Vou passear no Japão, medo eu tenho é da China

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A China atua com paciência estratégica, mas vai longe

As férias de verão (aqui para nós, no Hemisfério Norte) estão chegando. Estou animado com o passeio que farei ao Japão, país desorientado, envelhecido, com uma juventude com fama de letárgica e uma economia estagnada há duas décadas.

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Eu também envelheço, embora ainda seja uma pessoa entusiasmada. Minha última visita ao Japão foi há três décadas, a trabalho, fazendo reportagens para a Folha de S.Paulo. Eram os tempos da invasão japonesa no mundo, o samurai que conquistava até os EUA. Para que atacar Pearl Harbor? Mais fácil comprar o Rockefeller Center.

Na virada do século, a China controlava 4% da economia global, e os EUA, 31%. E hoje?

Pois bem, a espada do samurai enferrujou. Mas estou viajando demais. Meu foco é um país mais focado, mais orientado, mais vibrante e mais ameaçador, ali da vizinhança. Claro que estou falando da China. Sei que, em termos meramente empresariais, deveríamos ver a China como uma oportunidade e não como ameaça.

Meu negócio, porém, é mais amplo. Estou nada animado com o leninismo de mercado de Pequim, que parece ser avassalador, enquanto aquele samurai da Quinta Avenida, hoje na Casa Branca, dá estocadas a torto e a direito.

Donald Trump está na posição que costumava ser definida como a de líder do mundo ocidental. No entanto, ele está com a corda toda (no pescoço), desfazendo o sistema tradicional de alianças e acordos multilaterais que tanto beneficiaram seu próprio país e o mundo no pós-guerra.

Trump é o presidente do “eternamente agora”, com atenção focada no tuíte que está para disparar. A China atua com paciência estratégica (e, com ranço comunista, tem aquela coisa de plano quinquenal). Mas vai longe. Os chineses têm estratégias para 2018, 2025 e 2050.

Nenhum plano secreto, embora eu considere tudo inquietante. O projeto é desbancar os EUA como maior superpotência global econômica e geopolítica. Há também a ambição de uma nova revolução cultural: democracia é uma balbúrdia ineficiente, melhor o comando centralizado e autoritário. Hoje em dia, menos coletivo e mais em torno de um homem forte, encarnado em Xi Jinping.

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A China despeja dinheiro, comércio e infraestrutura em todos os continentes (até na Antártica) para ocupar o espaço negligenciado pelos EUA, hoje conduzidos pelo arauto da America First. Os chineses investem na Iniciativa Cinturão e Rota, enquanto o antiquado sistema de aeroportos, pontes, estradas e eletricidade definha nos EUA (eu que o diga, como motorista e passageiro).

Os números são estonteantes. A China cresce três vezes mais que os EUA e, em questão de anos, vai superar a Trumpland. Basta ver uma comparação: na virada do século (ou milênio, se preferirem), a China controlava 4% da economia global, e os EUA, 31%. E hoje? A China fica com 15% e os EUA, com 24%.

E quem vai peitar os chineses com seu exército de 1,3 bilhão de consumidores? As oportunidades econômicas exigem um ajuste ao modelo chinês, e a indignação moral fica abafada.

Tudo é mais inteligente e implacável no projeto chinês a longo prazo. Pelo plano 2050, a ideia é dominar as tecnologias futuristas em robótica, inteligência artificial, aviação e veículos autônomos. Enquanto isso, Trump se dirige para o século 19, concentrado em salvar as minas de carvão. Seu pendor protecionista poderia gerar um ótimo slogan para a campanha de reeleição: Make America 1929 Again.

Aos 64 anos, Xi Jinping não precisa se preocupar com essas “frescuras” eleitorais. Obviamente, existem conchavos e intrigas palacianas em Pequim. No entanto, Xi consolidou seu poder e desponta como presidente vitalício, com boas chances de pelo menos estar à frente do timão (linguagem maoísta) até a implementação do plano 2025.

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Xi, sim, pode bravatear um slogan trumpista e anunciar que fará a China Great Again. Quanto a mim, sigo ansioso para ir ao Japão – um país que me fascina, mas que não mete medo.

Coluna publicada na edição 60, lançada em julho de 2018.

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