O curioso e exclusivo mundo dos carros em miniatura

Foto Reprodução Forbes
O design e a produção dos moldes leva entre 2,5 mil e 4,5 mil horas – no caso dos modelos mais clássicos e complexos, além das 250 ou 450 horas para fazer cada modelo.

Sandy Copeman e sua equipe de artesãos de Bristol, Inglaterra, constroem carrinhos de brinquedo famosos entre os entusiastas. Entre eles, estão o Alfa Romeo 8C 2900 Mille Miglia 1938, o Bugatti Tipo 57SC Atlantic 1938, a Ferrari 250 GTO 3589GT 1962, o Jaguar E-Type Series 1-3.8 Coupé 1961 e o Porsche 356A Speedster 1957. Cada carrinho é uma obra-prima artesanal impecavelmente construída e pintada – e custa uma fração do preço desses veículos antigos e contemporâneos exóticos, que poderiam ser encontrados em um leilão, por exemplo.

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As miniaturas têm um oitavo do tamanho dos veículos originais. Isso porque a empresa de Copeman, a Amalgam Collection, é especializada na construção de modelos em escala meticulosa, tanto dos automóveis antigos, quanto dos mais modernos. Na verdade, fora o tamanho, muitas vezes é difícil distinguir as obras-primas em miniatura da realidade. “Esse é o nosso objetivo”, afirmou o fundador, de 65 anos. “Se você tirar uma foto de nossos produtos e mostrar para alguém, essa pessoa não saberá dizer se está vendo um carro original ou de brinquedo. É assim que sabemos que o nosso trabalho valeu a pena.”

Alguns dos modelos da Amalgam têm até mesmo o desempenho dos carros reais. A nova miniatura da McLaren Senna, por exemplo, que custa um pouco mais de US$ 13 mil, possui faróis e lanternas traseiras que acendem por controle remoto. As portas são motorizadas, podendo abrir e fechar por meio de comando.

O interesse de Copeman na área se deu quando ele ainda era um adolescente. Ele construiu um telescópio refletor aos 14 anos, assim como um par de guitarras elétricas. Uma de suas maiores paixões era modificar e pilotar motocicletas. “Eu costumava tirar toda a estrutura de aço para transformá-las em peças mais estreitas. Depois, acelerava essas máquinas no jardim dos meus pais em Londres”, lembra ele rindo.

Aos 17 anos, depois de abandonar a escola, Copeman se tornou um nômade. “Eu era um jovem hippie, que costumava viajar pela Europa e Norte da África. Esse era o sonho de qualquer pessoa com espírito aventureiro naquela época”, conta. Finalmente, ele se estabeleceu na Nettlecombe Studios, uma colônia de artistas em Somerset, na Inglaterra, que foi fundada pelo pintor e mestre da gravura britânico John Wolseley. Lá, depois de ter sido convidado a criar maquetes de prédios e aldeias para uma empresa de arquitetura, Copeman descobriu seu maior talento: construir carros em miniatura.

No fim da década de 1970, Copeman se mudou para Bristol e, em uma década, ele e três amigos deram início à Amalgam Modelmakers. “Depois de seis anos trabalhando com isso em outra empresa, nossas habilidades e confiança cresceram, e decidimos começar nosso próprio negócio, criando maquetes que poderiam agradar Norman Foster e outros arquitetos em ascensão, mas também designers industriais como James Dyson”, diz.

A Amalgam começou a projetar alguns modelos para as equipes de Fórmula 1, em 1995, depois de se aproximar do Jordan Grand Prix, uma equipe de construção de veículos da modalidade. “Aquilo foi a cristalização de uma paixão pelo automobilismo que eu e vários membros da nossa equipe tivemos, especialmente pela Fórmula 1”, lembra. Quando criança, Copeman era fã de Jim Clark, um dos maiores pilotos de F1 do mundo, além de ter sido um “entusiasta” das corridas de autorama quando tinha 15 anos. “Minha paixão pela F1 dos anos 1960 – e pelo design de carros em geral – só estava esperando para encontrar uma luz. Tivemos a oportunidade de fazer um primeiro modelo sob licença, o Jordan 196, depois fizemos um acordo com a Williams Formula 1, em 1996, e, até que enfim, com a Ferrari, em 1998.”

Em 2004, a Amalgam se dividiu em duas: Amalgam Modelmakers e Amalgam Fine Model Cars. Enquanto uma equipe fazia maquetes específicas, a outra produzia dezenas de carrinhos em miniatura. “Eu tinha ambição de construir uma marca que fabricasse os melhores modelos de carros do mundo”, revela Copeman. “Isso envolveu um grau de risco e uma missão não compartilhada com meus parceiros.” No entanto, as duas empresas ainda são profundamente conectadas. “Nós operamos no mesmo prédio por vários anos e ainda somos muito amigos.” Mas Copeman não tem interesse financeiro na empresa original. “Compartilhamos a propriedade de nossa primeira oficina”, diz.

