Perdão ao bom ladrão

Getty Images
Na terra do nunca, combater a pilantragem é crise de identidade

 

A Justiça reduziu a pena de Lula. Faz sentido. Num país com veneração confessa por heróis 171, onde as lágrimas de crocodilo do picareta são campeãs de audiência, o maior ladrão da história merece um refresco.

Pela primeira vez abre-se a perspectiva de regime semiaberto para o ex-presidente. Ótimo. Estava se tornando mesmo uma crueldade obrigá-lo a conspirar dentro da cela, chegando ao ponto de ter que tutelar o presidenciável da quadrilha nas barbas do carcereiro. É muita falta de privacidade.

Se tudo correr bem, Lula vai poder conversar com José Dirceu sobre a fortuna roubada dos brasileiros longe da polícia, que só atrapalha a revolução companheira. Pensa bem: como você pode decidir com tranquilidade a compra de um juiz ou de um deputado com esses bisbilhoteiros te patrulhando? Cadê a liberdade de extorsão?

Se a pena de Lula não fosse reduzida, haveria o risco claro de o Brasil começar a achar que o crime não compensa. Agora as coisas estão voltando aos seus lugares. Se você tem dúvidas de que o ex-presidente duplamente condenado por corrupção e réu em outros seis processos merece o benefício de ter sua punição amenizada, ponha-se no lugar do magistrado.

O que você faria diante de um ladrão de grande porte que ainda responderá por formação de quadrilha com ditadores amigos para assaltar o BNDES? Que ainda terá de acertar contas com a Justiça por criar o PAC do Roubo ao Pré-Sal que faliu a Petrobras? E também por saquear o Banco do Brasil, por vender medidas provisórias, por desviar bilhões de dinheiro público transformando um açougueiro em laranja do partido para subornar a República inteira, entre outras ações sociais sem precedentes? Você também não teria dúvidas: reduziria a pena do pobre homem.

O Brasil está louco para refrescar Lula porque é um país onde dezenas de milhões votam num suplente de presidiário, onde “democratas” dizem que “é triste” a prisão do maior ladrão da história e onde a reconstrução econômica é chamada de fascismo. Na terra do nunca, combater a pilantragem é crise de identidade.

 

Siga FORBES Brasil nas redes sociais:

Facebook
Twitter
Instagram
YouTube

Os artigos assinados são de responsabilidade exclusiva dos autores e não refletem, necessariamente, a opinião de Forbes Brasil e de seus editores.

Copyright Forbes Brasil. Todos os direitos reservados. É proibida a reprodução, total ou parcial, do conteúdo desta página em qualquer meio de comunicação, impresso ou digital, sem prévia autorização, por escrito, da Forbes Brasil (copyright@forbes.com.br).