O anti-CEO

iStock
Para liderar, é preciso ser gente que goste de gente

“Na era da Machine Learning, precisamos abandonar nossa insistência em sempre entender o nosso mundo e como as coisas acontecem nele.” (David Weinberger)

Hamdi Ulukaya, fundador da Chobani, marca americana que viralizou o iogurte grego pelo mundo, já disse algumas vezes que quer ser um anti-CEO, “um líder que não segue as práticas esperadas pelo mercado”.

Em entrevista ao Financial Times, deu algumas receitas de como administrar uma empresa. “Nós ouvimos muito as opiniões dos advogados e do pessoal de Relações Públicas”, diz Ulukaya. “Perdemos como sermos humanos.” De acordo com ele, “é extremamente importante que marcas e empresas permaneçam humanas porque negócios são feitos de seres humanos”.

O que Ulukaya diz faz muito sentido, ainda que as relações humanas estejam em plena transformação com a utilização cada vez mais constante da Inteligência Artificial e da internet, numa ebulição que mais produz perguntas do que certezas sobre a maneira como entendemos o mundo. Ainda assim, tudo que queremos é nos relacionar com mais e mais pessoas para exercer a nossa humanidade. Não é isso? A única certeza que parece que temos é que as inovações tecnológicas vão impactar nossa vida. Como qualquer ferramenta, há o lado bom e o ruim em cenários de mudanças drásticas.

Um dos principais objetivos de executivos ainda é tentar antever como as coisas acontecem para produzir modelos os mais seguros possíveis para tomar decisões. Não por acaso, o filósofo David Weinberger escreveu que nós, humanos, temos a impressão de que, se pudermos entender as leis imutáveis de como as coisas acontecem, poderemos prever, planejar e gerenciar o futuro com perfeição.

Não sou tecnólogo, mas um curioso atento em saber como as coisas acontecem. E não canso de repetir que palavras convencem; exemplos arrastam. Vejo isso quase que diariamente em meu círculo de relacionamento na área da advocacia empresarial. Independentemente das novas ferramentas utilizadas pelos empresários e executivos de grande sucesso, é a forma de se relacionar dessas lideranças com seus colaboradores, parceiros e clientes que faz a roda girar.

Ainda que o turbilhão complexo de dados e informações que estão ao nosso redor coloque em xeque nossa compreensão e capacidade de conceituar o mundo, o uso da intuição, da criatividade e a disposição de se relacionar com o outro parece ainda ser o fator diferencial das lideranças da nova economia — como sempre foi entre líderes verdadeiros.

Não vejo apenas sinais do uso maciço de novas tecnologias. Não que isso não tenha peso, pois sabemos que tem e muito. Porém, o passo à frente está na humanização no uso de dados, se é que isso pode ser dito dessa maneira.

Vejo pessoas agindo para conquistar outras pessoas, colocando em prática ideias que já parecem normais e óbvias em nosso cotidiano, mas criando, acima de tudo, interrelacionamentos. Voltando ainda a Weinberger, a evolução nos deu mentes sintonizadas com a sobrevivência e apenas incidentalmente com a verdade. Me apego à primeira parte da frase: a evolução nos deu mentes sintonizadas para a sobrevivência.

Atualmente, vivemos uma dicotomia entre o uso da tecnologia e o comportamento. Porém, os manuais de gestão de pessoas dizem que, para aprimorar suas habilidades de liderança, é necessário investir na aquisição de conhecimentos em gestão de pessoas e de negócios. Além disso, é preciso desenvolver comportamentos essenciais ao papel do líder: delegar decisões, monitorar, ouvir para entender, mostrar o caminho, inspirar, motivar e reconhecer o esforço das pessoas que integram o seu elenco.

Resumindo, para liderar é preciso ser gente que goste de gente. Líderes de excelência conseguem promover uma equipe de excelência extraindo o melhor de cada um. Maximizando virtudes e minimizando falhas.

Weinberger tem razão. Na era da Machine Learning, precisamos abandonar nossa insistência em sempre entender o nosso mundo e como as coisas acontecem nele. Mas não podemos deixar de insistir em entender as pessoas.

Retornando a Hamdi Ulukaya, do iogurte grego, a sua Chobani vem perdendo mercado, enfrenta forte concorrência já que há inúmeros fabricantes de iogurte grego pelo mundo e está endividada. Gestão complicada, mas a receita de Ulukaya de como tratar gente ainda parece a melhor e não foi aí que ele falhou.

Siga FORBES Brasil nas redes sociais:

Facebook

Twitter

Instagram

YouTube

Baixe o app de Forbes Brasil na Play Store e na App Store

Os artigos assinados são de responsabilidade exclusiva dos autores e não refletem, necessariamente, a opinião de Forbes Brasil e de seus editores.

Copyright Forbes Brasil. Todos os direitos reservados. É proibida a reprodução, total ou parcial, do conteúdo desta página em qualquer meio de comunicação, impresso ou digital, sem prévia autorização, por escrito, da Forbes Brasil (copyright@forbes.com.br).