Merci, Catarina de Médici!

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É consenso entre os estudiosos da história da gastronomia a importância de Catarina

A cozinha é um lugar masculino? Quando avaliamos a sucessão de nomes que simbolizam a gastronomia e suas tendências, temos de concordar: a cozinha é território dos homens. Mas o epicentro dessa deliciosa saga tem uma mãe: a italiana Catarina de Médici. É consenso entre os estudiosos da história da gastronomia a importância de Catarina. Seus feitos fizeram com que a cozinha francesa ganhasse influência direta da italiana, além de estabelecer o ritual de uma refeição com requinte nos mínimos detalhes.

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Na França do século 16, ela se tornou rainha consorte ao se casar com o príncipe Henrique, em 1533. A corte francesa nunca mais foi a mesma. Catarina de Médici, a exigente aristocrata de Florença não só revolucionou a cozinha francesa, até então nada estrelada, como também a cartilha de como se portar à mesa.

Catarina cresceu no clã mais sofisticado da Itália entre os séculos 15 e 17: a poderosa Casa dos Médici, na região da Toscana. Ser convidado para uma de suas festas era a glória. Seus integrantes, além do pulso forte na política, no comércio de produtos têxteis e nas operações monetárias, praticavam o mecenato nas artes e na arquitetura. Impulsionaram o Renascimento italiano e encomendaram muitas obras a Michelângelo. Ergueram alguns dos mais belos projetos de Florença, como as Gallerie degli Uffizi, o Palazzo Pitti, o Giardino di Boboli e o Belvedere. Em casa, a família usufruía sua dolce vita deixando no passado os banquetes típicos da era medieval, um tanto rústicos, para valorizar a estética e o refinamento. Nesse cenário, Catarina foi criada. Aos 14 anos, casou-se com Henrique, da mesma idade. A cerimônia, em Marselha, foi cintilante. O bolo com vários andares decorados impressionava. Os nobres franceses nunca tinham visto nada igual. Logo incorporaram a novidade.

O apetite da rechonchuda rainha era dos maiores. Ela levou para a França cozinheiros e confeiteiros, além de novos ingredientes – alcachofras, trufas e cogumelos –, e instituiu os caldos concentrados na abertura das refeições. Italianíssimo, o marreco com laranja foi adaptado para o pato com laranja. A apresentação ainda mais valorizada das frutas à mesa e o uso de legumes nos caldos de carne foram algumas das inovações que ganharam o título de “à la Renaissance”, em homenagem ao clã da soberana. Seus banquetes sofisticados guardavam o grand finale – sobremesas desconcertantes para a realeza francesa, verdadeiras joias que desconheciam. A influência italiana amadureceu o que depois passou a ser conhecido como pâtisserie. Os doces eram feitos apenas com mel. Como uma nova lei, Catarina e seus confeiteiros impuseram o açúcar. E alguns doces italianos ganharam cidadania francesa, como o macaron e o profiterole.

Além de dar vida à gastronomia francesa, Catarina ensinou a receber e a tratar uma refeição como ocasião realmente especial. Seus súditos passaram a lavar as mãos antes de sentar à mesa. Foi ela quem mostrou a importância do garfo e dos demais talheres esculpidos em metal, das belas porcelanas e das toalhas bordadas, conjunto que dava um charme extra ao encontro. Esses detalhes mudaram o comportamento e a performance social dos franceses.

A vida de Catarina fora de sua cozinha e de seus jantares, no entanto, foi indigesta. Ela estava longe de ser a favorita do marido – ao contrário da amante, Diana de Poitiers, que tinha o rei nas mãos. Ele morreu cedo, e seus três filhos se tornaram monarcas. Mas nenhum deles deu voz ativa à mãe (e também morreram jovens).

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Catarina viveu até os 69 anos. Deixou como legado o desenvolvimento das artes culinárias na França, sem talvez nunca ter executado uma receita. Criou novos hábitos – as famílias da nobreza, e depois da burguesia, passaram a contratar chefs. Regiões inteiras do país passaram a identificar sua culinária típica. E a França ganhou um novo produto de exportação: sua gastronomia.

Coluna publicada na edição 60, lançada em julho de 2018.

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