma dona de casa, ele e a família se mudaram para o Upper East Side de Nova York quando ele tinha 10 anos. Para lidar com os problemas no joelho que teve pouco depois, ele criou um sistema de arnês que lhe permitia erguer as pernas a uma altura suficiente para esticá-las corretamente.

Na faculdade, após um fiasco como jogador de tênis do time da Universidade Estadual da Carolina do Norte, ele se concentrou em seu curso superior de finanças e marketing e permaneceu na região de Raleigh depois de se formar. Ao longo dos anos 2000, lançou criações como a OurWorldMusic.com, uma plataforma para upload e compartilhamento de arquivos de áudio; a NovaDine, um serviço online de delivery de comida; e a Worldwide Pet Products, fornecedora de dispositivos eletrônicos para treinamento e rastreamento de animais.

Hardi teve sua primeira grande oportunidade em 2010, quando 50 Cent o convidou para trabalhar em sua linha de fones de ouvido sem fio, a SMS (Studio Mastered Sound) Audio. A dupla se separou amigavelmente, em 2012, e Hardi vendeu sua participação na empresa. Ele se recusa a revelar o preço exato e diz apenas que “não foi o primeiro milhão” que ganhou.

Na Muzik, Hardi adotou um enfoque de “mão na massa” – em todos os sentidos mais genuínos dessa expressão. Esculpiu protótipos de fone de ouvido com argila, com uma faixa de cabeça ajustável, graciosamente enrolada em volta de cada fone, para garantir que o aparelho se encaixasse perfeitamente em qualquer pessoa. Chegou até mesmo a desenhar o logotipo da empresa, uma letra “M” distorcida para se parecer com um par de fones de ouvido, que depois tatuou em seu pulso.

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“A Muzik foi o auge de muitas das minhas experiências passadas, seja na criação de hardware, hardware inteligente ou plataformas”, diz ele. “Nunca entendi porque o fone de ouvido era só um aparelho burro.”

A visão de Hardi foi conceber um smartphone para a cabeça. Depois que a Beats foi vendida à Apple por US$ 3 bilhões, em 2014, e a Fitbit abriu o capital, no ano seguinte, investidores à procura da próxima mina de ouro da tecnologia para “vestir” injetaram dinheiro na Muzik: o astro da NBA Chris Paul fez um aporte, em 2015; seguido pela divisão de capital de risco do Twitter e pelo executivo da Microsoft Steve Guggenheimer, em 2016; por Michael Jordan, no fim do ano passado; e por Pinault, Robbins e Suh, neste ano.

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As receitas anuais recentes da Muzik tenham ficado em torno de US$ 2 milhões

“A tecnologia é a nova vanguarda da moda”, diz Robbins sobre a fé que tem na Muzik. “Acho que você verá isso cada vez mais.”

É claro que a Muzik não é a primeira empresa de fones de ouvido a combinar áudio e moda. A Beats trabalhou com a Balmain, com a Fendi e com Alexander Wang. Mas esses foram experimentos pontuais, e não um vínculo permanente com uma gigante do luxo como a Kering.

Hardi diz acreditar que a jornada da Muzik irá muito além de fazer produtos cujo propósito principal é tocar música. Agora que é socialmente aceitável – e está até na moda – usar um elegante par de fones de ouvido em qualquer lugar, Hardi e seus investidores consideram que este é o momento certo para produtos dotados de tecnologia substituírem ou, pelo menos, aumentarem os recursos de um smartphone.

“Estamos desenvolvendo o que pode se tornar, em última análise, um dos aparelhos conectados mais poderosos do mundo”, diz Hardi. “Ele se conectará com todos os aplicativos e terá ferramentas para os desenvolvedores tirarem proveito da tecnologia que há dentro dele.”

Agora, outros nomes do luxo mais valorizados do mundo estão prestes a adornar a parte de fora dos fones. FORBES estima que as receitas anuais recentes da Muzik tenham ficado em torno de US$ 2 milhões; e a empresa espera “avançar bastante nos oito dígitos” no ano que vem. Mas será que os consumidores vão desembolsar centenas de dólares por um fone de ouvido relativamente desconhecido, apenas por causa da marca sofisticada e de tecnologias que já estão presentes em seus smartphones?

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“Ainda não está claro para mim que as pessoas vão querer todos esses recursos em um fone de ouvido ou se vão saber usá-los”, diz o analista de tecnologia de consumo Ben Arnold, do NPD Group. “Ainda é um pouco cedo”, completa. No entanto, a estratégia da empresa soa como música aos ouvidos de experientes investidores.

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