Por que ciência não é fake news

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Ela nos oferece a visão mais clara e precisa da realidade que já conhecemos

Você se considera uma pessoa geralmente inteligente, não? Uma pessoa competente em distinguir fatos de ficção que não é ludibriada com muita frequência. Uma pessoa capaz de raciocinar para sair de uma situação difícil e de identificar um impostor a quilômetros de distância. Sua intuição é ótima em discernir quando alguém está deturpando as regras para chegar à conclusão desejada e não àquela que as evidências respaldam.

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Há apenas um problema: quando você não é um verdadeiro expert em algo, você carece exatamente das habilidades necessárias para avaliar as evidências e determinar o que eles respaldam de fato. O conjunto de informações que temos, enquanto indivíduos, costuma ser limitado – e tendencioso. E, se você formou sua opinião com base em um conjunto incompleto de evidências, será mais difícil mudar de ideia. É por isso que temos a atividade científica e que você nunca deve comparar as descobertas da ciência com fake news, ou notícias falsas.

Sempre que percebe que há algo errado no seu corpo – quando acha que está com uma doença ou lesão –, você vira um detetive. Muitas pessoas percorrem uma lista de possíveis causas, com base tanto em sua experiência pessoal como em todas as informações que podem obter na internet. No entanto, por mais que se obtenha um monte de informações, isso não substitui uma consulta médica. Não substitui os exames reais e fundamentais que determinarão o que está acontecendo no seu corpo.

Sua febre, náusea e tontura podem não ser uma gripe, mas sim, contrariamente à intuição, uma infecção no ouvido. A dor que você está sentindo no braço pode ser uma simples tendinite, mas também pode ser causada por algo pior, como uma hérnia de disco cervical. E aquele caroço assustador nos seus testículos pode não ser um cisto benigno ou o terrível câncer que você está temendo, mas apenas uma veia varicosa.

Quando você vai ao médico, é porque está em busca de uma opinião mais embasada do que a melhor opinião que você é capaz de formular por conta própria. Você precisa de conhecimentos e expertise adicionais, além daqueles que possui. Precisa de alguém com não apenas conhecimento de expert a respeito dos sistemas relevantes, mas também com experiência de expert na obtenção de um diagnóstico preciso do problema. Precisa de alguém que olhe o seu ouvido e saiba o que está vendo. Precisa de alguém que faça as perguntas certas sobre o seu braço e, se suspeitar de uma hérnia de disco, peça uma ressonância magnética. E precisa de um médico experiente o suficiente para lhe pedir para deitar de costas e observar se aquele caroço desaparece, o que acontece no caso de uma veia varicosa.

E, às vezes, você precisa que seu médico diga que ele mesmo não tem a resposta, mas que um especialista talvez tenha. Precisa que seu médico reconheça os limites de seus próprios conhecimentos e capacidades. Você precisa de um encaminhamento.

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Para maximizar a sua probabilidade de um bom resultado e resolução de seus problemas de saúde, há muitas coisas que precisam estar alinhadas. Você precisa de um profissional que conheça o amplo conjunto de possibilidades para seus sintomas, que analise sua situação médica com precisão e que saiba como distinguir uma coisa da outra. Você precisa de alguém que seja cuidadoso, competente e capaz. E, ainda assim, precisa também que essa pessoa esteja certa.

Às vezes, você recebe um diagnóstico que simplesmente não pode aceitar ou no qual não consegue acreditar. Às vezes, o médico dá o melhor de si e simplesmente erra. E, outras vezes – embora se espere que seja raro –, seu médico é corrupto, incompetente ou charlatão. Às vezes, você precisa mesmo de uma segunda opinião. Mas, outras vezes, buscar uma segunda opinião é algo que fazemos simplesmente porque não gostamos da primeira que recebemos, mesmo que esteja correta.

Você pode ser extremamente inteligente e capaz em uma série de aspectos, mas é capaz de reconhecer de imediato os limites de seu conhecimento e expertise. Há algumas coisas que você sabe muito bem – possivelmente tão bem quanto poucas dezenas de pessoas na Terra. Porém, quando se trata da maioria das questões, há pessoas que têm níveis muito maiores de conhecimento e expertise do que você.

Isso não é um defeito seu. É resultado do fato de que, como seres humanos, só temos uma vida para viver. Quaisquer que sejam as atividades às quais dedicamos nosso tempo neste mundo – o que quer que tenhamos estudado, praticado, trabalhado, pesquisado etc. –, é aí que reside nossa maior expertise. E isso também se estende para além de nós mesmos: a expertise dos outros, particularmente quando somos desprovidos dessa expertise, é algo em que precisamos confiar quando não estamos por dentro do assunto.

