Como o Facebook nos tornou ratos de laboratório digitais

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Pesquisas de cunho emocional feitas de maneira sigilosa foram retomadas (iStock)

Três anos após um protesto global contra o tratamento dado pelo Facebook a seus usuários, nos mesmos moldes do adotado em ratos de laboratório, o jornal “The Australian” revelou que o escritório australiano da rede social conduziu uma pesquisa emocional secreta, como parte de um estudo de marketing, em 3 milhões de jovens profissionais do país, em 1,5 milhão de universitários com cerca de 21 anos e em 1,9 milhão de estudantes no ensino médio, com idade entre 14 e 16 anos, para estimar quando essas pessoas estão mais vulneráveis e se sentem desvalorizadas e fracassadas.

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Questionado pelo jornal, o Facebook afirmou que todos os dados utilizados na pesquisa “foram acumulados e apresentados de maneira coerente com o sigilo apropriado e proteções legais, incluindo a retirada de qualquer informação pessoal que possa gerar identificação dos indivíduos”.

Segundo “The Australian”, no entanto, apesar da garantia de que os dados permaneceriam anônimos, a rede social declarou que sua pesquisa é confidencial e “não estava disponível para o público” e que “só poderia ser compartilhada sob acordos de não-divulgação”.

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Novamente questionada pelo jornal sobre a razão dessa determinação, ao ser considerado que os resultados encontrados são anônimos e baseados em dados que não trazem nenhuma implicação para a privacidade ou riscos de nenhum outro tipo, a rede social se recusou a comentar mais.

Segundo “The Australian”, a era do big data trouxe uma mudança profunda na ética das pesquisas. Já foi o tempo em que a o comitê de revisão da universidade reunia especialistas para cuidadosamente avaliar propostas de estudos para manter o equilíbrio entre prêmios intelectuais e o risco de exposição dos pesquisados. Hoje, propostas que envolvem conjuntos de dados sobre ciências sociais, especialmente dados de mídias sociais, são rotineiramente isentos de análise ou simplesmente não submetidos aos comitês.

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De acordo com o jornal, a reação negativa, em 2014, por conta dos estudos do Facebook parece não ter impactado na conduta da rede social nas outras pesquisas desse tipo. Assim, algo que sempre aconteceu de forma sigilosa ficou ainda mais invasivo, já que o foco se tornou apenas publicitário, sem considerar em como essas ações são recebidas pelo público e pela comunidade científica.

Em sua resposta ao jornal, o Facebook disse que o estudo do “The Australian” também não foi submetido a uma revisão ética. O jornal afirma que a rede social declarou que realiza processos disciplinares e outros do gênero segundo critérios próprios. Em declaração oficial para a mídia, no entanto, o Facebook se referiu ao incidente como um pequeno “descuido”.

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O resumo, segundo “The Australian”, é que o Facebook enfatiza ter um processo rígido de revisão ética e que precisa emitir aprovação para qualquer pesquisa interna da rede social de natureza delicada a seus usuários, mas, mesmo assim, dois funcionários usaram seus acessos privilegiados para pesquisar sobre os momentos de maior vulnerabilidade emocional de jovens, sem nunca terem submetido suas pesquisas à revisão e à autorização do Facebook, e que isso não foi considerado uma violação do protocolo, o que exigiria suspensão imediata e revisão dos estudos, mas apenas um “descuido”.

De acordo com o jornal, o mais preocupante é que a rede social também se negou a comentar se conduziria um levantamento de acesso a suas ferramentas de análise para determinar se existe algum outro projeto de pesquisa similar à que foi realizada ou que não passou por uma avaliação ética.

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“The Australian” diz que, se o Facebook enfatiza que ainda não utilizou seus dados emocionais como ativo para selecionar propagandas mais eficazes, também se nega a comentar se utilizará esse tipo de recurso no futuro. Segundo o jornal, também não quis comentar se enxerga contradição no fato de ter uma política de publicidade que afirma que “propagandas destinadas a menores não podem promover produtos, serviços ou conteúdos que explorem ou exerçam uma pressão indevida nesse grupo de idade”, e manter a prática de conduzir pesquisas para determinar quando uma criança está em seu momento emocional de maior vulnerabilidade e mais sugestionável.

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