As lições de liderança e eficiência de Carlos Brito, CEO da AB InBev

Arquivo Pessoal Edu Lyra

 

A vida é surpreendente. Depois de se apaixonar por gestão, passei a querer conhecer Carlos Brito, CEO da AB InBev. O cara que cuida de marcas consolidadas no mundo e lidera um exército de pessoas em mercados como Índia, China, Europa, América Latina, Estados Unidos etc. Brito já apareceu algumas vezes na lista dos maiores CEOs do mundo e deve permanecer um bom tempo por lá com os resultados que tem apresentado.

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Digo que a vida é surpreendente, porque ela fez com que eu e Brito nos conhecêssemos em um lugar pouco comum: Harvard. Ambos fomos convidados, pela Brazil Conference, para dar uma palestra na universidade, que capacitou Barack Obama, Bill Gates e Mark Zuckerberg.

Além da palestra, pediram-me para entrevistar o Brito. Amei a ideia. Era tudo que eu precisava. Um bate-papo, ou como a gente diz na favela, “um papo reto” entre CEOs. Um liderando nas favelas e querendo ir para o mundo. Outro liderando no mercado global.

Na plateia da nossa conversa, muita gente boa, algumas excepcionais, como Jorge Paulo Lemann, curiosamente, o líder que ajudou diretamente Brito a alçar voo em sua impressionante carreira e, anos mais tarde, viria a me ajudar também a dar escala à ONG Gerando Falcões. Lemann, quando encontra alguém bom, faz a pessoa ficar muito melhor.

No bate-papo, falamos sobre gestão, liderança, Brasil e questões sociais. Brito deu uma aula. Um dos momentos mais bacanas foi quando ele falou sobre sua obsessão em abrir novos “gaps”. Brito disse que, quando parece estar tudo bem na companhia, ele se dedica a visitar empresas que fazem algo melhor do que eles, aprende com o mercado, volta para a Ab-Imbev e abre novos “gaps” para todo mundo correr atrás de fechar.

Este exemplo de nunca estar satisfeito e sempre querer dar um novo passo em busca da excelência é uma ambição saudável que o Brasil precisa incorporar, tanto nas empresas, quanto nas ONGs e, sobretudo, na gestão pública.

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Essa insatisfação está no grafite dos Gêmeos, na coreografia da Beyoncé, nas tacadas de Tiger Woods e na poesia do cearense Mailson Furtado, vencedor do Prêmio Jabuti, que escreveu seu livro à mão, na pequena Varjota. Uma mostra que excelência é uma busca, que nasce na riqueza e em meio a pobreza. Esta ambição de ser melhor a cada dia não pode decantar em nossa alma. Ser melhor e fazer grande, é que nem casamento, precisa ser renovado de tempo em tempo.

Imagina o tédio de ler o texto de um repórter que não quer surpreender. O risco de ser operado por um médico que perdeu a sede pela excelência. Pensa no arrependimento de assistir a uma partida de futebol, com jogadores mercenários, que só estão ali pelo dinheiro. E o risco de enfrentar uma tempestade, com um capitão, que parou no tempo. Ou ser liderado por alguém cuja alma se aposentou.

Enquanto eu mediava a conversa com Brito, sentia nele o espírito de um competidor voraz. Vivo. Vibrante. Você vê isso, nitidamente, quando olha em seus olhos e na disciplina que tem consigo mesmo e enquanto fala. Eu tento aprender o tempo todo em cada interação que tenho. E, quando você está frente a frente com um CEO como Brito, quer aprender ainda mais.

E se o Brasil, no exemplo do Brito, entrasse em jogo sempre para vencer e fizesse todo o esforço para ganhar suas partidas, no campo da educação, da saúde e da geração de oportunidades?

Vencer não é só jogar. É uma ciência exata. Precisa ter um sistema de gestão com metas claras. A melhor explicação que tive de metas veio do Brito. O raciocínio é este: imagina um campo de futebol sem as traves. Você joga, joga, mas não tem gol. Qualquer coisa serve. Agora, coloca as traves. Pronto, você sabe que o objetivo é marcar o gol. E o tamanho das meta é o número de gols que você tem de marcar.

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O Brasil tem muitos campos, mas poucas traves. Aí, a gente corre, corre, mas não chega a lugar algum. Não evolui. Tem de ter gente disposta a criar metas, botar disciplina e correr atrás.

Eu estou, com muito foco, fazendo isso nas favelas. É o jeito que encontrei para liderar uma transformação social. Inclusive, depois do bate-papo, convidei o Brito para visitar a favela. A vida não é surpreendente? Ele aceitou. De Harvard para a favela.

 

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Brito voou dos EUA com a família e esteve aqui neste mês. Passou uma manhã inteira na periferia comigo, em Poá. E conheceu uma das favelas que atendemos, além de ter visitado um dos negócios socias que vamos lançar, nosso laboratório de tecnologia, e interagido com as crianças que lutavam boxe, jogavam tênis, pintavam, cantavam e sonhavam.

Brito conheceu nosso modelo de gestão, como perseguimos nossas metas, nosso OBZ (orçamento base zero), gestão à vista, plano de carreira etc. Tudo que aprendemos na consultoria que tivemos no programa VOA, criado pela Ambev e replicado para dezenas de ONGs brasileiras, a fim de melhorar a gestão e ter mais eficiência.

Em Harvard, Brito foi entrevistado por mim. Na favela, enquanto andávamos pelas vielas, ele e sua família me entrevistavam. Tive a chance de falar sobre meus sonhos de enviar a favela para o museu e oferecer acesso à educação, dignidade e renda ao povo mais pobre, que mora nas periferias brasileiras.

E, embora a vida seja surpreendente, dessa vez, ela não me surpreendeu. Brito, além de tudo, tem sensibilidade social e quer fazer mais pelo Brasil. Deu sinal verde para a nossa parceria de transformar as favelas. Francamente, eu já imagina que isso aconteceria. Um verdadeiro CEO é competitivo nos negócios e também nas questões socais.

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