É por isso que é tão perigoso e ilusório declarar que você, não sendo um expert, está mais preparado do que os próprios experts para avaliar um problema que exige expertise.

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Você não está.

Isso não significa que os experts estejam sempre certos. Não significa que não haja farsantes, vigaristas, tolos, comparsas e retardatários sem imaginação entre os experts. Não significa que as pessoas não sejam corruptas e não significa que o consenso dos experts não mudará à medida que mais e melhores dados ficarem disponíveis.

Mas é por isso que não temos apenas especialistas e temos a atividade científica.

A ciência – quando praticada da forma correta – é todo o corpo de conhecimento científico pertinente a um tópico e, ao mesmo tempo, um método para sintetizar todas essas informações em uma estrutura, modelo ou teoria abrangente. É natural que um campo científico tenha posições consensuais e posições divergentes: as primeiras representam o que a esmagadora maioria das informações indica provavelmente ser verdadeiro, as últimas representam uma posição minoritária que questiona o consenso.

Muito frequentemente, a posição consensual revela-se correta e aguenta o escrutínio. Na maioria das vezes, os divergentes atuam na obscuridade, e merecidamente, porque suas ideias são incapazes de explicar o conjunto completo do que foi observado. Podemos nos lembrar das ideias revolucionárias e dos momentos em que os cientistas erraram, mas isso é a exceção, não a regra. E, sempre que isso acontece, o consenso científico costuma mudar sem demora.

É verdade, como escreve Alex Berezow, que é possível os cientistas discordarem quanto aos fatos, e não apenas quanto à interpretação desses fatos. Contudo, em praticamente todos os campos, há posições consensuais com relação às quais quase todos concordam, a não ser pessoas motivadas, desde o início, a chegar a conclusões alternativas.

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A teoria quântica de campos e a relatividade geral são as melhores teorias físicas que descrevem o Universo, embora haja muitas ampliações e alternativas a essas teorias rolando por aí. A matéria escura, a energia escura e o Big Bang inflacionário são os melhores descritores do que compõe o nosso Universo e de onde ele veio, embora haja muitos cientistas divergentes por aí trabalhando em alternativas. Um grande impacto ocorrido há 65 milhões de anos é o melhor descritor do evento de extinção em massa que ocorreu na mesma época, embora haja alguns divergentes que atribuem as extinções ao vulcanismo ou a outros fatores.

E, talvez o mais relevante para a política mundial: há um consenso avassalador de que a Terra está aquecendo, de que as emissões de carbono causadas pelos seres humanos são o principal fator e de que isso provavelmente terá graves consequências em nível mundial para a humanidade.

É assim que a ciência funciona: há posições consensuais que representam a melhor ciência que conseguimos fazer até agora e há posições divergentes que as questionam.

Você pode não concordar com o consenso, mas não é essa a questão. A questão é que a esmagadora maioria dos experts que trabalham nos campos pertinentes da ciência física – da ciência do clima, da ciência atmosférica, da geociência e de áreas correlatas – concorda. Os teóricos concordam. Os modeladores concordam. Os cientistas de dados concordam. E as pessoas que discordam têm ideias concorrentes, mas essas ideias não são respaldadas pelo conjunto completo de dados e não são capazes de explicar as observações e as medidas tão bem quanto a posição de consenso é capaz.

Às vezes, os experts estão errados. Às vezes, a ciência nos surpreende e acabamos mudando de ideia à medida que surgem dados novos e melhores. Às vezes, as tendências são revertidas; às vezes, a causa de um fenômeno é diferente e mais profunda do que imaginávamos de início. A ciência não acaba; ela simplesmente avança para uma aproximação melhor e mais precisa da realidade.

É por isso que devemos aceitar um consenso científico robusto – onde quer que ele exista – como a posição inicial padrão para o que faremos a seguir. Caso haja uma decisão política a ser tomada, ela deve ser tomada no contexto desse consenso. Quando descartamos a ciência, descartamos nossa ideia de que nos importamos em compreender nossa realidade e tomar decisões baseadas em fatos com relação a ela. Quando afirmamos que sabemos mais do que os experts, desvalorizamos o empreendimento do conhecimento humano.

Ciência não é fake news. Muito pelo contrário: ela oferece a visão mais clara e precisa da realidade que já conhecemos.

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