O supermercado de virtudes

No verão das tragédias, cuidado para não chorar por qualquer coisa. Uma vereadora do PSOL no Rio de Janeiro avisou que você só poderia chorar pelos adolescentes mortos no centro de treinamento do Flamengo se chorasse também pelas vítimas de uma operação policial no Catumbi. E você nem sabia que era preciso fazer cadastro ideológico para sofrer.
Mas é. Ou melhor: ideologia é só a embalagem. O conteúdo do pacote é uma mistura simples de humanismo matemático com oportunismo mórbido – o que resulta numa consciência política tão vistosa que muita gente acha até que é verdadeira.

Assim funciona a bolsa de valores progressistas no Brasil e no mundo em 2019 – uma sôfrega, patética e avassaladora afetação de virtudes.

E você nem precisa fazer a conta para concluir que humanismo matemático é igual a zero. Sem problemas. Para afetar a virtude que não tenho, me basta patrulhar você: “Não dá pra chorar os dez mortos no Flamengo sem chorar os 13 mortos no Catumbi!”

Num mundo saudável, o diagnóstico para isso seria algo como urubu com sangue de barata. No mundo atual, temos aí um possível herói de Facebook – cheio de likes, votos e, eventualmente, grana.

As buscas pelos desaparecidos em Brumadinho estavam ainda nas primeiras incursões e já havia uma campanha de cosméticos com modelos cobertas de lama. E nem adianta fingir que foi uma estupidez isolada (ainda que fingir esteja na moda) porque este é, definitivamente, o século da solidariedade fake – com suas musas de acampamento e seus ensaios de miséria fashion.

A campanha da Gillette sobre masculinidade tóxica já tinha roubado a cena, ensejando uma torrente de falsas polêmicas. O problema não é o mundo combater a grosseria – e os brutos já estão na berlinda há mais de meio século. O chato é constatar que a única forma de vender alguma coisa hoje – até utensílio para raspar pelos – é bancar o corregedor comportamental.

Supermercado de virtudes com patrulhamento 24 horas não é um bom lugar para se viver.

Mas nem tudo está perdido. No Globo de Ouro, que virou uma espécie de picadeiro politicamente correto, o grande vencedor neste ano foi o filme sobre Freddie Mercury, artista monumental que nunca usou a condição homossexual para vencer na vida. Freddie não era primo de Daniela.

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