Por que bibliotecas dependem mais de investimentos do que de livros

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É difícil não exagerar a importância da biblioteca. Quando entrei, era o capitão do meu destino, mas a bibliotecária era uma navegadora fiel, guiando-me para praias distantes

Quando eu tinha cerca de nove anos, meus pais finalmente me permitiram ir à biblioteca sozinho. Foi um grande acontecimento na época, pois envolveu um passeio de bicicleta de 8 km para a cidade ao longo de estradas secundárias. Valeu a pena. Como morador da região, eu tinha meu próprio cartão de biblioteca, e isso significava que eu poderia dar uma olhada em até cinco livros de cada vez. Para um garoto de fazenda do Meio-Oeste, era como se o mundo inteiro estivesse aberto diante de mim. De graça.

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Para ser justo, a biblioteca não era realmente gratuita. Meus pais, como todos no condado, pagavam impostos. Uma parte desse dinheiro ia para a biblioteca. Mas como era financiado por impostos, o local dava o mesmo acesso a um garoto de nove anos, a um fazendeiro experiente e a uma viúva idosa. Eu era um membro da comunidade, então tinha meu direito de estar na biblioteca.

Mesmo naquela época eu estava fascinado com tudo relacionado ao espaço. Passei pela pequena coleção de livros de astronomia da biblioteca, cinco de cada vez. Livros de Asimov, Roy A. Gallant e H. A. Rey. Era uma biblioteca pequena, por isso não demorou muito para vasculhar as obras que ela armazenava. No país agrícola, até uma biblioteca é um pouco limitada.

Mas o lugar também tinha uma bibliotecária. Ela me dava boas-vindas toda vez que eu entrava e sempre se colocava à disposição caso eu precisasse de alguma ajuda. Então, quando terminei os livros de astronomia, pedi sugestões. Ela me apresentou o maravilhoso mundo dos empréstimos entre bibliotecas. Surpreendentemente, o cartão de acesso não apenas me permitia verificar os livros da biblioteca local, como também de outras. Eu podia procurar por livros no catálogo de cartões (que minha bibliotecária me ensinou a usar) e depois solicitá-los. Era só preencher um cartão de pedido, entregar à bibliotecária e os livros chegavam alguns dias depois. Para mim, aos nove anos, esse era um poder que beirava a magia, e eu o exercitava com frequência.

Na mesa principal da biblioteca, havia sempre alguns livros em exibição. Eles geralmente tinham capas interessantes e estavam disponíveis para quem quisesse consultá-los. Um dia havia uma cópia de “Starman Jones”, de Robert A. Heinlein, com uma capa verde brilhante com uma espaçonave no fundo. Quando a bibliotecária me viu olhando, ela sugeriu que eu o examinasse. Eu não era realmente um leitor de ficção, mas nenhum dos meus livros de empréstimo entre bibliotecas tinha chegado ainda, então eu dei uma chance para aquele. Quando voltei, alguns dias depois, falando sobre o quão incrível era, ela sorriu e me disse que havia vários outros do mesmo autor.

Eu sabia que a bibliotecária escolhia livros para exibição, mas na época eu não percebi que havia um método para sua loucura. Nos dois anos seguintes, outros livros apareceram: “O Hobbit” (J. R. R. Tolkien), “A Longa Jornada” (Richard Adams), “Duna” ( Frank Herbert). Quando aprendi a confiar nos livros apresentados, as ofertas se ampliaram: “As Aventuras de Huckleberry Finn” (Mark Twain), “To Kill a Mockingbird” (Harper Lee), “1984” (George Orwell). Entrei na ficção pelos olhos de Asimov, Heinlein e Clarke, mas suas vozes foram acompanhadas por Atwood, Achebe e Angelou.

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A leitura transforma as pessoas. Aos nove anos, a ideia de ir para a faculdade parecia uma fantasia selvagem. Quando me aproximei do final do ensino médio, senti-me pronto para o mundo acadêmico. Eu ainda era fascinado pelo espaço, e talvez, apenas talvez, eu pudesse me tornar um astrofísico.

E isso é exatamente o que eu me tornei.

Não foi apenas a minha bibliotecária local que guiou meu caminho para uma carreira na ciência. Houve também o apoio da minha família e meu próprio trabalho duro. Mas é difícil não exagerar a importância da biblioteca. Quando entrei, era o capitão do meu destino, mas a bibliotecária era uma navegadora fiel, guiando-me para praias distantes.

No verão passado voltei para minha antiga biblioteca. O eclipse solar total iria ser em breve, e eu deveria dar uma palestra sobre o que esperar dele. A bibliotecária da minha juventude há muito havia se aposentado e muita coisa havia mudado. A área perto da recepção agora tinha vários computadores para uso geral, e o catálogo de cartões tinha sido substituído por um par de tablets para pesquisas de livros. Havia DVDs no canto traseiro e pôsteres sobre e-books, com instruções sobre como usá-los por meio da biblioteca.

Mas ainda havia livros em exibição. Livros sobre astronomia e Sally Ride (a primeira astronauta norte-americana a ir ao espaço). E entre os adultos que participavam da conversa tinha, talvez, uma dúzia de crianças. Algumas tinham ido à biblioteca em bicicletas. Quando chegou a hora da conversa, elas se sentaram na frente e fizeram perguntas. Elas sabiam que podiam porque aquela era a biblioteca delas. E mesmo que tivessem apenas nove anos de idade, ouviam a mesma mensagem toda vez que entravam pela porta: “Bem-vindos à biblioteca. Aqui você faz parte da nossa comunidade. Aqui você tem um espaço”.

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