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De 2006 a 2007, o então presidente da Ferrari, Luca Cordero di Montezemolo, contratou a Amalgam para fazer miniaturas das atuais e clássicas Ferraris. “Começamos com o 250TR, ao contrário do GTO”, diz Copeman. Depois de um certo tempo, a Lamborghini, a McLaren e outras montadoras começaram a querer modelos em miniatura de seus veículos também. E foi aí que os negócios começaram a decolar.

Hoje, a empresa, que Copeman renomeou em 2016 para Amalgam Collection, fatura cerca de US$ 10 milhões por ano na construção de mais de 500 modelos por mês – que variam entre US$ 685 e US$ 150 mil dependendo do tamanho e da quantidade de detalhes. A empresa emprega mais de 200 pessoas e conta com duas fábricas para além de Bristol, em Chang An, na China, e em Pécs, na Hungria.

“Nós gerenciamos o design e o processo mecânico em Bristol, mas a maioria dos modelos é fabricada na China e na Hungria. Estamos também cada vez mais participando de processos terceirizados e fazendo projetos especiais fora da Inglaterra.”

Mas como um carrinho vai do conceito para a forma final? No caso dos modelos mais novos, a equipe da Amalgam trabalha a partir de desenhos CAD originais, fornecidos pelos fabricantes, para produzir layouts minuciosamente precisos de cada peça do carro. “Usando os dados do CAD, todas as peças se encaixam e se conectam de uma maneira sólida e bem projetada”, explica.

Os modelos mais clássicos são formulados a partir de digitalizações das medidas do veículo. “Também trabalhamos com algo entre 600 e 800 fotografias”, diz Copeman. “Nós as usamos para garantir que tudo saia dimensionalmente correto.”

Uma vez que o design é definido, ele é meticulosamente reduzido para dar vida aos detalhes em miniatura. Moldes são criados para as partes individuais, e metal, fibra de carbono ou borracha são usados para construir cada peça do quebra-cabeça, enquanto outras são produzidas por impressoras 3D.

Depois dos moldes, as pecinhas são lavadas, limpas e lixadas. Em seguida, cada conjunto de peças passa por um processo de fixação e encaixe, a fim de garantir a ligação perfeita. Na sequência, os modelos são preparados, pintados com spray e polidos. Depois, vem a aplicação dos decalques e acabamentos impressos. Por fim, os subconjuntos, como motores, cubos de roda e suspensões são construídos, seguidos pela montagem final. “Aproximadamente 90% das habilidades que usamos são muito tradicionais”, diz Copeman sobre o processo, do qual a maior parte é feita à mão, como na alta relojoaria. “Apenas 10% são modernas.”

O design e a produção dos moldes leva entre 2,5 mil e 4,5 mil horas – no caso dos modelos mais clássicos e complexos, além das 250 ou 450 horas para fazer cada modelo. “A LaFerrari, por exemplo, consome cerca de 3,5 mil horas para ser desenvolvida, e outras 350 para ser construída.”

A clientela elitista da Amalgam é composta, majoritariamente, por equipes de Fórmula 1, mas também colecionadores. O ator Sylvester Stallone, por exemplo, comprou uma miniatura da Ferrari F1 de edição limitada, da era de Michael Schumacher, do início dos anos 2000. O estilista Ralph Lauren encomendou 17 modelos enquanto eles ainda estavam expostos no Musée des Arts Décoratifs, em Paris, incluindo uma versão do Jaguar D-Type que foi um sucesso em Le Mans em 1955, 1956 e 1957. O famoso relojoeiro suíço Richard Mille comprou várias miniaturas de alguns dos mais raros e significativos veículos de corrida antigos, como o primeiro carro de Fórmula 1 de Bruce McLaren, o M2B de 1966, e a Ferrari 312B, que venceu o Grande Prêmio da Itália de 1970 e foi dirigida por Mario Andretti.

Por incrível que pareça, Copeman não coleciona os carros. Para ele, tudo se resume à experiência pessoal de andar ou dirigir um veículo. “Eu tinha alguns carros pequenos, mas interessantes, como o MG Magnette, da década de 1950, e fiz parte de alguns passeios memoráveis, como a corrida de 160 mph na auto-estrada M1, em um Sunbeam Tiger contra um Jaguar E-Type”, conta. “Mas eu tenho muito mais motocicletas do que carros.” Seu veículo para o dia a dia é uma Mercedes CLS Shooting Brake.

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